A grande arte

A experimentar

A grande arte

Se calhar já contei a história, começo a repetir-me e, para piorar a coisa, gosto de me repetir, sobretudo quando falo de livros e literatura, e esta história conto-a muitas vezes à pequenada que me quer ouvir e quer desvendar os segredos da nobre e antiga e misteriosa arte de bem escrever. Ei-la:

Há muitos, muitos anos, havia no reino um semanário chamado ‘Independente’ que, como todos os jornais, entrevistava pessoas interessantes e que tinham algo a dizer de interesse público. Nesse tempo antigo havia também um restaurante numa importante avenida da capital, a que ainda hoje liga o Saldanha ao Campo Pequeno, chamado Clube dos Empresários. Como infelizmente nunca fui empresário, nunca lá entrei, mas ouvi dizer que se comia lá bem. Ainda me lembro de Belmiro de Azevedo (esse sim, empresário) comentar que gostara mas “onze euros por uma refeição” achara carote. Talvez fosse, naquele tempo. Era provável que o fosse. O Clube dos Empresários tinha à frente da cozinha um chefe de qualidade, cujas palavras bebi e registei aqui na moleirinha, mas cujo nome infelizmente não guardei. As minhas desculpas a ele e aos leitores. Creio que uma singela pesquisa de dez minutos entre os milhares de páginas daquele semanário nos fará chegar ao seu nome. Merece. Os direitos de autor extinguem-se ao fim de uns míseros setenta anos depois da morte, o que significa que um editor pode publicar os sonetos de Camões sem ter de pagar dinheiro ao próprio ou aos herdeiros. Todavia, editor algum pode sonegar a Camões o direito a ver o seu nome na capa e a ser reconhecido como o autor desses sonetos. A verdadeira autoria nunca morre, é vitalícia no sentido mais amplo e belo do termo: vive mesmo para lá da morte. Por isso, muito me penitencio de não saber de cor o nome do autor das palavras que me trazem aqui. Lembro-me apenas de que era o chefe do Clube dos Empresários.

(Chefe com é ou sem é? Diz-se chefe ou chef, à francesa? Eu gosto de chefe, logo chefe é.)

Ora, a dada altura o jornalista faz a perguntinha mais simples e crucial de todos os tempos:

«O que faz de um chef um bom chef?»

(Tanto quanto recordo, o jornalista usava chef sem é no final.)

E responde o chefe, com uma simplicidade mais demolidora que uma carcaça fresca:

«Um bom chefe é aquele que trabalha com boa matéria-prima.»

Maravilha? Só isto? Sim, para ele era só isto. E também assim passou a ser para mim. Isto não significa que quem trabalhe com matéria-prima menor seja mau cozinheiro, antes pelo contrário: é toda uma arte ter restos de bacalhau da consoada e fazer Roupa Velha, de resto foi o saber aproveitar os restos que apurou muita mão na cozinha portuguesa. Assim de cor, ocorrem-me logo a Açorda à Alentejana, os Pezinhos de Coentrada, as Tripas à Moda do Porto, tudo pratos feitos com aquilo de que outrora os ricos desdenhariam.

Um bom cozinheiro faz das tripas coração e desenrasca-se até com uma pedra, como o monge que, na lenda, fez a mais rica sopa portuguesa apenas com uma panela vazia e um calhau apanhado do chão. Mas aquilo de que o chefe do Clube dos Empresários estava a falar era de outra coisa. Ele estava apenas a dizer que o segredo da grandeza reside sempre na qualidade dos ingredientes (e no acesso a eles). Sim, o desenrascanço é bom mas, se uma pessoa tem um peixinho fresquinho, a grande arte não está em sobrecarregá-lo para mostrar que se é artista. A grande arte reside em ser o mais simples possível, interferir o menos possível com a obra de arte que já está ali, em cima da mesa de cozinha, antes mesmo de lhe metermos o dedo.

Como referi ao princípio, há anos que repito esta entrevista aos mais jovens, porque a espontânea e humilde sabedoria deste chefe do Clube dos Empresários tem uma mensagem importante também para quem se quer aventurar pelo ofício de dar à caneta. E a lição é simples (escritores, tomem nota):

Quando temos uma grande história para contar, contêmo-la sem grandes demoras ou complicações. Quando temos algo para dizer, digamo-lo e pronto. Não temos muito para dizer? Aí talvez dê jeito fazer rococós e barroquismos, a mostrar que somos os maiores, na esperança de ninguém notar que não fazemos a mínima ideia do que estamos ali a fazer e que publicámos o livro só porque nos deu na surreal gana.

Sim, um bom artista (cozinheiro, chefe, escritor) é aquele que trabalha com boa matéria prima.

E, acrescento eu, não a estraga.

Rui Zink
Escritor

 

 

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