Rally de Portugal e tardes de vinho quente

A experimentar

Não sei porquê nem me lembro quando, mas era outono ou inverno, o que, em Trás-os-Montes, nesses anos, era quase a mesma coisa: fazia frio, vento, chovia há dias e toda a gente dizia que com um ou dois graus a menos, seria neve. A Estalagem desse tempo era ainda a primeira Estalagem do Caçador, construída como se fosse um hotelzinho suíço ou austríaco, um ponto focal para quem deambulasse naquelas terras longínquas, a horas e horas do Porto. Entrava-se e era o conforto: cheiro agradável de escadas de madeira e tijoleira encerada, ar morno de aquecimento central, voz educada do Senhor João que dava as boas-vindas, quadros, tapetes, gravuras e animais de caça empalhados pelas paredes, aroma a café que vinha da sala de estar, um aposento decorado como uma mistura de bar americano com bancos altos ao balcão, e mesas, cadeiras e sofás de fazer inveja numa loja de antiguidades e decoração, candeeiro redondo pendurado do tecto de onde se sustinha um pato real de asas abertas, embalsamado. Um espectacular relógio de cuco dos Alpes dava as horas como se cumprisse uma partitura musical. Mesmo estando-se a ler um dos jornais ou revistas (O Primeiro de Janeiro, o Le Figaro, a Paris-Match e a Jours de France dispunham-se em cima da mesa), era impossível não prestar atenção aos hóspedes que entravam ou às visitas que os acompanhavam. Num desses dias de há cinquenta anos apareceram dois casais nitidamente estrangeiros, vivaços, acompanhados de portugueses algo blasés e que um dos empregados nos sussurrou ser tudo gente “ligada ao rali”, o que nos deixou atentos, surpreendendo-nos que as senhoras (hoje eu diria raparigas) pediram copos de vinho quente! Vinho quente! Era uma première para nós! Apercebi-me que esse pedido motivou uma ida dum dos empregados “lá dentro”, de certeza conferenciar, e, passado um bocado, surge de tabuleiro na mão com dois copos dos que hoje usaríamos para galões, com vinho tinto aquecido, tresandando a chocolate, canela e café. Para nosso espanto, beberam-nos todos em pouco tempo e pediram mais, soltando então os cachecóis que traziam, pousando nos braços do sofá os casacos que, enfim, tiraram, debruçando-se com mais atenção sobre um mapa de Portugal desdobrado na mesa de azulejos, calcado num canto com um cinzeiro para o fixar e, no outro, com um bloco de argolas em que tomavam notas, trocando de mão os cigarros e os lápis.

Há muitos poucos dias recebi da sommelier Teresa Gomes um daqueles emails que se mandam em difusão “aceitas um vinho quente?” e trocámos mensagens sobre variantes de sabores e cheiros para acrescentar à base de vinho tinto. Iremos fazer experiências, cá em casa, numa destas tardes em que, depois dum passeio na mata aqui pela Serra de Ala, a Mariana e eu regressemos com a ponta do nariz gelada e as maçãs do rosto coradas do frio, o que não será difícil acontecer. A última vez que bebemos vinho quente (mulled wine) foi em Sintra, depois do percurso a pé desde a estação de combóio até à Casa do Fauno, onde passámos a tarde a ler e a observar o movimento do bar e do jardim, sacudido a vento, sorvendo em pequenos golos a alquimia de especiarias. No vinho quente, se a base tiver defeitos, tem que haver a mestria de os disfarçar com as especiarias, ou o chocolate, ou o café, ou o que for mais adequado. Não é à sorte que se pode fazer vinho quente. Misturar tudo e… pronto! Não, assim será um desastre intragável com que se desperdiçará o vinho. Primeiro tem que se conhecer o vinho que iremos aquecer (de preferência em vapor ou em banho-maria) e ter a noção de quais as notas que estão no coração, no fundo ou no topo desse tinto (de preferência) porque o calor vai tornar mais exuberantes e efémeras as mais voláteis, mais persistentes as mais pesadas. Por isso, escolher cravinho, canela, chocolate, mel, café, gotas de bagaceira, nozes e avelãs, rodela de laranja, seja o que for, para misturar, não é indiferente e tudo estará correcto, dependerá do gosto de cada um e de como se queira complementar o vinho base! Alecrim e tomilho estará muito bem para quem não vá pelos doces! Menta será arriscado, mas se for apenas uma sugestão, poderá ser um esplendor!

Anteontem chegou à nossa caixa do correio a revista do ACP. Menos magrinha. No Editorial, Carlos Barbosa chama a atenção, entre outras coisas, para o impacto económico positivo do Rally de Portugal e indica-o como um factor de apoio às regiões e de combate à interioridade. Sem dúvida. Naquele dia de há meio século esse rally ou outro fez com que se bebesse vinho quente na antiga Estalagem do Caçador! E tenho a certeza de que, se as pistas fossem escolhidas aqui mais para o interior profundo, poderia ser um enorme factor de progresso, a começar por melhorar a nossa rede de cobertura de telemóvel e internet que ainda é deficiente e impede que se possam dar a conhecer muitos dos recantos bons onde fatias de salpicão e presunto se entremeiam com fatias de queijos e pães caseiros, tostados em brasas, regados de azeite, que também pode ser quente como o vinho, misturado com ervas e especiarias, rijado para migas que afastem o frio numa tarde de emergências de carros atascados ou de pneus a ter de ser mudados sob um temporal de inverno. Tirar os gorros, desapertar o fecho dos blusões, ficar em camisola em frente à lareira a fazer peso numa cadeira que nos deixe ter o copo na mão e ir chegando à boca dessas munições de estalo…, Procol Harum com a Fires do Grand Hotel … letra a ir de encontro à preocupação do momento com o mundo da agricultura: This war we are waging is already lost/ the cause for the fighting has long been a ghost/ malice and habit have now won the day/ the honours we fought for are lost in the fray… Espero que não, será?…


Manuel Cardoso
Consultor e escritor

 

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