Abelhas e Mel

A experimentar

Quer ter uma atitude ecologista, a favor da biodiversidade, da sustentabilidade ambiental e da qualidade de vida no interior de Portugal? Compre e consuma mel português. Habitualmente. Para pôr no pão, para receitas de culinária, para o chá. Para comer com queijo velho, para dar um toque inesquecível sobre uma chouriça picante de malagueta que se tostou na brasa. Já não digo para fazer os cataplasmas e unguentos de receita antiga, mas se estiver com a garganta irritada, tome uma colher de mel. Dir-lhe-ão que não serve para nada, que é só um edulcorante neutro, mas não se fie: faça o teste por si. 

Habituámo-nos a ter abelhas a voar ao pé de nós, à volta de nossa casa, aqui em Latães, na Serra de Ala, a detectar um enxame aglomerado num tronco de árvore e a chamar a Sónia e o Paulo Vilarinho – os nossos vizinhos apicultores que produzem mel de altíssima qualidade, de castanheiro, de urze e dos muito raros – para virem recolhê-lo. Mais abaixo ficam as colmeias do João Rocha Fernandes, perfumadas de cedros.  E estamos a notar muito a falta de todas estas abelhas, já desde há mais de um ano e meio, ainda não apareceram para pastar as flores do nabal, nem sequer nos dias anormalmente quentes de Fevereiro se viu apenas uma a andar por aqui a explorar. Em tempos normais, teriam vindo para ser cumprimentadas pela passarada que já apareceu a espreitar o sol, mas nada…

É muito preocupante, apesar de poder ser cedo para despertarem do seu sono de Inverno. Mas uma ao menos…  

Na casa de meus pais, deixou de haver apicultura antes de eu ter nascido. Mas, desse passado, chegaram-me ainda alguns apetrechos, entretanto desaparecidos, com que brinquei e que se guardavam no palheiro. São quadros de colmeia, alguns cortiços, um fumigador, placas de cera com os desenhos hexagonais, uma rodela de cobre de fundir a cera para se agarrar aos arames, e uma fotografia, fantástica, que andava numa gaveta, mais do que centenária, com o meu pai miúdo a aprender a lidar com as abelhas juntamente com um primo tutelar, José Manuel de Sá Miranda, barbas bíblicas e chapeirão trasmontano, que tinha uma dedicatória à minha avó: “Oferece o primo mas não oferece o mel!” que demorei a entender. É que nesse tempo, soube-o depois, o da I Grande Guerra, o mel era valiosíssimo e os colmeias eram guardados com cão e caçadeira! Havia também uns livros em casa, com alguns números da Gazeta das Aldeias entremeados, um deles Abelhas e Mel, duns franceses, e, acima de tudo, um extraordinário de Maurício Maeterlink, Prémio Nobel, intitulado A Vida das Abelhas, publicado no início do século XX e que nos introduziu, aos da casa, na compreensão humanista da Natureza e nos formou nos princípios dum profundo respeito pela criação, na perspectiva cristã ou na perspectiva agnóstica. Para o efeito tanto faz, porque o que conta é a atitude de perplexidade e admiração perante o maravilhoso mundo natural de que fazemos parte. Provavelmente, reside nesse livro a coifa da minha raiz ecologista, amadurecida mais tarde nuns textos da Cidade Nova, que li muito depois de terem sido publicados, e nas palavras de Ribeiro Telles, que escutei muitas vezes. Nunca tinha pensado nisso, até escrever estas linhas.

As abelhas são fundamentais para a nossa vida, seja a da cidade seja a do campo, porque delas depende a polinização de milhões e milhões de flores que darão milhões e milhões de frutos. Não é só o mel: é tudo! Na nossa vida, tropeçamos constantemente em produtos que só existem como existem porque existem abelhas.

Na Califórnia (e noutros sítios) é pago o serviço ambiental e em prol da sustentabilidade que é feito pelas abelhas. Pago, no sentido literal da palavra: os donos de pomares, de vinhas, de hortas, arrendam o serviço prestado pelos apicultores que em grandes camiões transportam inumeráveis colmeias que localizam conforme os contratos de prestação de serviços, pelos quais são remunerados.

Em Portugal, haveria que dar muitos passos em favor da apicultura. Bem sei que há o Plano Apícola Nacional mas teria e terá de se ir muito para lá disso. Mesmo muito. Os apicultores estão a fazer muitíssimo mais do que a produzir mel, estão a zelar pelo nosso ambiente, pela nossa riqueza e qualidade agroambiental. Precisam imenso de ser apoiados e é agora e já. Não é só pelas doenças que têm afectado os apiários e enxames, pelos predadores (vg a vespa asiática) que se têm instalado de novo no território, é também pelos factores, desconhecidos em boa parte, que têm feito com que haja uma diminuição assustadora no número de abelhas na Europa, em geral, e na Península Ibérica em especial. Não podemos sobreviver sem abelhas!

Há que tomar atitudes sérias e de vulto em favor da apicultura nacional. De apoio forfetário na renovação de efectivos e apiários. De descomplicação no acesso a ajudas de financiamentos europeias. De consideração dum ano apícola anual e da efectivação dum suporte financeiro extraordinário para todo o ano, para a não desistência da actividade pelos veteranos e para o incentivo da actividade pelos mais novos. 

Mas não se pense que só o Governo, a Administração do Estado ou as Câmaras Municipais é que têm responsabilidades nisto: todos os cidadãos a temos. Pôr likes e opiniões favoráveis aos apicultores nas redes sociais vale alguma coisa mas quase nada: vale muito mais o gesto de comprar mel. Compre mel. Comece por aí para ajudar verdadeiramente o ambiente, a sustentabilidade, a biodiversidade. Não se fique por palavras.       


Manuel Cardoso
Consultor e escritor

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