O Pai Natal na mesa da política?

A experimentar

A véspera de Natal é um dos momentos mais inspiradores para a nossa culinária. Todos sabemos que desde o bacalhau até ao polvo, conforme a região do país, terminando nos bolos conventuais e típicos da época, estamos perante um dos momentos mais nobres do ano.

A quadra natalícia vai coincidir agora com o momento de pré-campanha eleitoral e, assim sendo, é natural que os nossos políticos se manifestem muito mais generosos do que o lendário Pai Natal. Vivemos, assim, claramente um momento crítico do sistema político fundado há cerca de 50 anos.

Crítico porque há quem fale do receio de um governo dos magistrados, considerando que o tempo do Parlamento e do Governo vai perdendo influência perante a dinâmica constante e efémera das redes sociais, da televisão e da internet.

Convocados, mais uma vez, às urnas, os portugueses começam a perceber que uma maioria absoluta pode ser inútil e que uma maioria condicionada até poderá conseguir funcionar.

Os candidatos a primeiro-ministro, dos partidos do eixo central do sistema, entraram naquilo que, nos tempos da República, se chamava o bacalhau a pataco.

A política de contas certas vai ceder, e só neste entretanto, à política que vai permitir o descongelamento de todas as carreiras da administração pública ou ao aumento das pensões. 

Um país que se entretém a distribuir benesses, pela via orçamental, não está a compreender porque perde competitividade no contexto global das outras nações.

Não estão em causa os fundamentos e o modo de operacionalidade do Estado Social. Ninguém pretende ou deseja um país sem SNS ou escola pública, mas a consequente degradação dos serviços públicos mostra ser necessário promover novas políticas. Perante isto, as pessoas querem saber que políticas públicas vão ser propostas e desejam que evitem um novo ciclo de austeridade.

Aquilo que se define como as virtudes dos moderados políticos perante os radicais, nada mais é do que a defesa dos princípios de afirmação de uma economia livre e de mercado, de proteção social aos mais carenciados e o assegurar da defesa dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Deste triângulo simples resulta o que os eleitores anseiam: um governo que alivie a carga fiscal, seja menos intrusivo, ajude a crescer os salários e promova o bem-estar.

Será pedir muito? Talvez não!

Vamos então para a mesa e ver a quem sai a fava do bolo-rei.


António Tavares
Professor Universitário de Ciência Política

 

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