A cantina da Leda

A experimentar

Passados apenas alguns meses sobre o fim da vindima de 2023, já sinto saudades e já estarei mesmo com desejo que comece a próxima!

De facto, a vindima é um momento único do ano, não só por ser numa época em que o Douro é muito agradável, mas também pela simples razão de tornar possível ver nascer algo novo, um bebé, que todos os anos nos traz algo de diferente. Na Sogrape, temos a oportunidade de o apreciar em quantidade e, sobretudo, em qualidade.

Na realidade, é um processo que começa logo em finais de fevereiro, princípios de março com o início do ciclo vegetativo, que passa por várias fases, e termina com a desejada maturação em finais de agosto, princípios de setembro. 

É por todos estes motivos que o arranque da vindima é, simultaneamente, o culminar de um período desafiante e o apogeu do ano, que começa, habitualmente, com os brancos no Sairrão, ainda durante o mês de agosto. Tradicionalmente, segue-se a Leda, com as suas uvas tintas já bem maduras por força da região onde se insere -o Douro Superior -, logo de seguida o Seixo, no coração do Cima Corgo e, finalmente, Cambres e Vila Real no Baixo Corgo, prolongando-se normalmente até outubro.

A vindima é inspiradora, empolgante e, ao mesmo tempo, um momento de camaradagem e socialização. Cada adega tem o seu ambiente próprio, com equipas que já se conhecem e trabalham juntas desde há muitos anos, onde as respetivas cantinas, e as horas das refeições, desempenham um papel muito importante. Em todas elas se respira um ambiente divertido, conversador, discute-se um pouco de tudo e a qualidade (e quantidade) da refeição tem de ser do melhor, ou não fosse o trabalho de adega extremamente exigente.

Visito todas as adegas, com frequência, e com muito agrado. Nada me dá mais prazer do que provar os novos vinhos (os bebés) que estão a nascer, e conversar sobre as suas características com o enólogo responsável por cada uma delas. Não posso, no entanto, esconder que tenho um fraquinho particular pela adega da Leda. Na verdade, foi no Douro Superior que fiz as minhas primeiras vindimas, estive envolvido no projecto, desde a sua concepção, até à construção e fui o enólogo responsável durante seis vindimas. Além disso, a espinha dorsal da equipa que faz a vindima ainda é do meu tempo, não sendo pois de surpreender que seja o meu refúgio de eleição.

Vamos então à razão de ser deste artigo: “A cantina da Leda”,  que é, na realidade, um espaço único. Lá  pontifica uma cozinheira de mão cheia, a Alcina e, por isso, as refeições são  “o momento” pelo qual  já vale a deslocação. Seja qual for o prato, é sempre de grande qualidade, mas quando temos a sorte de ter um entrecosto no forno, suculento e intenso, ou o bacalhau à Brás, húmido e crocante, o arroz de polvo, sempre apetitoso, estamos cheios de sorte. Mas, quando o Diogo Moreira anuncia que a Alcina vai fazer uma cabidela, então é mesmo uma viagem ao paraíso! 

Mas não é só pela comida que a cantina da Leda tem um ambiente próprio.  A sua equipa é única nas suas particularidades, e as refeições são sempre momentos de grande diversão, onde a conversa é viva e intensa. O encarregado, o Pereira, benfiquista de gema, tem o seu lugar reservado, estando sempre ladeado pelos dois irmãos Pinto, portistas aferroados. Escusado será dizer que sistematicamente é atacado e bombardeado por ambos, que não lhe dão um minuto de descanso. Na mesa ao lado, o sportinguista e nosso poeta, Carlos Rodrigues, não se deixa ficar e reage sempre com grande entusiasmo e vivacidade!

E quando as visitas o justificam, temos para a sobremesa um momento especial, pois o Carlos Rodrigues enche-se de brios e vai daí está a declamar as suas criações, onde o seu poema  “A epiderme do Xisto” causa sempre grande frisson.

No final, há sempre o jogo da malha, pois o campeonato interno tem de terminar a tempo. Aí a competitividade é sempre alta, o despique é intenso, os piropos são mais que muitos, e a algazarra também. Termina só quando se ouve o som do tractor a chegar com as uvas, pois o Pereira não admite nem um  minuto de espera para descarregar.


Luís Sottomayor
Enólogo

 

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