Os Filetes do Lima

A experimentar

Lembro-me, há muitos anos, em que o acesso à informação era totalmente diferente, quando viajava com os meus pais, chegada a hora de almoço, o meu pai começava a procurar os restaurantes pelo número de carros que tinham no parque. Os que tinham muitos camiões eram para enfarta brutos, os que não tinham movimento ficavam excluídos e os que tinham muitos carros eram aqueles onde assentávamos arraiais para o merecido repasto. O meu pai gostava do prazer da mesa, sabia reconhecer e era fiel quando o local tinha cozinha de qualidade.

O Lima é daqueles restaurantes, que se não olharmos para o parque de estacionamento, normalmente bem recheado, nada daríamos por ele. Típica vivenda sem qualquer traça associada, habitação da família por cima e restaurante por baixo. Visto de fora, não se consegue encontrar nada de atraente e passando a porta de entrada a sensação que temos é idêntica. A não ser a rasgada simpatia da equipa, mas já lá vamos.

O mosaico do chão e o mobiliário incaracterístico tornam o ambiente frio e pouco acolhedor, a sala principal tem sempre a televisão sempre ligada (algo que eu detesto), toalha de papel e uns guardanapos fibrosos, com os quais a minha mulher imbica sempre que lá vai. E com razão.

Lembro-me do seu fundador, que faleceu repentinamente há 10 anos, sempre com uns característicos suspensórios, amoroso, de uma educação esmerada e risonha simpatia, que soube deixar de legado para a nova geração que hoje comanda o Lima. A forma como somos recebidos, fazem-nos sentir da família. Os clientes são amigos e a afabilidade é contagiante.

Confesso que quando vou ao Lima é para comer Filetes de Pescada e nunca, ao longo de muitos anos, lá experimentei outra coisa. Posso estar a ser injusto, mas nem sei o que há mais no menu, porque nunca o pedi. Isto, porque os Filetes e tudo o que os acompanham, são, dos que conheço, os melhores de Portugal.

O filho mais velho controla os barcos de maior dimensão através de uma aplicação e quando se aproximam de terra, no fim da faina, lá está ele à espera das Pescadas de grande porte. São bichos com 4kg para cima, sempre de uma frescura imaculada.

Uma dose tem 2 Filetes de grande dimensão, com cerca de 3cm de altura e uns 20cm de comprimento e com uma brancura imaculada. Estão a imaginar? Carne firme, fritura bem presa ao filete, com pouca farinha, sequinhos junto à capa e suculentos por dentro.  Muito diferente do que muitas vezes se vê, em que a capa da fritura se descola completamente do filete. Um arroz de cenoura, que me transporta sempre para o arroz da minha avó Fernanda e onde tenho uma tremenda dificuldade em me controlar, umas batatas fritas às rodelas, super estaladiças e com um sabor do “antigamente” e uma deliciosa salada mista, que na época vem com tomate coração de boi das redondezas. O prazer é tanto, que por vezes não me controlo e lá vai mais um filete para a viagem.

Outra coisa curiosa, é que quando ficamos na primeira sala, são várias as pessoas que entram apenas para comprar os famosos Folhadinhos de Fão, o que, tal como nas viagens de carro com os meus pais, deixa logo escolhida a sobremesa para acompanhar o café. Sobre os Folhadinhos, uma das “histórias” que há uns anos contaram, foi, que depois de um desgosto amoroso, o proprietário da pastelaria que deu origem aos Folhadinhos de Fão (e não foi aqui no Lima), saiu de Sintra e depois de encontrar o seu novo amor (que veio ainda mais de Sul), refugiou-se em Fão para começar uma nova vida (depois de ainda viver algum tempo em Paço D´Arcos). Resolveu abrir um conhecido estabelecimento, onde, ainda hoje fabrica os Folhadinhos de Fão, baseados numa receita de uma pessoa amiga de Lisboa e que, se não igual, é idêntica à receita dos Travesseiros de Sintra.

Atualmente os originais andam um pouco desmaiados. Aquela caramelização bem dourada deixou de existir (dizem que por causa da qualidade e falta de consistência do açúcar) e são recheados no momento (ao contrário que que se passava até há bem pouco tempo atrás). Isto para dizer, sem desprimor dos originais, que aqui no Lima, ainda são bem caramelizados e crocantes por cima e quer o folhado quer o doce de ovos (com um pouco de amêndoa moída) são, por este motivo e na minha opinião, ainda melhores que os originais.

Os Filetes do Lima são imperdíveis.

Bem hajam pelo rigor e qualidade do que nos colocam na mesa.

Restaurante Lima – Rua da Ponte D. Luis Filipe nº 155, Esposende


José Manuel Pires

Empresário

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