Mensagem numa garrafa

A experimentar

O Director Geral do Serviço de Patentes de França, tendo havido uns dias em que não entrara nenhum expediente nem requerimento inovador, demitiu-se, porque, pensou, tudo já tinha sido inventado e nada mais haveria para inventar e o seu cargo deixava, assim, de fazer sentido. Isto passou-se há século e meio, na esteira do que eram as então Exposições Universais de Paris, consideradas o pináculo da civilização, numa fase positivista da história do homem no mundo, e em que uma certa soberba induzia a pensar que todos os recantos da Terra estavam esquadrinhados e todas as possíveis elocubrações de pensamento tinham sido descritas e escritas – e todas as sensações tinham sido experimentadas, quer fossem as do lupanar mais exótico quer as da mesa mais requintada.

Contudo, o mundo não parou aí. Voltaram a entrar os requerimentos de registos de mais patentes, surgiram novos motores, aviões, medicamentos, fibras, armas, alimentos, utensílios novos, energias. E numa torrente como nunca, imparável!

No nosso país come-se e bebe-se bem. De Norte ao Sul consegue-se, mesmo sendo-se um estranho e um turista de ocasião, termos diante de nós algo que, ainda antes de levar o copo aos lábios, de meter a colherada ou de espetar o garfo, já nos faz antecipar o prazer do sabor e da experiência da saciedade contente. E, nos últimos anos, com novas tecnologias, novas escolas de ciência e sabores e novos protagonistas, veio acrescentar-se mais variedade ainda à variedade histórica das nossas carnes e peixes, vinhos, legumes e frutas. De tal maneira que as tripas à moda do Porto mais não são do que uma, entre milhares de receitas possíveis, que, diariamente, aparecem em toda a grande cidade do Norte, relegadas para um papel de memória, elas próprias o documento culinário reeditado, as vezes que se quiser, a partir duma das maiores mobilizações do povo e da vontade de Portugal.

Por isso, se neste momento houvesse entre nós um gabinete de registo de receitas e lugares de comida, seria natural que o seu director se demitisse por já tudo ter sido inventado e nada haver para inventar em matéria de petiscos, grandes pratos, vinhos, sobremesas – e sítios para o seu desfrute e encantamento. Seria?!…

Sabemos que não, por que há dias, no Porto, num dia em que tivemos que ir fazer umas consultas à biblioteca do IVDP, estivemos depois com alguém que partilhou connosco o seu momento de inspiração e visão: e, como se estivéssemos a viver umas páginas de Proust, fomos envolvidos numa torrente de ideias, projecto, descrições ao centímetro de decoração, design de utensílios e concepção de processos, com um pormenor tal que a nossa imaginação acompanhava cada frase sôfrega como se estivéssemos já prestes a que uma bar-girl nos estendesse um pequeno tabuleiro de xarão – ou de material fluorescente como se num filme de ficção científica! – com um copo e um pratinho de acepipes picantes, e, com um sorriso pestanudo, nos convidasse para uns momentos eruditos de cultura e deslumbramento – nesse fim de tarde iria haver ou um jazz ou um fado e depois ainda podermos ouvir o Arquiteto N… , projectando na parede os primeiros esquiços da nova ponte em tubo transparente que em tapete rolante permitirá às pessoas ir do Terreiro da Sé à Senhora do Pilar!

Minimalismo nas intervenções para confecção dos alimentos, autenticidade e genuinidade da sua origem, sincronia da sua ocorrência na Natureza com o seu consumo; categoria na apresentação do espaço e enquadramento paisagístico do mesmo na cidade (num aconchego tranquilo do coração da cidade, com árvores e reminiscências vividas); inovação e grande nível na capacidade de metamorfose do ambiente para poder ser sala de estar e de trabalho e de tertúlia e de desfrute e de intimidade; restaurante que não é restaurante mas é, bar que não é bar mas é, mini café-concerto que o não é mas até permite dançar; clube privado aberto ao público que queira aceitar as regras do jogo.

Estivemos com o autor-investidor nesse fim de tarde pingão em que já anoitecia, ambiente frio com luz dos candeeiros da rua, espaço envidraçado e caótico com os sinais de abandono de quem se retira duma frente de guerra perdida, negócio que terminou em ruína. Ouvir, no lusco-fusco, a dimensão do sonho presente para num futuro próximo se refazerem lúcidas todas as superfícies, as paredes, as mesas, o balcão, e a ter de pedir licença para caberem os clientes que na nossa troca de ideias já conversavam de copo na mão e discutiam exposições e romances, foi uma hora de sortilégio! Das raras. Como é rara a pessoa que se precisa para dar andamento à Ideia, especial em vários sentidos, dela anda à procura o autor do espaço como dum génio numa lâmpada, e este autor-investidor precisa de quem lhe apareça a saber e a conseguir retirar a espada da rocha para a brandir e poder abrir as portas em triunfo. Uma pessoa com garra e com a visão de que é preciso estar na vida com a atitude e mente aberta para lidar com tudo, para aceitar ser um braço direito de quem não se resigna e quer continuar a inventar num mundo em que tudo parece ter já sido inventado. Alguém, precisa-se. Quem vem e atravessa?

Ao escrever este artigo senti-me como que a enrolar uma mensagem, escrita num papel, dentro duma garrafa. Parta-se do princípio que estar a lê-lo será o mesmo que  encontra-la na praia ou apanhada na corrente.


Manuel Cardoso
Consultor e escritor

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