A Taberna Albricoque

A experimentar

Antes do mais, convém esclarecer que esta é a casa de Bertílio Gomes – um chef algarvio de enorme criatividade com um trajecto consistente que passou pelo Hotel da Lapa, o Bica do Sapato ou o Faz Figura, para dizer apenas algumas das grandes cozinhas que beneficiaram da sua liderança.

Esclareço ainda que este nome complicado é nada mais nada menos que sinónimo do fruto do damasqueiro – o damasco ou alperce, esse fruto de aroma e sabor fortes que parece ter tido origem na Arménia há mais de 5000 anos.

Assim contextualizados fomos a Casa do Bertílio ou do Damasco, em família, agora pelas festas natalícias. O restaurante fica em frente à porta lateral da Estação de Santa Apolónia. Um espaço antigo, elegante com uma sala comprida e outra marcada pela presença de uma abóbada que lhe dá o ar de taberna antiga que também leva no nome.

Ficamos na primeira sala e confrontámo-nos com a ementa que tinha sido revista na noite anterior.

Antes de tudo uma nota para o pão. De trigo, com parecenças alentejanas e ar de ter ido ao forno a lenha com a crosta estaladiça e a massa fofa, mas envolvente. Um pão a sério que se deixou levar por um, também exuberante, azeite aromatizado.

Nas entradas, o destaque para a sopa de lingueirão, a fazer jus às raízes algarvias; uma vénia para o tártaro de carapau, sublime no controlo da acidez, repousava suculento em cima de uma tosta fina. A moxama de atum em tomate também é famosa e recomenda-se. Mas de alto nível são os camarões do Algarve. A saber a mar como deve ser, no seu ponto de cozedura e apenas temperados com sal e um golpe de azeite. Não gostámos tanto dos rissóis de berbigão que talvez ganhassem em ser amaciados com uma emulsão, por exemplo, de molho branco. Assim estavam bons para heróis do mar, dada a pronúncia marcante do sabor do berbigão.

Passemos para a substância. E a glória toda foi para dois pratos de enorme qualidade palatina. O “jantarinho de rabo de boi” e a empada de capão de Freamunde com cogumelos e castanhas. O primeiro vinha num tachinho de ferro e levava um excelso estufado do rabo de boi, amaciado e sápido a entregar os sucos a um grão de enorme gabarito. Grande prato de panela que nos vai ficar na memória. Também de boa execução a empada de capão. Massa no ponto e capão desfiado e emulsionado em “cogumelos cantarelos” e castanhas que tinham o condão de acrescentar textura sem marcar o prato ou torná-lo demasiado pesado.

Outras referências da carta são a raia com molho de manteiga e alho e batata cozida – um prato seríssimo de pescadores, e a abrótea apresentada em filetes e “arrepiada” numa tomatada alentejana. O xerém de camarão é outros dos pratos em que mergulhamos numa explosão de sabores do mar português.

Boa garrafeira, não muito ampla, mas representativa das diferentes regiões e terroirs.

Serviço diligente com simpatia e aprumo quanto baste.

Nas coisas de adoçar, a recomendação vai toda para o bolo de alfarroba com gelado de queijo e figo, a revelar novamente as origens do chef. Ainda uma recomendação para as farófias com molho de canela. E até há o famoso Dom Rodrigo, doce algarvio notável criado em honra de Dom Rodrigo de Menezes, capitão general do Reino dos Algarves.

Assim correu, no remanso da família, a nossa ida a casa do Bertílio ou do Damasco. O meu cunhado António e eu fizemos promessas de lá voltarmos os dois, ainda que só para bebericar ou tapear. Um Novo Ano muito guloso para todos!


António Souza Cardoso
AGAVI

 

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