A Largada de leitões

A experimentar

A Pocariça é uma povoação do Concelho de Cantanhede. Perdeu o estatuto de freguesia na voracidade simplificadora da reforma Administrativa de 2013.

É uma terra antiga, diz-se que habitado por Celtas e Túrdulos Velhos. Tem uma inquestionável necrópole romana no lugar do Beato. E uma vila luminosa com uma elegância que faz lembrar o veraneio, sem que a praia exista nas cercanias!

E se a terra é antiga e suave, também o são a amizade que dedico aos meus velhos amigos Manucas e Licínia. Ele não só velho na amizade, mas também na condição, pois já assim nasceu, como uma loja de velharias. Antes da Pocariça se juntar ao lugar do Montinho, já o Manucas e a Licínia o tinham feito, ele de lá, ela de cá, os dois juntos numa tranquila felicidade que corre pacifica, já com netos, a linha inexorável e teimosa do tempo.

Ele calha de ser nosso Chanceler – calha julgo que é pouco, vamos corrigir: O Manuel Pessoa Jorge, assim é que é, distingue todos os Confrades com a sua qualidade de Chanceler numa, também já crescida, Real Confraria de Santo Humberto.

E foi na Pocariça que há uns dias o grupo fundador encontrou abrigo para cumprir uma tradição quase tão avoenga como a Casa ou a Povoação.

A Casa do Manucas e da Licínia, já que falei nela, é uma das Casas bonitas da Pocariça. Tem um não sei quê de colonial com uma varanda que se adoça na frescura e proluxidade arbórea do jardim. Ali estivemos em casamentos e baptizados, coisas carinhosas de Família cujas memórias costumam mimar o coração dos velhos.

Mas regressemos à tradição avoenga porque esta sim tem a ver com o que nos faz escrever aqui. É na Pocariça que de há muitos anos se faz a famosa Largada de leitões. Assim denominada por autor anónimo no calor das largadas de caça que a Confraria realiza habitualmente.

Duvidarão que o leitão voe (?). Pois, mas que ele voa da travessa para o prato em estonteante velocidade, disso não tenhamos dúvidas; bem assim como cai redondo em cada prato, trespassado por dentes (ou placas?) e saliva (ou gula?) desvairados.

É, para nós, estou seguro que falo por todos, o melhor leitão do Mundo.

Mas comecemos por onde é habitual que é o princípio. Recebidos com o calor das amizades verdadeiras provamos o grande espumante de Poço Lobo (Manucas também é Confrade e Enófilo Bairradino), com um pão denso das terras do leitão e um presunto de cura portuguesa com o (ou a) qual, depois de tanto “pata negra”, me voltei a afeiçoar. Fomos de corrida para a mesa. As graças habituais e também a já famosa canja de perdiz, que tem a mesma temperança, mas outro trapio paliativo que a sua parente de galinha.

E depois, oh vaga do mar! Eis que num assomo se levam à mesa as travessas imponentes do leitão. Com a crocância luzidia da pele virada para cima como a desafiar-nos, e enfeitada com as indispensáveis rodelas de laranja. A tradição aqui é a batata cozida, mas desta feita (imagino que a inovação não tenha saído da cabeça poeirenta e conformada do Manucas), foi servida batata nova, assada conjuntamente com o leitão, a chamar por aquele molho que quase nos leva ao céu. Uma, duas, três vezes, como Pedro, eu pequei nesta largada onde nem foi preciso mudar de porta. O leitão caia com estrondo aos pés de uma sofreguidão absurda que só aqui é que sentimos. Deixei-me ficar quieto no belíssimo espumante do Poço Lobo. As sobremesas eram esmeros mimosos das Senhoras da Confraria. Magnificas, claro está, não vou mencionar nenhuma que as não decorei a todas e sei que a represália da exclusão é mais que segura.

Que bela Pocariça, que grande este leitão bairradino, servido no preceito carinhoso da Família. Foi como é sempre aqui, um dia de Fraternidade. Bem-hajam!

Texto de António de Souza-Cardoso

Este artigo foi publicado originalmente no Semanário Vida Económica

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