Queijos Serra da Estrela produzidos com amor e resiliência

A experimentar

Em Oliveira do Hospital, cinco queijarias produzem queijo Serra da Estrela com denominação de origem protegida [DOP] e colocam no mercado, com amor, dedicação e resiliência, um produto nobre e cada vez mais escasso.

“É preciso ter uma grande dose de resiliência para continuar a trabalhar neste setor, que é cada vez menor. Aumentaram os custos com energia, mão-de-obra e há escassez de leite no mercado, com os preços quase a duplicarem de um ano para o outro”, revelou o proprietário da Queijaria dos Lobos.

Em declarações à agência Lusa, Bernardo Lobo admitiu que é muito difícil passar a mensagem de que um queijo Serra da Estrela DOP é um produto nobre, um produto ‘gourmet’.

“Há pouquíssimos produtores DOP. Este é um produto cada vez mais escasso e difícil de encontrar, mas que tem um nicho de mercado”.

No fim de semana, Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra, recebe a Festa do Queijo Serra da Estrela.

Da Queijaria dos Lobos, com produção DOP desde os anos 1990, serão levados pelo menos 500 quilogramas (kg) de queijo, maioritariamente produzidas com leite próprio e vendidos um pouco acima dos 25 euros por cada kg.

Da Quinta das Lameiras, seguirão aproximadamente 400 kg do “melhor queijo do mundo”, que diariamente é tratado com “muito amor e dedicação”.

Segundo Paula Lameiras, este é um setor que todos os dias exige muito trabalho, esforço e atenção.

“Demora muito a ficar pronto, desde o trabalho das terras para as ovelhas terem o que comer, o ordenhar duas vezes ao dia, o cuidado com o leite cru que é muito delicado e depois o lavar e virar do queijo constantemente. É um trabalho sem fim para manter a história da família Lameiras, que está na quarta geração de produtores”.

À Lusa, a queijeira explicou que o queijo Serra da Estrela, produzido apenas com leite, cardo e sal, é muito mais do que um produto que tem um pano à volta e que se come à colher.

“Tem de ter a marca caseína [proteína] logo quando se faz, tem de ser feito de leite de ovelhas bordaleiras Serra da Estrela, na Região Demarcada da Serra da Estrela, e tem de ter um rótulo que diz queijo Serra da Estrela DOP. Ele é amanteigado, mas sem ser à colher, levemente arredondado e amarelo palha”, descreveu.

Já a Queijaria Quinta do Cruzeiro conta levar 500 kg de queijo para a feira, produzidos com “muito trabalho e força de vontade”.

“Este é um setor onde não há folgas, baixas médicas, nem dias santos. É um trabalho que requer atenção e dedicação em todos os dias do ano”, defendeu a proprietária Cátia Marques.

Os custos de produção são “muito elevados”, quer com o leite, mas também com a energia, aos quais acresce ainda a certificação.

“Vou enviar um ‘email’ à Câmara [de Oliveira do Hospital] a solicitar apoio com os custos relacionados com a certificação. Sabemos que há outros municípios que o fazem e nós queremos muito continuar com este selo de qualidade”, frisou.

A Queijaria Estrela Artesanal, com DOP desde 2014, perspetiva vender cerca de “uma tonelada”, com um preço na ordem dos 25 euros por kg.

De acordo com Judite Pinto, a maior dificuldade do setor, e que a preocupa, é a escassez do leite.

“Deveria haver, por parte do Governo, um maior incentivo aos nossos pastores, passando por apoios financeiros à modernização das explorações, colocação de equipas no terreno, que de algum modo ajudassem ao nível de burocracias. Os nossos pastores são na maioria pessoas de mais idade e com algumas dificuldades”, alegou.

Os últimos queijos DOP chegarão da Queijaria Ferreira da Estrela, a funcionar nas instalações da Ancose – Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra Da Estrela.

“Começámos a certificar este mês. Foi um processo muito longo, mas levaremos mais de 400 kg de queijo Serra da Estrela à Festa do Queijo”, referiu Ana Ferreira, daquela queijaria.

O preço do verdadeiro queijo Serra da Estrela “não é para todas as bolsas”, no entanto, “não dá para contornar o preço do leite”.

“Compro o leite de ovelha bordaleira aos produtores locais a dois euros o litro e, para fazer 1 kg de queijo, são precisos cinco litros. Este é um trabalho muito artesanal, por isso, temos de explicar o preço ao cliente”, concluiu.

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