Beber pelo interior

A experimentar

Pela sua dificuldade, pela raridade, pela antiguidade, pela novidade e pela natural qualidade e excelência, os vinhos produzidos na zona interior de Portugal e de Espanha, uma zona que hoje em dia está repartida em parte do Douro Superior, numa faixa norte da Beira Interior e nas Arribas/Arribes do Douro do lado de Miranda, Bemposta e Mogadouro, em Trás-os-Montes, e de Zamora e Salamanca do lado de Espanha, serão um dia os vinhos mais exquisite, exclusivos e valorizados dos dois países. Poderá parecer uma frase demasiado bombástica e gratuita, esta. Mas não o é. Porque alguns desses vinhos já o são: exquisite, exclusivos e valorizados. Ainda não a preços inatingíveis mas com qualidades que, para muitos dos outros vinhos de Portugal, são já, seguramente, inatingíveis, porque não estão no spot nem têm a expertise ou as uvas para o conseguir. Não estou a falar dum tipo de vinho único nem duma marca que exista global nas suas características. Nem estou a falar sozinho.

Felizmente faço parte dum grupo de amigos que se costuma juntar com o único ponto de agenda de conversarmos e sermos amigos. Contamos umas larachas, rimo-nos e ficamos sempre a pensar quando será o próximo encontro, sentimento de saudades do futuro (sabedoria antiga: não era por acaso que uma das frases “in vino… baco” do léxico irónico do meu Pai era a de que “como dizia Platão, a saudade de um copo encontra-se no fundo de outro copo!”). São vários os sítios para essas reuniões, sem rotina nem motivo: na Casa do Forno em Travanca tem havido grelhados da melhor Idade do Fogo e um adivinhem lá se não são perdizes, cogumelos ou espargos em ensopados; na Quinta da Alegria, javali com vista para perfumes da adega e da vinha, estendida até ao rio como um guardanapo ao pescoço; na Casa da Arcã, leitão assado tenríssimo de tanto vir a correr pela A4, desde de lá do Marão; em Vilar do Amargo (oh que forma tão bem conseguida de camuflar a excelência, com este nome!) um bacalhau presidente duma cerimónia cujos acólitos são receitas gourmet que se vendem em Nova Iorque, Londres e Milão, como pontos da melhor alta costura que se consegue com azeitonas e mousse de azeitonas (chamar-lhe paté seria indesculpavelmente redutor e não lhe faria justiça – patés há muitos!), azeite e compotas secretas, salgadas e picantes, das que dão vontade de nem passar dos aperitivos, trincá-las com pão fininho barrado abonde. Não vou enfileirar os nomes dos vinhos, da CARM e da Douro Prime, que brotam de esforçadíssimas cepas enraizadas nessa região e que transformam as conversas e discussões desse nosso grupo tão precioso em eruditas dissertações. Não é preciso. Deixo a cada um a alegria da sua descoberta nos mais insuspeitos sítios. Há uns anos, num fim de tarde, no Nicola, em Lisboa, vindo do Terreiro do Paço duma das reuniões no ministério (daquelas que deixam uma sensação de desalento pela esterilidade das conclusões…), com um colega, estacionámos uma meia hora na esplanada a lavar os olhos dos powerpoints e mandámos vir uma bendita garrafa de rótulo azul inimitável, gelada: ora diz lá de onde é este vinho sem ver o rótulo! Fechámos ambos os olhos, se bem que eu o soubesse, e pelas estradas e escarpas crestadas e amarelo-torrado acima da Valeira, de Figueira, de Almendra, do Vale da Pena, do Águeda e Douro, Tormes, Coa, sobrevoámos a Vilariça, o Tua, o Cabeço da Mua e o Felgar, vislumbrámos Lumbrales, Fermoselhe, pairámos às voltas com considerações sobre os mistérios daquele branco… “pensava eu que conhecia Portugal!” A que lhe respondi que um dia haveria de ir comigo ao Escalhão e a Bemposta! Não estou, por isso, a falar sozinho.

Será das cepas, do terroir, do clima, do modo de fazer, será de tudo. Será, talvez mais, do facto de neste interior as pessoas se agarrarem firmes ao cerne das questões pela magreza de recursos e dificuldade da sobrevivência. Será, ainda, pelo bem querer, o bem-receber, o orgulho humilde do empenho posto nas coisas bem feitas que os autóctones, à força de termos de ser autóctones, demonstramos na simplicidade – e, por isso, autenticidade – dos processos. Ainda há dias, num programa gravado na varanda/pérgola da Quinta da Silveira, discorríamos sobre o Norte, os vinhos ancestrais feitos com métodos ancestrais que fazem com que sejam dos mais interessantes de Portugal, extraídos aqui dos aluviões que o Sabor acumulou, da rebofa com que o Douro os renova. Com a mesma bioquímica que os extraem da magra pele das encostas do Coa, do Tormes, do Águeda, das Arribas do Douro, o mesmo calor que os selecciona dos demais não autóctones, as leveduras capazes de os fazer ser vinhos quintessenciais. “Estás um exagerado!” dir-me-ão. Se o estivesse a ser, não faria mal porque o estaria a falar bem de amigos.

Todos dizem que este ano foi uma vindima atípica, generosa para alguns, mais avara para outros, difícil para quase todos: sol a mais e chuva a menos, chuva a mais e tempo a menos para a pressa que teve de dar para se porem as uvas no lagar. Está agora aí o Verão dos marmelos para o lavar de cestos e conjecturas numéricas. E seja qual for o tipo de música, Autumn Leaves pela Eva Cassidy, em Jazz instrumental ou pelo Eric Clapton, o som será muito melhor se for acompanhado do blop ao saltarem as rolhas de valentes garrafas de vinhos do interior de Portugal. Será tanto melhor se houver espanhóis para os beber também – que, como não gostam de ficar atrás, trarão os seus Juan Garcia e outros das Arribes, a desafiar-nos mas a sabermos, com justa satisfação, que os nossos estão muito à frente! É o que faremos num próximo fim de tarde, tocar a reunir para os nossos exquisite e exclusivos do interior.


Manuel Cardoso
Consultor e escritor

 

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