Prefiro preferir

A experimentar

Na última vez que aqui tive o privilégio de escrever “traí” as minhas preferências habituais por uma festa. Como já tinha revelado antes que preferia picante, resolvi fazer uma festa com os picantes do Piri Piri do Pine Cliffs e hoje estou arrependido. Não que o picante me tenha feito mal… e muito menos porque não goste de festas, que gosto delas sempre que bem feitas. E bem organizadas. Mas prefiro… preferir.

De volta às minhas preferências, preferi voltar ao Algarve para vos dar conta da minha chef preferida desde que a Rússia invadiu a Ucrânia. Na verdade é só desde que fui a Cabanas, neste mês de Agosto, mas a invasão dos seus sabores foi tão profunda que até parece que já foi há 6 meses .

Noélia, a menina da Ria. Formosa e segura no seu jeito próprio de misturar quase toda a verdura que a terra lhe dá com a fartura possível que lhe chega do mar. E da Ria.

Noélia, menina da Ria. No meio de tanto calor descobrimos um valor que arrepia. De calção ou corpo aberto é neste espaço do restaurante Noélia e Jerónimo que no verão quente de Cabanas, Tavira, adorei ver pela primeira vez uma espécie de tensão flutuante entre os ingredientes e produtos absolutamente regionais que compõem a lista.

Para quem um destino como o Havai é o paraíso sonhado pode ficar a saber que tem nesta terra de Noélia todos os lugares com que sonhou, incluindo o Havai. Depois desta enorme experiência que é ir jantar no meio de agosto a este restaurante, fica o desejo de voltar a ter este desejo sempre que nos quisermos lembrar das ondas dos mares que povoam a nossa imaginação. A experiência começa logo pela absoluta dificuldade que temos em conseguir um lugar, seja na esplanada ou na zona mais recatada no interior.

Foram muitos os “vencedores” da noite, mas a sopa de peixe, o caril de robalo selvagem com arroz e manga e as farófias subiram ao podium e não estou a ver como hão-de um dia de lá sair. A excelência dos sabores, a frescura genuína dos produtos e a atração de todos os sentidos a que nos obrigam obrigaram-me a tirar uma conclusão inesperada à hora a que chegava o café. Tinha sido a primeira vez em que tinha estado num restaurante a abarrotar de gente a jantar e a esperar e não tinha sentido o mínimo desconforto com a situação. Julguei mesmo que por algum milagre tínhamos jantado sozinhos sem nada à nossa volta para além dos odores e sabores que emergiam de cada prato.

De volta a casa deu-se uma curiosa coincidência que ainda aumentou a felicidade que eu já sentia. Na rádio apareceu a Maria Rita a cantar uma das minhas músicas brasileiras favoritas, “Menino do Rio”. Tal como Caetano Veloso escreve no último verso desta canção, “toma esta canção como um beijo”, eu também gostaria que a Noélia pudesse também tomar esta crónica do Eggas como um beijo. Repenicado.


Manuel Serrão
Empresário

 

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