E a melhor Francesinha do Mundo é…

A experimentar

 

Tal como o futebol ou outras crenças ou motivações, falar sobre a melhor Francesinha no Porto é sempre motivo de celeuma e discussão. E não me venham com tangas que a melhor está do outro lado do rio ou em terras do Sul porque francesinha é no Porto. Carago!

O ranking da melhor “quelque chose” é sempre subjetivo e é algo em que nunca devemos fiar-nos, no entanto, como já provei Francesinhas em vários recantos do país e do estrangeiro, fico sem grandes dúvidas, repito, fico mesmo sem dúvidas, de qual é a melhor Francesinha do Porto.

Quando Daniel David Silva veio da França em 1960 e resolveu trazer a sandwich, inspirada na Croque-Monsieur, jamais imaginava que o seu nome ia ficar ligado à história da cidade para todo o sempre. Regionalismos à parte, é um snack do catano! Novamente sem grandes dúvidas é o melhor snack que alguma vez conheci e por isso, o melhor do mundo.

Conheci o Bufete Fase com 15 anos e na altura, embora com o mesmo proprietário, o conceito era totalmente diferente do atual. Era um minúsculo café, com apenas 3 mesas de 2 pessoas, um balcão corrido, onde eu ia com regularidade tomar o pequeno-almoço tardio. E porquê? Porque serviam uns banais Panikes mistos abertos a meio e com molho de Francesinha a rechear. Tunga! Com um pingo (garoto no centro e sul) a acompanhar e deixou saudades até hoje.

O Sr. José começou desde a abertura a fazer Francesinhas, desde cedo começou a ser falado nas redondezas e rapidamente em toda a cidade. Vou resumir o carinho e a qualidade de tudo o que estava no petisco numa história que se passou comigo: um dia, há 30 anos, entrei já a babar-me tipo rottweiler para atacar uma ou duas de uma vez e o Sr. José informa-me “jovem, hoje não há Francesinhas!”. “O moço que vem trazer a carne todos os dias, hoje foi recambiado para trás, porque a carne não tinha a qualidade pretendida”. E “prontos”, um dia sem vender dezenas de Francesinhas porque a matéria-prima não agradou. “Caaaiiimmm”, lá fui eu também recambiado faminto para o ninho.

Hoje, o Bufete Fase só faz Francesinhas, a Filipa (filha do Sr. José) nunca mais fez as deliciosas Natas do Céu que no passado existiram, mas há mais mesas disponíveis, depois de terem comprado o antigo Café da Fontinha e alargado o espaço.

E porque entendo que as do Bufete Fase são as melhores? Ora vamos lá. Em primeiro lugar, o pão de forma cortado em fatias grossas (e não daquelas de pacote que ficam tipo açorda quando levam o molho por cima), torradas e colocadas no frio. No frio vão secar e ficar mais duras, o que permite que quando levam o molho por cima fiquem chocantes e firmes. Simples e genial.

Em segundo lugar, a carne é assada todos os dias (no início eram só com bife). Qual a vantagem? Quando é montada e leva calor não fica a saber a requentado (há um lugar no Porto que muita gente gosta, a Cufra, onde eu não gosto das Francesinhas, porque, na maior parte das vezes, a carne assada sabe a requentado e estraga todo o resto).

Em terceiro, não há variante com ovo. A gema a babar fica lindamente nuns ovos benedict ou numas favas com chouriço mas, numa Francesinha, com um molho tão rico e potente só vai atrapalhar e estragar.

Em quarto lugar, esta Francesinha do Fase leva salsicha fresca bem grelhada e linguiça. Nem só uma, nem só a outra. E eu gosto assim.

E depois o molho. O que me fascina do molho do Fase é que tem um acidulado que encaixa deliciosamente em todas estas as camadas. É subjetivo? É! Mas duvido que haja alguém que diga que não gosta. Só se não gostar de Francesinhas.

O que tornava este Bufete Fase o Éden? Se as batatas fritas fossem cortadas no dia, em vez de serem congeladas. Eu percebo que é prático e que são apenas 3 pessoas no serviço, mas muitos estavam dispostos a pagar um adicional por este upgrade.

A idade passa por todos, o cansaço e a saúde pesam e por esse motivo, hoje só servem almoços durante a semana. Mas a gentileza do Sr. José é a mesma de sempre.

Hoje puxei os galões de ser filho único. Não aceito discussões sobre este tema. Até porque é assim que deve ser quando falamos de Francesinhas.

Não conhecer o Bufete Fase é como ir ao Dragão e não ver o Papa.


José Manuel Pires

Empresário

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