Um Senhor chamado José

A experimentar

Lembram-se da Casa Nanda na Rua da Alegria?

As minhas memórias escorrem para aquela comida de mãe que tem abrigo na Casa Nanda e noutros sagrados restaurantes que o Porto fez e que (ao contrário da Casa Nanda) o tempo, a pandemia ou outras adversidades, levaram consigo.

Recordo com a mesma saudade o Aleixo, a Inês, a Casa Correia, apenas para sinalizar alguns dos melhores restaurantes de cozinha regional portuguesa.

Depois do firmamento de estrelas que tivemos há uns dias, pode parecer inapropriado que se fale da nossa cozinha regional. Mas acho que cada um, no seu vagar, tem espaço na vida feliz que queremos viver. E se é verdade que me desvaneço com o talento de uma nova e vibrante geração de chefs de cozinha, também não me dói a voz de anunciar estas grandes casas da história do nosso burgo, onde a comida de conforto e de verdade toma verdadeiramente conta de nós.

Pois bem, regresso à pergunta inicial. Quem tem saudades (eu morro com elas quando não volto lá com recorrência) da casa Nanda, pode descansar porque se ela e aquele aroma a sopa de penca estão firmes no mesmo sítio, têm hoje um sucessor com a mesma desenvoltura e habilidade para cuidar de nós. Falo do Senhor José ali na rua do Campinho, pertinho da esburacada Estação de S. Bento.

Foi aí que, há poucos anos, ainda não se insinuava a pandemia, José Canelas e Maria da Soledade abriram o “Senhor José”.

O casal, depois de uma passagem pela antiga Mamuda, fazia com a imortal Fernanda uma equipa capaz de rivalizar com a Santíssima Trindade!

Voltei ao Senhor José pela mão do meu querido amigo António Tavares que lá tem lugar cativo quer vá, quer não vá.

Uma sopinha de grelos abriu as hostilidades. Ela e um pão e broa de excelente catadura que se deixaram ir, no arrimo com um queijo da serra de meia cura.

E agora o que comemos? Pois o busílis está aí, dado o nível das opções que se nos colocam. Vão uns filetes com arroz de feijão? Pois que tentação, sabendo eu que aquele caldoso em tacho de ferro é imperdível. Mas os olhos fugiram para o sável. Que saudades, eu que ainda não o comi nesta época que ainda agora abriu. O Senhor José recomendava dando a receita: – fino e muito tostadinho. E lá veio ele, nesse mesmo preceito. Que delicia a crocância das abas a contrastar com a leveza untuosa da carne branca e fofa do meio da posta. Que êxtase palativa, dizia eu ao António que se alambazava com o arroz de feijão e os filetes. E que outras coisas, perguntarão, se nos oferecem nesta mesa farta e segura?

Pois bem, os bacalhaus – imperdíveis nos seus diferentes modos, o lagareiro e o à Braga são garantidos; o polvo e o seu arroz – maravilha incontornável destas santas cozinhas!; O peixe galo com açorda – oh voluptuosa tentação…; o cabrito assado no forno, as presas de porco preto e até uma perdizes estufadas saem por encomenda.

Desculpem, tenho de parar porque escrevo como gosto antes da refeição seguinte. Com a fome que me aguça o carinho pela partilha, mas que, valha-me o Senhor, me tortura pela distância temporal que ainda falta para me sentar outra vez na divindade de uma mesa asseada.

No final, consolados com tudo, o António e eu partilhamos um bolo de bolacha que se deixou ir na mesma mansidão.

Palavras finais para a garrafeira – ampla e justa. E para o serviço feito de gente segura, que nisso o Senhor José não brinca. Mas é na cozinha onde está Maria da Soledade que se encontra o coração da casa. 

Um coração bondoso de quem há tantos anos se habituou a cuidar dos outros. Um Senhor da cozinha regional este José que vale a pena, como a Casa Nanda, nunca perder de vista!


António de Souza Cardoso
AGAVI

 

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