Barriga precisa-se!

A experimentar

Regressamos sempre com gosto cerimonial à Vila da Golegã. Onde um vínculo familiar com muito boas memórias nos convoca para o carinhoso imaginário da Família, do cavalo e da sua   nobreza.

A Golegã continua elegante, indiferente ao tempo, no aguardo sereno das festas. E essa tranquilidade é generosa para quem foge da explosão das grandes metrópoles, da sua ansiedade e agitação.

Ir a pé a quase tudo, vasculhar na vida de Carlos Relvas um dos pioneiros europeus da fotografia ou visitar com a merecida devoção a Igreja Matriz, com um dos pórticos mais bonitos de Portugal, são exemplos de um privilégio para quem quer conhecer a Golegã nos dias mornos que se vivem, muito para além do bulício das suas tão concorridas e celebradas feiras principais.

Fico sempre apreensivo quando me desloco sem conhecer minimamente, como era o caso, a oferta gastronómica. Deixei esse espinhoso encargo com meu querido amigo e anfitrião José Milheiro da Costa.

E uma das prescrições era este Barrigas. Casa bonita, airosa, que se prolongava depois de um corredor amplo, por duas salas luminosas separadas por vidro transparente. Numa estavam os lugares dos comensais, na outra, três grandes mesas postas a que já voltaremos. Amesendação simples, pós-covid, mas pelo menos sincera e agradável no serviço.

Nas três grandes mesas espreguiçavam-se travessas fundas e largas, prenhes de bons petiscos. Era o Buffet de entradas. A modalidade proposta era inteligente. Por um preço que não se pode dizer que não fosse justo, duas pessoas ou um seu multiplicador, partilhavam o acesso livre ao buffet, um prato de peixe ou de carne e o estimulante carrinho de sobremesas que víamos girar com alegria pelas mesas mais adiantadas. Dizia que a modalidade era inteligente porque todos os “jarretas” como nós têm mais fome que barriga, mais caminho do que perna, enfim no final, mais perspetiva e ambição do que verdade e concretização.

A mesa das entradas que não consigo descrever plenamente tinha uma favas luzidias onde só sobrava a casca, umas sardinhas pequeninas de escabeche, bem feito, talvez a pedir um pouco mais de acidez, um polvo em pedaços pequenos de sabor exuberante, muitos enchidos de variada ordem, onde a alheira me captou a atenção, Um caldo de ervilhas com carne e enchidos que fazia um belíssimo ragoût, uma mesa de queijos com uma peculiar bola de milho, cogumelos, cenoura em vinagrete, o proverbial presunto de boa cura e assim num olhar largo da memória julgo que percorri a significância rica e generosas das mesas que nos convidavam para quase tudo.

Provei a sardinha, o ragoût de ervilhas, uma pizza já “rilhenta” como nós, o magnifico polvo, a alheira, a bola de milho encimada por um queijo honesto da região e as favas, esse monumento gastronómico onde só tive pena que não lhes tirassem a pele.

Os pratos de substância também tinham aparato. Ficamos de olho numa “posta ao carvão” com migas e batata frita e foi isso que os 4 acabamos por pedir, mas havia, bacalhau, peixe de mais de uma espécie, caril de gambas, fritada de camarão, naco de porco no carvão, bifinhos de novilho. Enfim, um desfilar de coisas boas que faziam perceber melhor a barriga que era exigida para uma profética visita a este Barrigas, A posta estava no ponto veio já laminada com ligeiro aroma ao fumo do carvão, vinha acolitada de umas batatas fritas de corte fino e umas migas sápidas e digestivas. Acompanhamos com um vinho da região que não deslustrava.

Ficou espaço pequeno para o bonito carrinho de sobremesas que lá girou, já cansado, para a nossa mesa – os pudins, a baba de camelo, a mousse de manga e de chocolate, davam nas vistas. Tivemos que, vencidos, ficar na fruta – o ananás, o melão, as cerejas e os morangos eram o que a época oferecia e pareceram-nos muito bem

Grande fim de semana na Golegã, com a fraterna e carinhosa companhia da Gracinha e do Zé e com a inefável peregrinação a este Barrigas que sai de sortes com duas orelhas e ruidosa ovação!

Texto de António Sousa Cardoso para o Vida Económica.

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