Comer de Verdade

A experimentar

Ao longo dos anos – sinto que já escrevo há demasiado tempo, tenho escrito repetidamente sobre alguns restaurantes. Como vivo no Porto, escrevo mais sobre este restaurantes com pronúncia do Norte.

Faço-o porque há novos leitores, mas também porque os restaurantes evoluem e precisam de revisitação ordinária. É por isso uma viagem canónica ir às grandes marcas do Porto. Claro que há a Baixa e as novidades e gostamos de ser os primeiros a deixar o alerta. Mas há o nascer e morrer e há também o que permanece para nos fazer felizes.

De entre os que permanecem a escolha é sempre difícil, mas a recorrência com que vamos, nem tanto. Isto porque sabemos apreciar os grandes restaurantes de autor. Mas percebemos que algumas das suas propostas, sendo genuínas e verdadeiras, não são para uma assiduidade que banalize a experiência única que por vezes recebemos.

Depois, há aqueles restaurantes que poderiam ser a nossa sala de jantar. Aquele onde vamos não com sobressaltada curiosidade, mas com a tranquila confiança do que vamos encontrar.

De entre uma constelação apesar de tudo expressiva dessas que eu chamo as grandes “casas de comer” do Norte, há uma que em tantos momentos me chama a Casa. Falo do Morfeu na Marginal.

Que tem tudo – o aconchego de uma sala elegante onde o papel só entra na factura que pedimos. Um atendimento soberbo pela simpatia da empresária, a nossa querida amiga Maria Jorge que tudo comanda para que nada nos falte, e a cozinha, essa imponente e segura comida do Chef Natário, um “Midas” do alimento, pela forma virtuosa como trabalha a nossa grande cozinha regional.

Para estas cozinhas “de verdade”, não há muito a inventar. A máxima de que “em equipa que ganha não se mexe” é aqui assumida com plenitude. Os pratos do dia satisfazem toda a gente que se desloca às segundas às terças ou aos sábados, conforme os pratos da sua preferência. Mas como corre o risco de os preferir a todos, também corre o risco – este muito saboroso, de estar no Morfeu todos os dias. Às segundas, para comer o suculento arroz seco de bacalhau com bolinhos ricos e estaladiços do mesmo que Deus sabe, ou uma exuberante cabidela que vem em púcaro com todos os preceitos. À terça, o delicioso bacalhau à brás (ouso dizer que o melhor do Porto) ou a irrepreensível língua estufada, as quintas umas tripas de ajoelhar ou uma feijoada à brasileira, que intercalam semana sim, semana não e uns filetes de pescada fresquíssimos com batata frita à inglesa; à sexta, o inigualável cozido – tão bom, que nem precisa de alternativa. Ao sábado, um vibrante cabrito que, como todos os pratos de forno da casa, é rigorosamente de babar e ao domingo, um arroz de pato à antiga que vai ao forno depois de criado nas gorduras boas da cozedura do pato, onde abre quase todo até ao ponto final da benção do forno.

Claro que o Chef Natário é um predestinado e tudo o que ele faça – do dia ou por encomenda, sai sempre melhor que a própria encomenda. Está a ensinar o Carlos (o nosso querido Carlinhos, filho da Maria Jorge) um Jovem Chef que desponta neste firmamento da cozinha regional e nos alenta a esperança do Morfeu continuar por muito mais tempo que eu, a Maria e o Chef conseguiremos viver.

Claro que o restaurante não vive só dos pratos do dia e se provar o rosbife, o polvo à lagareiro (ou de arroz e filetes) ou essa coisa santificada que é a cabeça de bacalhau no forno (meu prato da sexta ao jantar), então fica a rezar para que o acolham na “Família do Morfeu”. E falo na Família porque a Maria Jorge e o Chef não estão preocupados com moda nenhuma ou com o boom do turismo. A clientela é devota e nem vale a pena grande “passa palavra”, não vá não haver lugar. No Verão, temos a alegria de uma esplanada em cima do Douro e há coisas que mudam como o arroz de bacalhau, que passa a uma fresquíssima maionese de batata e cenoura que acompanha suavemente os mesmos bolinhos de bacalhau.

No tempo da lampreia e do sável, a casa ganha ainda outro viço. Esta é, garanto eu,
uma das melhores lampreias de Portugal, que festejamos anualmente com um grupo de ruidosos aficionados. Chama-se Maria Lampreia e através da Maria faz a homenagem a todos os que fizeram o Morfeu, como o marido que já faleceu, mas que teve o sonho de ter aquele espaço soberbo, até ao Tiago, um grande empregado de sala que nos envolve sempre com uma conversa no plural que é “então bebemos o nosso Parceria”. Parece o Jorge Jesus dos restaurantes, naquele plural inclusivo e envolvente que ele usa para que nos sintamos com ele.

Pronto, antes que me doa a voz, faltava- -me fazer esta homenagem a uma equipa que tanto trabalhou e trabalha para que todos sejamos felizes. Bem-haja, velho Morfeu – por alguma razão o Deus dos Sonhos. Bem-haja aos grandes Amigos que com aquela perseverança de quem ama nos deixam sonhar todos os dias!

Contactos
Restaurante Morfeu Marginal
Morada: Rua do Ouro, 400, Porto
Telefone: 22 609 5295

Texto de António de Souza-Cardoso

Este artigo foi publicado originalmente no Semanário Vida Económica

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