A “Pena” dos Cardosos

A experimentar

Na Casa da Pena (Vila Caiz), uma das casas base dos Souza-Cardoso (os do pintor Amadeo) encontrámos, por convite muito amigo, um espaço do outro tempo. Daquele em que as coisas eram bonitas, elegantes e agradáveis, no qual a Joana e o Miguel Souza-Cardoso tiveram a coragem titânica de fazer um restaurante, que não é só um restaurante. É um memorial à pintura de Amadeo, praticada por artistas da culinária que nos vão apresentando telas deliciosas cheias de sabor. Mais à frente, vão ver como a Diana Teixeira, que coordena a equipa culinária, impressiona.

Mas não vamos já desfrutar do jantar, temos que deixar entrar os vinhos verdes que vieram de Vila Garcia, local da sub-região de Amarante, com grandes amplitudes térmicas e verões muito quentes,  onde o Douro Verde se assume. Os vinhos estão tão bem amalgamados com a terra, que se assumem como Quintas Vila Garcia. A Maria João Alves, produtora, também é a Vila Garcia e transporta para os vinhos a história e a memória da sua família, muito bem acompanhada pelo Pedro Mota, enólogo da casa.  Mas, voltando ao Amadeo, razão principal deste encontro, os rótulos dos vinhos que vamos beber têm por base alguns dos mais icásticos quadros do pintor.

Quanto ao sustento, começamos com duas ofertas da cozinha (para uma mordida):  filhoses de cogumelos e filhoses com parfait de foie-gras com gema curada de moscatel. Começo perfeito, massa no ponto, muito bem harmonizado com um Vila Garcia Terroir. Em anos anteriores, este vinho continha azal e perdernã. O que provámos era um monocasta Pedernã de 2023 que, como  bem sabemos, é o arinto de Bucelas, que aqui ganha toda uma nova interpretação, cor palha cristalina, acidez e frescura. Este vinho foi colocado no mercado com a indicação de Arinto, tendo por base razões comerciais e expectativas muito fundamentadas de exportação. 

Passamos, então, à primeira pintura: Focaccia de Alecrim & Paleta de Manteigas de Pimento Vermelho, Pesto e Alho Negro. Imaginem, que cada uma das manteigas tem uma cor da paleta de Amadeo, e a focaccia é o pincel que nos permite comer. Harmonizámos estes paladares com Vila Garcia Homenagem de 2021, alvarinho, loureiro e arinto, um vinho muito equilibrado com grau e acidez. Sendo a Homenagem do nome, uma homenagem real.

Chegámos ao Bacalhau Fresco, Pil-pil, Couve Flor Assada, Óleo de Salsa,  tratar o bacalhau com malagueta com esta elegância assegura-nos muito boa técnica e muito conhecimento do forno, os sabores misturaram-se com uma Vila Garcia Magno de 2020 feito a partir de alvarinho e pedernã, as estrelas da companhia. Frescura muito boa, acidez no ponto, grau forte característico da região e uma cor que impressiona. Creio que vamos beber deste vinho durante uns anos. Um verde dos modernos que vai à frente do seu tempo. 

Sabia que vinha aí uma carne e estava muito curioso com o que iriam dar-nos para beber, conseguiram surpreender-me. A carne era um Beef Wellington, Ragu de Cogumelo, Puré Castanha Assada, Molho de Moscatel e Foie. O Wellington  é muito simples de apreciar, ou está óptimo ou está péssimo.  Este, para além de óptimo, misturou-se com um ragu, que nascia no meio da massa. O puré era da nossa castanha, aquele sabor irrepetível, doce e salgado que faz com que sinta Portugal em cada garfada. O vinho que nos trouxeram foi um Vala Garcia Touriga Nacional, a nossa casta rainha com grande elegância.

Só para experimentar a sobremesa, valia a pena desviar do caminho: um  Petit Gâteau de Abóbora, Gelado de Queijo da Serra, Mousse de Canela, montado e com o aspecto de uma obra de Amadeo. Difícil de “atacar” para não perturbar a beleza, mas surpreendente pelo sabor.

A Rita Pacheco, que conduziu todo este serviço, e o João Lemos, que fez brilhar ainda mais os vinhos, reforçaram a sensação de que estávamos perante algo de muito particular.  

Paragem obrigatória, de grande interesse. 

Força, Joana e Miguel!

Miguel Monteiro
Administrador Quinta Vale de Fornos

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