As filhós de minha avó

A experimentar


El mistério participa de lo sobrenatural y aún del divino. 

La solución, del juego de manos. 

            Jorge Luis Borges

O que eu me pelo por filhós! Ou por filhoses. Tal como touro e toiro, ouro e oiro, podemos dizer filhós ou filhoses, que estamos a falar do mesmo, do mesmo ouro, do mesmo oiro: de um doce simples e chão como tudo o que vem das Beiras, sobretudo da Beira Baixa, na minha opinião a mais agreste, embora a menos nevada no inverno. Mas talvez eu devesse começar a história pelo princípio. 

No princípio era a infância. Aquele lugar camoniano onde fomos felizes, onde se formou a nossa personalidade e, mais importante para o Eggas, onde se formou o nosso gosto. Oiçamos Camões, nas redondilhas de ‘Sôbolos Rios  que vão’:

Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
para onde estáveis, correndo,
e as águas, que iam decendo,
tornavam logo a subir.

Alguém aqui dirá: “Rui, Camões fala de uma Sião imaginária, não necessariamente da infância!” Ao que eu respondo, agora com o mais camoniano poema de Pessoa, ‘Dobrada à moda do Porto’: 

Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,

Particular ou público, ou do vizinho.

Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.

E que a tristeza é de hoje

Na minha infância do bairro da Pena, ali por cima do Rossio, a poucos metros da Rua Martim Vaz onde Amália nasceu (e também ela tem costela beirã), a minha avó fazia filhoses (ou filhós), sempre que se aproximava o Natal. Para tal, precisava de um grande alguidar, já não lembro se de plástico ou de barro. Manda a tradição (e a boa gastronomia) que fosse de barro, mas seria? As memórias confundem-se. Lembro-me de, mal sabendo caminhar, descer as escadas a ir buscar petróleo ao Sr. Bento, o carvoeiro galego, que me parecia estar sempre a comer ovos mexidos quando eu lá ia, rodeado de mulher, filho e nora. O filho tinha um dente de ouro. Era costume, naquele tempo. Creio que a minha avó também tinha. 

A minha avó levava dias a bater a massa. E eu próprio ajudava, apesar de ainda não ter força para isso. Só a massa e o fermento e a água, ganhando elasticidade e textura, já emanavam um cheiro bom, até porque as minhas narinas já antecipavam a iguaria que ali vinha. 

Para quem não sabe, os cientistas provaram que o sentido do cheiro é, dos nossos cinco, o que mais ligado está à memória. E não admira que este tempo excessivamente visual seja também a era do esquecimento. Já ninguém se lembra de nada, a começar pelos jovens! Pois eu lembro-me, fui abençoadamaldiçoado com uma daquelas memórias esponjosas e fortes, como os tentáculos de um polvo ou a tenacidade de uma boa constrictor. E lembro-me de tudo, talvez por ter apurado nariz. E lembro que, nas crianças, a memória pode ser também instrumento de antecipação, um binóculo sobre o futuro. 

Junto à minha avó, sempre que voltava da escola, eu via as filhós (ou filhoses) a ganharem forma. Foi também aí que aprendi algo importante para qualquer arte: deixar pousar. É preciso, qual pescador, deixar pousar, deixar repousar, não apressar o processo. A minha avó punha um pano branco a tapar o alguidar. 

A parte do fritar era a mais simples. As filhoses da minha avó não precisavam de formas perfeitas, e vim a descobrir décadas mais tarde que o mesmo se aplica às pizas originais, as de Nápoles. A imperfeição é abraçada, o que dá a cada filhó um toque individual. Há ali trabalho humano mas há também trabalho do acaso, do mistério, quiçá labor divino. 

As filhoses da minha avó nunca mais as encontrei. Eram húmidas, levavam uma calda de mel e laranjas e outra coisa qualquer que nunca pude saber porque a minha avó fazia disso segredo. Até há um par de meses, quando fui a Lavacolhos, a algumas dezenas de quilómetros da aldeia onde a minha avó nasceu. Aguardente, levavam também aguardente! 

(O que explica muita coisa, sobretudo estas belas cores que ainda hoje tenho nas bochechas.) 

 

Rui Zink
Escritor

 

 

Partilhe este artigo

Últimas