A sorte de nos sair a fava

A experimentar

Este é um momento histórico. Direi mesmo mais, é uma hora histórica: acabo de comer, às 12h40 de uma segunda-feira de Abril, umas magníficas favas com um rico molho e pedacinhos de vários enchidos. Como sou cliente habitual da casa, mimam-me com umas peças extra de chouriço e morcela, mas não precisavam. Ou então, na volta, tratam todos os clientes igualmente bem. Não era preciso porque do que gosto mesmo é das favas. Prato mais de inverno que do calor agora em voga, daí que eu tenha ficado surpreendido por ainda estar no menu, tal como nas segundas-feiras dos últimos meses. As favas são o oposto das sardinhas, ou talvez a identidade secreta uma da outra, tipo Batman e Bruce Wayne. Afinal, quando comemos favas, as sardinhas nem vê-las, quando chegam as sardinhas são as favas que dão às de Vila Diogo. Um mistério por esclarecer, mas que explicaria muita coisa. Ambas, sardinhas e favas, são iguarias de pobre, um alimento que vem de um tempo no qual, se mais escasseasse, haveria sempre favas para nos encher o bandulho ou sardinhas para decorar a côdea de pão.

Obviamente, as favas não podem ser servidas cruas, nem simplesmente metidas em água a ferver. Daí a mão de quem cozinha ser tão importante, tal como os condimentos que abençoam este real (no sentido menos nobre, de real, mesmo real, tão real que é quase chão) prato.

A fava é tão chã que é a vilã do bolo-rei, o oposto do brinde. E a única vez que a vi referida em Hollywood foi na boca de um gourmet com apetites gastronómicos peculiares, o Dr. Hannibal Lecter, quando em ‘O Silêncio dos Inocentes’ diz à inocente Jodie Foster que comeu um dos seus pitéus favoritos com “um bom vinho Chianti e favas”. Vinho Chianti já provei, favas também, do outro condimento não me recordo, mas um dia destes sou menino para o pôr na agenda.

Rui Zink
Escritor

 

 

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