Manifesto Anti-tapas

A experimentar

Toda a gente que se quer de bem, em algum momento da sua vida, acabou por escrever um manifesto “anti” alguma coisa. Tem a sua graça ser-se um “anti” e, no meu caso, entre os muitos “antis” que me caracterizam, escolhi hoje ser anti-tapas. Tentarei expor as razões que me levam a escrever este manifesto. Pim!

Desde logo, não sendo propriamente nacionalista (porque não sou dado a paixões) e não sendo propriamente patriota (apenas porque está fora de moda), sou daqueles que adoram sacrilegamente o país. Adoro as suas fundações matriciais, o seu legado histórico e a pretensa superioridade cultural que emana face aos demais. 

Portanto, como tenho memória histórica e um espiritualismo muito próprio (e muito português), bem como me encontro impregnado pela doutrinação de heroísmos coletivos (como os de 1128, 1385 e 1640), seria incoadunável com a minha bússola moral ter uma posição de princípio diferente da que a rejeição liminar e absoluta das denominadas tapas

Estabelecidos que estão os meus pontos cardeais e feita a devida declaração de interesses, não será de estranhar que este manifesto surja, em primeira linha, por um imperativo patriótico e nacional. Ainda assim, as causas mais clamorosas que me impelem a recorrer à caneta são, como não poderiam deixar de ser, as causas gastronómicas que, como se sabe, são apoiadas pela maior das ciências: a do “Comer”.

Nesta senda, os portugueses (e eu em particular) professam a religião do “Comer bem”, maxime, em gloriosas tainadas e através de abençoadas travessas. Ora, o conceito de “travessa” é antagónico da expressão máxima representativa das tapas: os pratinhos.

Em comida, a forma confunde-se com a substância e os pratinhos contrariam toda a dogmática religiosa que encerra uma tainada servida em travessas.

Todavia, e porque se impõe, os argumentos não se perdem por serem apenas de ordem quantitativa, empírica ou histórica. O argumento qualitativo também tem o seu dizer. Isto é, ninguém – creio que nunca ouvi mesmo ninguém – preteriu as travessas em prol dos pratinhos invocando para isso argumentos de razão de qualidade gastronómica. 

Fazendo um exercício de comparação, chegamos rapidamente à vitória das travessas (e da sua envolvente) em relação aos pratinhos. Faremos, para este efeito, uma prova cega e imaginemos dois jantares: o jantar A e o jantar B, ambos com várias pessoas (suprimindo desta feita o argumento quantitativo). 

O jantar A começa com um pão saloio, variados patês das excelentes conserveiras do Norte do país, azeitonas temperadas em azeite, bolinhos de bacalhau, rissóis de carne, leitão e camarão generosos no seu recheio, e, alguns enchidos cortados às rodelas – assim se aconchega o estômago enquanto se espera.

Em seguida, após pouquíssima discussão devido à limitada ementa, é grosseiramente colocada na mesa uma dose e meia de vitela de comer à colher, servida com batatas assadas e arroz de forno – porque ninguém se poupa aos hidratos; uma dose de polvo à lagareiro, regado em azeite virgem extra, ladeado de grelos com alho e batatas a murro; uma dose de pataniscas de bacalhau, com arroz de feijão e migas de couve; e ainda meia dose de pezinhos de coentrada. O jantar A, acompanhado com vinho da casa e algumas garrafas de água do Luso de litro e meio pousadas na mesa, alimenta facilmente dez pessoas por dúzia e meia de euros por cabeça. A sobremesa, essa não tem espaço e remata-se diretamente com um café.

Por justaposição, o jantar B, muito diferente, não tem bem início, meio ou fim. As entradas são o prato principal e o prato principal são as entradas. Assim sendo, são dispostos na mesa vários pratinhos: duas tacinhas com ovos rotos, invariavelmente com batatas fritas congeladas e presunto de pacote; três pratinhos com calamares, com óleo a mais e lulas a menos; dois pratinhos com tortilha, potencialmente deliciosa, mas verdadeiramente seca e com batata a mais; uma malguita de pulpo à feira (ou à galega), onde a proteína é facilmente confundida com borracha e desconfia-se de um polvo confecionado à la longue. No fim, depois de uma sangria bastante doce e algo duvidosa, de uma sobremesa mais estética do que boa e de uma conta mais pesada do que a barriga, o melhor é mesmo pedir um descafeinado.

De olhos fechados, sem qualquer tipo de viés, quais dos jantares escolheriam? Parece-me inegável qual a resposta certa.

Para fechar a trama, atiro um último argumento aos potenciais signatários do presente manifesto: a planeada e sistemática conjura psicológica que um jantar de tapas invariavelmente convoca.

Desde logo, esta conjura visa atacar os homens por via de um movimento pinça. A primeira frente de ataque prende-se com a derrota da sugestão. Nunca um homem venceu, no planeamento de um jantar de sexta à noite, na sugestão por ele promovida. Por regra, o homem e o seu bando projetam uma tainada à volta de travessas. Por regra, após o ataque sistemático de todas as conjuradas, o homem acaba numa tapearia à volta de pratinhos.  Isto desgasta o homem que enfrentará o resto do serão desolado pela aura de uma derrota inicial. No entanto, a conjura não se esgota na primeira desolação moral do embate perdido e da sugestão gorada. Pior, a conjura agrava-se com as opções à la carte, com a discussão que se acende sobre as escolhas a tomar em relação às centenas de pratinhos disponíveis e, sobretudo, com a obrigação que temos de entrar numa contenda que não é a nossa. Desgastados por todo este recorrente ritual, acabamos por conjeturar em quanta discussão se evitaria com uma mera travessa reconfortante e um bom vinho para a acompanhar. 

Esta é a exposição de motivos que me leva a procurar signatários para esta causa. Ainda que as tapearias nos providenciem – porque também são capazes – bons momentos e alguns desses gastronómicos, procuro apoiantes que me ajudem a recuperar os bons costumes. Pois bem, o que se segue ao manifesto é uma petição e, após essa, uma iniciativa legislativa, com direito a audiência e endorso pelo Senhor Presidente da República. Mais, alerto que caso sejamos barrados pelos portões do poder, uma revolução surge em cima da mesa. E mais afirmo: fazer tombar o regime por causa de uma travessa é uma causa tão legítima como qualquer outra, talvez a mais legítima! Tapas só as queremos para os lados de Badajoz. Pim!

 


José Maria Couceiro da Costa
Jurista

 

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