E que mês de Agosto!

A experimentar

Um grande factor de crise nas famílias é o tão pouco tempo que estão à mesa: inestimável, insubstituível fonte de informação e histórias, de opiniões e expressão de sentimentos, uma escola de formação. Não foi por acaso que Jesus Cristo, nunca falando de finanças e não constando que tivesse biblioteca, tenha estado longos momentos à mesa para nos pôr a comungar ideias – além do vinho, do pão e do borrego assado (apetecivelmente pintado na tela d’A Ceia, de Guido Reni, na Basílica da Estrela).

Comendo e bebendo, à mesa ou à volta dum lume imemorial, aceso ainda antes do tempo dos cromeleques e das cavernas, mulheres, homens e crianças foram passando de geração em geração as sagas de cada família, fizeram apreciações sobre indumentárias, hábitos e atitudes, acertaram contratos, teorizaram, tomaram decisões, contaram anedotas e cantaram. O prazer, a comemoração, a saúde, a doença, a morte e a imortalidade estão presentes à mesa e nela se confidenciam segredos, se explicam problemas, se fazem descobertas, se discutem diferenças e se fazem as pazes. Não é um pormenor que as aventuras da aldeia de Astérix e Obélix tenham um epílogo feliz e gastronómico numa refeição colectiva. O António Alçada Baptista registou as refeições em casa dos avós onde, literalmente, tinha assistido aos pedaços de história que eram contados durante os longos almoços e sendo um lugar de reunião de várias gerações, notando que o seu desaparecimento nos retira da consciência da história como realidade vivida, sem a qual não somos o que somos.

Esta filosofia vem a contrario de que, no primeiro dia de Agosto, fiz favas com chouriço para o almoço, para se comerem frias com um copo de rosé, sem paciência para mais: o calorão que se sabe, sozinhos em casa, Mariana e eu, na perspectiva de assim continuarmos todo o mês, isolados aqui em Latães no alto da Serra de Ala, proibidos de acender o churrasco e, deixado em Julho o Algarve (onde tínhamos estado no apartamento da nossa generosa Tété Fontes, em Armação, com porta para a praia e mar logo ali noite e dia: bastava esticar o braço para termos amêijoas e espetadas de gambas no Joni Jonny ou copos de branco Cadão gelado no Mikes Bistro, subir dois degraus para o apartamento da Carmo e do João Fontes para bacalhau no forno com vinho verde, à hora de anoitecer os barcos ao longe no candeio, de manhã as idas a pé até ao Bar dos Salgados para um sumo de laranja natural e uma imperial), parecia-nos desolado o nosso querido Trás-os-Montes quente demais, seco demais, longe demais, deserto demais. Com amanheceres e pôres-do-Sol bonitos demais, receosos de ver colunas de fumo ou clarões de fogo a outras horas.

Sem grande vontade de cozinhar – a temperatura lá fora teimou estar acima dos trinta e cinco, dias e dias – fui disfarçando a coisa com sanduíches de presunto, tomate e cebola fina, comidas com gaspacho e rosé, caldeirada de lulas noutro dia (e que, arrefecida no frigorífico, polvilhada de pimenta às cores e espalhada de salsa fica melhor que sorvete de Cascais para se ir comendo ao longo da tarde como se fosse uma tapa espanhola). Dias, ainda grandes, de Agosto, que sobram: fui lendo e escrevendo, fiz uma visita a Valle Pradinhos para conversar com o Rui Cunha e que publiquei no Eggas, escrevi no Agroportal e no meu blog, fui preparando apontamentos, estudando e remetendo um parecer, respondendo a emails e comentários, terminando uma longa autobiografia de inglês para português. Mas…

Vindos de carro da Irlanda, vivem em Galway, tendo atravessado, num ferry, de Cork para Roskoff, e fazendo escalas em Vitória e connosco, a caminho da Parede, chegaram os nossos primos Karine e Henry Cardoso Peres. Conversámos à mesa da sala e da varanda, acompanhados de bacalhau à lagareiro, copos de branco Valle Pradinhos e do Lombo, pudim de pedra da Mariana e um porto tawny, 20 anos, da Sandeman. E, no dia seguinte, zarpando eles, depois duma maionaise fresca com hortelã e duns morangos sem mais, perfumados e duros, dos de Podence, chegaram a Carolina e o Manuel a cortar a rota para os Picos da Europa, vindos de Lisboa! O nosso Miguel Marques, nesse dia cá em casa, com dedo e paladar especial para panelas, fez-nos pataniscas de bacalhau duma posta que sobrara da véspera, pintalgadas com salsa. Dias depois, a Teresinha e o João Andrada vieram lanchar melão com presunto e falar-nos de casamento. Íamos somando horas inesquecíveis de estarmos à mesa.

Numa sexta-feira, de Lisboa, chegaram o Vicente e o Carlos, e, de Bordéus, a caminho de Guimarães, do Gerês e da Madeira, os nossos sobrinhos Ariane e Miguel Ary, a Amália, a Célestine e a Alba. O Miguel trabalha em enoturismo para os herdeiros do Barão de Bich, trouxe-nos garrafas grand cru Saint-Emillion do Chateau de Ferrand, explicadas à mesa da varanda de forma culta, trincando coisas. Fotos de grupo. Céus de Agosto. A Carolina e o Manuel cruzaram, já de regresso a Lisboa. Chegámos a ser doze! Telescópio para vermos as crateras da Lua. Sopa de tomate, bifes de cebolada e morangos com bolas de gelado, ao almoço seguinte, grupo para Bragança, festa medieval – que adoraram! Nós os dois saímos de casa durante umas horas, primeira ida a Travanca, das duas que tivemos todo o mês, para o jantar de anos da Filipa Mendonça, o precioso jantar do nosso grupo de amigos, sobrinhos e primos por que se afinam alguns dos acontecimentos da saison. O Pedro, churrascando carnes com maestria, a mesma com que o seu olhar agronómico mantém todo o verde do jardim num Verão como este! A Zinha, com o condão de fazer a categoria parecer uma coisa simples.

No dia seguinte, em nossa casa, para a debandada, sopa de cenoura, salada de alface, agriões e nozes, temperada com limão e azeite, frangos assados com batatas fritas em azeite e os estupendos morangos que se poderiam repetir diariamente, atentos os elogios que recebiam! E participámos num convívio de Latães, a favor da Associação, porco assado no espeto do meio-dia até às sete, comido às fatias em pão, com caldo verde, animadíssimas conversas de aldeia, zangados ou amigos, mas quase todos presentes (muito bom!), ao som dumas colunas que difundiam a M80 ou a RFM.

Noutra tarde, a Mariana e o Rodrigo Correia Tavares trouxeram a Sancha e o Lopo: melão com presunto, morangos, pãezinhos e azeitonas, caju, palavras sobre família, caça, o futuro na casa nova. Brancos e rosés, águas e sumos. Nessa semana fui a Miranda do Douro, exposição de pintura, A Segunda Pele, impacto da breve conversa com a Balbina Mendes, terei que o escrever. Entretanto em Latães, num fim de tarde de sábado em que iria haver missa e aguardávamos o Padre, ao mesmo tempo que, no largo, as pessoas aprontavam mesas para mais um convívio, desta vez a favor da festa a Santo Antão, dum carro que parou saíram, surpresa!, a Adriana e o Vasco, vindos de Lisboa para passarem dois dias! Estivemos nas tortilhas, azeitonas e pão, rodelas de linguiça, sardinhas assadas, carne entremeada na brasa e caldo verde, comprámos navalhas mirandesas com Santo Antão gravado no cabo – depois fomos para casa! Noite estrelada, o Starlink! Domingo, depois da missa em Macedo, café na companhia eloquente do Primo Luís Manuel na varanda do Solar Morgado Oliveira. Frugal presunto com ovos mexidos na nossa varanda, e seguimos para Rio de Honor, calor, minis no Bar, daí para a Puebla de Sanabria. Até molhámos os pés, no Lago! Encantadora, esta pequenina Suíça! Passeámos pelo casco antigo de Puebla, igreja de Santa Maria de Azogue com luz de Idade Média a fazer-nos apetecer voltar, ensaios num palco, movimento de fim da tarde, vida, esplanadas, petiscámos ternera Alistana-Sanabresa embebida esplendidamente, uma tortilla que tinha segredos e se desfazia na boca sem saber a batata e uns rissóis de queijo, chouriço e fiambre, coisas vulgares tão bem misturadas que dir-se-iam coisas raras, para aqui trazidas outrora para um sarau dos Condes de Benavente! E cañas. No regresso, anoitecendo, já ao lado de nossa casa, um corço espantou-se ao passarmos, comia amoras nas silvas do caminho. No dia seguinte, vieram a Aurora e o Joaquim Tenreira, pais da Adriana! Fizemos-lhes sopa de tomate e pimentos, bifes de cebolada – que esturrei ao precipitar-me e ter aquecido a panela com o gás no máximo… acompanhados com um arinto da Quinta do Síbio (é verdade: branco com bifes! Resulta tão bem!) bem frio, por si oferecido. Depois, Júpiter e Saturno com o telescópio! Ficámos na varanda com o whiskye irlandês especial que o Henry nos dera dias antes, Drumshanbo, as senhoras na sala viam o Rien a cacher.

A Cristiana e o Alberto Carneiro vieram um dia almoçar trazendo Tordo, um alvarinho casual cool (estou a roubar duma letra da Taylor Swift), que ganhou medalha de ouro em prova cega no concurso nacional da ViniPortugal deste ano. Conversámos toda a tarde, aliás, no seguimento do Algarve, em que saboreáramos uns soberbos bifes de atum em caldeirada. Aqui, bifes de cebolada (na serra continuávamos a não podermos usar o grelhador…), melão… história, episódios, reminiscências… e recebeu-se a notícia dos bilhetes conseguidos para os Coldplay!

Não terminaria o mês sem que os primos Arys voltassem a passar cá, vindos da Madeira, de regresso a Bordéus, longa conversa na varanda até tarde, céu estrelado, luz suave e longe para não haver mosquitos, abrimos-lhes especialmente uma garrafa de Graham’s, tawny, 20 anos, para rematar o serão de queijos, presuntos, azeitonas, batatinhas e torradinhas com azeite, explicações sobre vinhos da Madeira e vinhos abafados.

Segunda ida a Travanca, churrasco de chã de dentro, no jardim da Zinha e do Pi, devorada com arroz e salada depois duma sopa fria de melão e presunto com hortelã e antes duma tarte de chocolate com mirtilos, framboesas e morangos e dum bolo que nós levávamos, embebido em vinho do porto. Estavam também a Patrícia e o Bernardo Mendonça e todos os Xavieres de Lamas. Experimentámos vários vinhos mas foram as conversas o melhor da noite, em que voámos em primeira classe pela Islândia, pelo Brasil, por Angola e pelo passado, tudo em primeiras pessoas e todos em testemunho directo. Em petit comité, continuámos esse serão dois dias depois, na casa de Lamas, experimentando queijos (a massa mole de queijo fresco da Queijaria Quinta Vila dos Reis foi uma das descobertas deste Verão: pode-se temperar, moldar, rechear e trincar desfazendo-se em sabores como nenhuma outra!), mexilhões picantes que nos levaram a Zamora, uma salada de camarão e maionaise de pecado quase mortal como quase mortal foi o que bebemos, por culpa da conversa tão boa que nos fez perder a noção das horas…

Na certeza de que é uma forma militante de combater a crise social que começa nas famílias, manter-nos-emos fiéis e determinados em fazer estar à mesa todos os nossos familiares e amigos o máximo de tempo possível. Primeiro, porque à mesa não se envelhece, palavras da Avó Nina que a Mariana gosta de repetir e, segundo, porque à mesa o tempo é tão bem empregue que nem se dá pelo tempo a passar. E teremos, um dia, de dar ao Senhor do Tempo conta do nosso tempo!

Hoje é o último dia de Agosto, fomos à tarde a casa dos primos de Vale Benfeito, Carló e Carlos Pereira, tomar café com bombons e bolinhos. São horas da mesa da varanda, já cá em casa. Pôr-do-Sol e anoitecer. Está um horizonte magnífico, paisagem pacífica a parecer que nada acontece no alto desta serra trasmontana. Um grande silêncio. Um céu pintado expressamente, brisa fresca – um vent du soir! – a estrelar. Termina Agosto, com tantas coisas vividas à mesa.


Manuel Cardoso
Consultor e escritor

 

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