E se lhe dissessem que o melhor Alentejano de Portugal era em Santo Tirso?

A experimentar

É no mínimo estranho quando 3 amigos que não se conhecem entre eles, comentam comigo que o melhor restaurante de comida alentejana de Portugal é em Santo Tirso. Primeiro estranha-se mas, depois do segundo alerta, a curiosidade desperta e faço algo que raramente faço. Vou ao TripAdvisor e vejo que em 575 avaliações “O Cansêras” tem avaliação de 5.0. Ao terceiro aviso, saí disparado.

O Cansêras não pertence a território Minhoto, é um estado pária no norte do país, com um rei, uma rainha, súbditos comensais e pertences próprios da cultura alentejana. Sou recebido pelo chef, num dia chuvoso, com o seguinte cumprimento: “dizem que lá para o norte está mau tempo!”. Ambiente rústico que nos transporta para as origens, sala para 20 comensais, toalha amarela palha e louça de barro, fotografias de ilustres e grupos de cante alentejano, bons copos para vinho e um atendimento próximo, caloroso e sempre com um gigante sentido de humor.

O rei Jorge Silva é natural de Beja e a rainha Susana, natural de Santo Tirso, têm uma magnífica história de vida e de amor. Susana engana-se no preenchimento da candidatura para a faculdade para onde gostaria de ir estudar Gestão e, por surpresa, é admitida em Beja, onde não conhecia ninguém. Começou a ir a pé para o Politécnico mas, como ficava longe da cidade, falou com o pai e lá meteram a sua “esmaltina” no comboio. O caminho mais curto era atravessar a Base Aérea e quando um alentejano vê alguém de bicicleta debaixo da “ressolana” logo repara que é estrangeiro ou deslocado. O rei Jorge, nessa altura militar, começa a acertar a mira para a “gaiata” tirsense e, de repente, conhecem-se num bailarico. Jorge é repescado para o norte e assim nasce “O Cansêras”.

Enquanto esperava, veio uma “abaladêra” (ou cerveja para os estrangeiros), um cesto de bom pão alentejano (estava bom mas era do dia anterior), azeitonas temperadas com azeite de Moura DOP (bom para molhar o pão sem vergonha) e um queijo de Serpa DOP, de meia cura, bom para cortar uma bela fatia de cima a baixo e aproveitar as várias texturas e camadas de sabor.

Depois do preâmbulo, pedimos o queijo amanteigado de Serpa no forno, que vinha bem temperado com bons orégãos do quintal. Dava gosto mergulhar o pão, tipo fondue e sentir que era de boas famílias.

Espetaculares estavam as púcaras (ou frades) com espargos verdes, linguiça e ovos mexidos. Os cogumelos estavam suculentos e “rijinhos”, sabor intenso e uma textura que, de olhos fechados, parecia carne.

Como nesse dia não havia pezinhos de coentrada, aceitámos a sugestão das bochechas de porco preto, muito bem estufadas, bem atomatadas com orégãos e hortelã, a desfazer-se com alguma gelatina na boca. Acompanhavam umas deliciosas migas enroladas, bem húmidas no interior, crocantes por fora e umas belas rodelas de laranja. Prato de conforto a indiciar uma sesta antes da viagem de regresso.

A viagem segue com uma deliciosa sopa de tomate, com ovo escalfado, fatias de pão, muitos orégãos e hortelã. Ao lado, uma travessa de barro, com carne de porco bem frita no seu pingue, chouriço na sua gordura e umas espetaculares “pipocas” da barriga do reco (lembrei-me como seria feliz no cinema com estas pipocas e uma “abaladera” na mão). Era uma explosão de sabores e texturas, reconfortante, poderosa e rica. Grande momento!

A garrafeira, só com rótulos do Alentejo, é enorme e variada, com vinhos de colheitas já antigas, embora com os preços inflacionados. Optámos por um António Maria 2001 (50€), cheio de fruta confitada e doce, taninos redondos e aveludados e um final interminável.

Na doçaria, toda feita pela rainha Susana, escolhemos o pão de rala e a encharcada de ovos. Coisas leves e para meninos.

Quero fazer Mea Culpa, porque pensava que a origem do pão de rala era Algarvia. Estava errado, a origem é alentejana e suspeita-se que este doce conventual tenha sido criado no Mosteiro de Santa Clara, em Évora. “Bomba” de gemas, açúcar, amêndoa, fios de ovos e gila, é um dos meus doces conventuais preferidos. Estou mal-habituado, porque sempre que o comi, foi feito com a mestria da mesma pessoa, antiga proprietária de uma famosa pastelaria em Portimão. Estava muito bem feito, estava muito bom, mas comparando com a minha referência, achei que estava ligeiramente seco e pouco suculento nas várias camadas.

A encharcada de ovos, essa, estava bem húmida, com a calda de açúcar a envolver na perfeição os fios de ovos, a amêndoa e a canela.

Melhor de Portugal ou não, não sei. Seguramente o será no norte de Portugal. Pela simpatia, pela qualidade do produto e pela mestria da sua cozinha. Foi um prazer ter conhecido “O Cansêras” e certamente vou voltar para experimentar muitas outras iguarias sazonais.

Em breve, vai ouvir-se falar muito do Cansêras, mas mais não posso dizer.

Na saída, uma placa indica “Tá Passando a Frontêra”.


José Manuel Pires

Empresário

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