A vaguear por Amarante em busca de Amadeo

A experimentar

Gosto de Amarante e da sua forma elegante de estar.

Talvez por ser uma cidade antiga, onde no século XIII um padre dominicano chamado Gonçalo chegou para ali fazer uma ermida, mais tarde angariou o que hoje se poderia chamar um crowdfunding, para erguer a bonita ponte medieval que se lança com subtileza sobre a tranquilidade do Tâmega.

Com um património público e privado notável e com uma história inspiradora, Amarante é também uma cidade de cultura – Agustina, Teixeira de Pascoaes e Amadeo são apenas exemplos dessa inspiração que se sente fervilhar na cidade.

Mas gosto também de Amarante porque é uma santa terra de comer e porque tem propostas vínicas cada vez de maior valor.

Quando a vida deixa, gosto de vaguear por Amarante de ir à Igreja bonita de S. Gonçalo, de visitar o museu que ainda guarda muita da ousadia da cor a que Amadeo se atreveu, e de comprar os grandes doces conventuais de Amarante com receitas originais do Convento de Santa Clara. Claro que também gosto muito de farejar as novidades de uma cidade que está sempre pronta para nos dar de comer.

Ali perto, nas cercanias de Amarante, em Vila Caiz, descobri o Pena – Um restaurante feito precisamente numa casa da família de Amadeo de Souza-Cardoso.

Os donos tiveram a amabilidade de me convidar para um jantar vínico, e eu, perante a esmola grande, não desconfiei e meti-me a caminho.

Ouvi deliciado a história dos vinhos da Quinta Vila Garcia, que vão na terceira geração e produzem branco e tinto em 20 hectares de vinha – vinificando em lagares da própria quinta. A Maria João Alves, depois dos pais e dos avós, põe toda sua paixão nas histórias quase torrenciais que nos traz desta menina dos seus olhos. A ocasião era para provarmos um naipe de vinhos cujos rótulos são inspirados nos quadros mais icónicos de Amadeo.

O restaurante é bonito, mostrando um aproveitamento cuidadoso das adegas da casa. Na decoração, vê-se muito da história da família. E o jantar foi isso mesmo, um jantar familiar, como se fossemos amigos antigos, apenas com a particularidade de nos terem mimado muito mais do que a própria família tem por uso fazer.

Não consigo já repetir-vos a refeição, mas ficaram na memória escondida da minha boca e do meu olfacto (as que dão fome!) as focaccias com manteiga de pimento vermelho ou de alho preto. O Bacalhau “pil-pil”, numa exuberante couve flor assada e o Bife Wellington com ragú de cogumelos e puré de castanhas. A sobremesa era tão bonita que dava dó estragar – uma peça de arte com um “petit gâteau” de abóbora e gelado de queijo da serra.

Os vinhos foram desfilando com imensa categoria. O Pedro Mota, enólogo da casa, é um homem das 7 partidas e um contador de histórias. Gostamos muito do Arinto e mesmo muito do Magno, que prova que nesta região se fazem vinhos superlativos.

Parabéns ao Pena e à Diana Teixeira que pegou na batuta da cozinha. O João Lemos cuidou, com o carinho de sempre, da garrafeira e a Rita Pacheco desfilou e mandou na sala como ninguém.

Um abraço já quase familiar à Joana e ao Miguel, os nossos exemplares anfitriões e aqueles que estarão à espera de todos os que não quiserem ficar com pena de não conhecer este restaurante – um grande senhor da gastronomia duriense.


António de Souza Cardoso
AGAVI

 

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