Antigo borracheiro recorda “vida dura” do transporte de vinho às costas na Madeira

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Basílio Nóbrega tinha apenas 13 anos quando começou a trabalhar como borracheiro, designação atribuída na Madeira a quem transportava vinho às costas num recipiente feito de pele de cabra, uma profissão que já se extinguiu.

“Tenho agora 71 anos e a última viagem que fiz foi há uns 20 anos”, disse à agência Lusa e logo sintetizou o seu percurso profissional: “Quando comecei, com 13 anos, carregava um borracho de 22 litros e meio. A seguir, dos 14 por diante, comecei a transportar um de 45 litros, mas também carreguei borrachos de 67 litros e meio”.

Borracho é o nome do recipiente utilizado para o transporte do vinho, feito a partir de uma pele de cabra ou de cabrito inteira do pescoço às patas, que depois era “limpa e barbeada”, virada do avesso e posta a secar ao sol durante um mês.

Basílio Nóbrega coloca um exemplar no colo, percorre a superfície ressequida com a mão áspera, calejada do trabalho no campo, e explica: “A parte de fora da pele da cabra é a que fica por dentro no borracho”.

A peia, uma corda de lã de ovelha, era amarrada nas extremidades e assentava na testa do borracheiro durante a viagem, garantindo o equilíbrio do borracho em cima dos ombros, ao mesmo tempo que um bordão era utilizado para auxiliar na caminhada.

“Os antigos, os que faziam viagens até Machico, Caniçal, Camacha ou até ao Funchal, levavam também um saquinho de pano à cintura com um bocado de pão, uma merenda para matar a fome”, contou, explicando que, da sua parte, o trabalho foi sempre feito nos arredores da freguesia do Porto da Cruz, de onde é natural.

A localidade pertence ao concelho de Machico, mas situa-se já na costa norte da ilha da Madeira, e foi lá que nasceu a profissão de borracheiro, num tempo em que a vinha americana dominava a paisagem, depois de ter sido introduzida na região na sequência da destruição das castas tradicionais pela filoxera, no século XIX.

“Eram duas semanas, pelo menos, a transportar vinho para um só senhorio, uns seis ou sete homens todos os dias”, explicou Basílio Nóbrega, sublinhando que, nos meses de agosto e setembro, havia sempre trabalho e homens disponíveis para “ganhar o seu tostãozinho”.

A atividade era tão intensa que, por vezes, ele inutilizava três borrachos num ano, devido a roturas provocadas por cortes de lâmina durante o processo de raspagem da pele, mas também é certo que naquela altura “havia muito gado” e os criadores tinham sempre o cuidado de “tirar o borracho” a cada rês abatida.

“Quando eu comecei, já só trabalhávamos de dia, mas antes, quando transportavam o vinho para outras freguesias, para o Funchal, para Machico, para Caniçal, arrumavam dez ou 15 borracheiros e saíam ainda de noite para fazer esse percurso”, contou.

As viagens eram longas, duras e cansativas, os caminhos íngremes e difíceis, e a fila de borracheiros organizava-se de modo a manter o grupo coeso: à frente seguia o ‘candeeiro’, homem robusto que marcava o ritmo da caminhada e, de vez em quando, cantava para estimular e fazer esquecer o cansaço, e em último lugar ia o ‘boieiro’, pessoa igualmente forte que cuidava de não deixar ninguém para trás.

“Às vezes, o patrão acompanhava a viagem”, contou Basílio Nóbrega, explicando ser uma forma eficaz de garantir que o vinho chegava todo ao destino final, pois podia haver a tentação de alguém querer matar a sede pelo caminho com recurso ao conteúdo do borracho.

A profissão extinguiu-se com o desenvolvimento da rede viária na Região Autónoma da Madeira e com a redução progressiva do cultivo de vinha no Porto da Cruz, mas a Associação Grupo Cultural Flores de Maio, criada em 1986 e com sede na freguesia, mantém viva a memória através do Grupo de Borracheiros, do qual Basílio Nóbrega faz parte, atuando em diversos eventos turístico-culturais no arquipélago, como a Festa do Vinho Madeira, que decorre até 11 de setembro, e também em feiras nacionais e internacionais.

A Associação Flores de Maio candidatou o borracho à edição de 2020 de as “7 Maravilhas da Cultura Popular”, na categoria “artefactos”, mas o utensílio não chegou à final.

“O espanto dos turistas é sempre grande quando veem isto”, disse Basílio Nóbrega, enquanto colocava o borracho às costas, em jeito de demonstração, e reforçou: “Mas também há muitos madeirenses que perguntam o que é isto”.

Depois, em suspiro, rematou: “Isto é que foi uma vida… uma vida dura… hoje em dia é tudo mais fácil…”.

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