O “G”. A Estrela do Nordeste

A experimentar

Bragança é uma cidade onde ainda se sente alguma interioridade, no entanto, olhando para os últimos 15 anos, é uma cidade já com uma dinâmica muito interessante. O Politécnico veio rejuvenescer uma região emigrada e imigrada, o polo industrial trouxe nervo empresarial a uma cidade parada no tempo, os acessos deixaram de ser uma desculpa (em menos de 2 horas fazemos uma confortável viagem a partir do Porto). “Nuestros Hermanos” marcam forte presença, ao contrário do passado, em que eram os Brigantinos a sair para Espanha e gastronomicamente falando, a cidade está arejada, empolgante, sempre com novos espaços a abrir e a ter, também, opções de vanguarda aproveitando a riquíssima matéria prima das região.

Quando se fala em gastronomia, impossível é não falar da Família Geadas ou, melhor dizendo, Gonçalves. A Dª Iracema e o Sr. Adérito, ela na cozinha e ele no serviço de sala, continuam a ser referência de bem comer e receber e os seus filhos (Óscar e António), com todo este saber adquirido ao longo de muitos anos na cozinha do Geadas, soltaram amarras e lançaram-se com o G (entre outros projetos), na antiga Pousada de São Bartolomeu (onde por sinal o Sr. Adérito trabalhou alguns anos), hoje explorada pela família e um dos melhores locais para pernoitar na cidade. E conseguiram aquilo que muitos não acreditavam ser possível para Bragança: a mais que merecida estrela Michelin renovada, em 2024, pela sexta vez consecutiva.

Lembro-me, no ano anterior à consagração, num jantar com a minha mulher, em que saí tão satisfeito e empolgado com tudo o que se tinha passado, que comentei: “Raquel, para o ano o G vai ganhar uma estrela”. Premunição acertada. No ano seguinte senti orgulho por toda a afinada equipa do G.

Edifício pós Estado Novo, estivo Pós-Moderno, lindamente restaurado nos anos 90, sem perder a identidade, com uma bonita lareira (ia jurar que no início havia um bonito escano onde nos podíamos sentar para um aperitivo e que o fogo era feito em cima da pedra e não no bonito fogão de sala atual), tapeçaria da artista local Graça Morais e uma elegantíssima sala com vista para o Castelo. E digo elegantíssima, pela sua singeleza, simplicidade nos elementos e bom gosto. Bonitos cadeirões verdes, mesas de apoio com tampo em mármore, tolhas de linho branco impecavelmente passadas, um pequeno candeeiro e uma “naifa” da cutelaria Ferreira da aldeia da Aveleda. É tudo o que precisamos para o que vem a seguir.

Broa de milho, pão de trigo barbela e brioche home made, azeites da região onde podemos escolher o estilo onde vamos mergulhar o pão, manteiga Rainha do Pico (porque não uma feita em casa com leite de ovelha de Trás-os-Montes?) dão o primeiro mote de conforto. De boas-vindas uma sopa de cebola com gamba da costa do Algarve (porque não lagostim do Rio Maçãs ou Fervença?) onde faltava um pouco de intensidade, a deliciosa enguia fumada com uma espuma de teriaki e uma elegante sardinha crocante feita com carvão vegetal e o morille com couve portuguesa e coentro, a balançar o fumado (parecia esteva), os amargos, a textura carnuda e sabor delicado do cogumelo. Acompanhou um crocante e vivo espumante Montes Ermos.

A Bola de Berlim com creme de Queijo Terrincho com azeitona desidratada é espetacular. Visualmente muito bonito, o sabor a frito e o leve açúcar da cobertura a bailar num foxtrot de prazer com o salgado e o cremoso bem guloso do queijo. Tal como o queijo, este prato também deveria levar o carimbo DOP. Um clássico do G.

Seguiu-se a sopa de bacalhau de cura amarela, com contornos de tinta de choco e sames em duas texturas (estufados e crispy). Prato com raça e intensidade, boa untuosidade da gelatina do caldo, no entanto, é preciso ter atenção às temperaturas de serviço. O prato de serviço não ajuda a que o caldo permaneça quente por muito tempo e neste caso estava abaixo de morno.

O pregado estava no ponto, vinha com um original puré de casulas (ou cascas) muito cremoso e sabor a feijão, uma lâmina de nabo recheado de butelo e um toque fresco do poejo. Que bem ligava o salgado e a intensidade do butelo com o peixe. O Mar e a Montanha numa versão muito bem conseguida sem esquecer as raízes da região.

Vinhos brancos de Trás-os-Montes, muito bem escolhidos e exclusivos, tais como o Quinta de Salvante Grande Reserva 19, o incrível Casa de Alpajares Reserva 12 e o inesperado do Arinto da Santa Casa da Misericórdia de Valpaços. Bô, por esta não esperava!

Nas carnes, o Pombo (este ainda com origem de Espanha, mas em breve a criação de pombo Torcaz do Sr. Adérito vai dar cartas), rosado como deve ser, sabor bem intenso, carne firme, acompanhado com morilles, um croquete de miúdos e outras partes da ave, frito com panko, que balanceava muito bem com a carne do bicho e a doçura de uma “cereja” de fois com cobertura de beterraba, que acalmava o palato. Umas sementes a dar crocância e o molho de escorcioneira com aromas de ostras frescas. Muito bem conseguido este prato.

O Corso, carne mais adocicada, mas ainda com mais intensidade devido ao carolino “Ronaldo” da Herdade de Portocarro com enchidos e funcho fecharam em beleza e harmonia este capítulo.

Acompanharam nas carnes o Montalegre Vinhas Velhas e Encostas de Sonim Touriga Nacional Grande Reserva 18. Poderosos e estruturados para se aguentarem à bronca de dois pratos deliciosamente pujantes.

Antes da sobremesa, um bem tratado carrinho de queijos, onde destaco o azul Valdeon da região de Leon. Sinceramente, estava à espera de uma seleção mais regional, como por exemplo, um cabra fresco ou curado da região. Mas é sempre um prazer quando temos esta opção antes da sobremesa.

Boletos (apenas no formato), cacau e amêndoa foram uma super sobremesa, com os “boletos” num creme/espuma bem fofo e pouco doce a fazer o contraste com o cacau negro em mousse coberta por um areado de amêndoa, que visualmente simulava os boletos no seu habitat. Uma sobremesa com “terroir”. E um Porto Colheita 2007 da Real Companhia Velha para a viagem.

Serviço de sala bem afinado, amável, profissional e com sentido de humor (que falta faz um bom toque de humor nos restaurantes mais formais), com destaque para o serviço de vinhos irrepreensível.

É difícil vir a Bragança sem cair na tentação de visitar o notável trabalho do chef Óscar Geadas e de toda a sua equipa. Parabéns, malta!


José Manuel Pires

Empresário

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