A grelha de A-dos-Cunhados

A experimentar

Crítica de Restaurantes

Ave Dourada 

Quem diz que a “Oeste, nada de novo”, é porque ainda não conhece esta grande casa de peixes e mariscos, onde não falta um franguinho assado. 

Vários acasos levaram-me a este restaurante, uma das grelhas de peixe mais extraordinárias que conheci em Portugal. Estava em reportagem na zona de A-dos-Cunhados, mas o assunto nada tinha a ver com mar. O tema era carne, mais concretamente, o trabalho feito no Talho d’As Manas, cuja unidade de produção fica à entrada desta vila, perto de Torres Vedras. Calhou As Manas convidarem-me para almoçar e calhou que o que estava a apetecer às talhantes, depois da desmancha de um porco de raça alentejana, era peixe. “Peixe?!”, pensei. “Num almoço com talhantes?! Em A-dos-Cunhados?!”

A vila fica a nove quilómetros da costa e prova que, tantas vezes, as mesas no areal servem pior pescado do que aquelas onde se vai sem chinelo no pé. Nove quilómetros não é nada, muito menos quando o patrão é obcecado por peixe fresco de qualidade e compra só do melhor, em várias lotas do país. Lembro-me de entrar lá, pela primeira vez, e ficar vários segundos a fazer contacto ocular com um goraz, como Mickey Rourke e Kim Basinger naquela cena da água a cair (eu sei, sou velho). Como se sabe, o olho do goraz é enorme, sendo que este estava tão cristalino e translúcido que quase lhe podia ver o fígado.

Fotografia: Facebook Ave Dourada

As Manas terão intuído a química entre mim e o peixe de águas profundas e, minutos depois, eis uma travessa enorme e pornográfica com o dito, escalado a bisturi, banhado a azeite e alho cru. Já sei, escalar peixe é não-sei-quê, morte a quem escala o peixe, afogue-se quem o come. Não vou nesses dogmas. Há peixes de tamanho que justificam que se escale. Escalar pode secar mais a carne, mas se o churrasqueiro dominar bem as brasas, isso controla-se. De resto, com um peixe assado aberto ao meio temos mais superfície caramelizada, temos mais reacções de Maillard. Aplausos a isso. 

Abriu-se a refeição com camarões cozidos, grandes e de qualidade, rijos e frescos, nada desses importados da Argentina ou dos de supermercado cozidos com corante e demasiado sal. E bebeu-se do melhor, um branco da região, do produtor e especialista em agricultura regenerativa Sérgio Nicolau. A região, aliás, ganha notoriedade vínica, em particular porque é ali bem perto, no Turcifal, que está o Vale da Capucha, onde são feitos brancos salinos em regime biológico, sem máscaras, nem catrafadas de sulfitos.

No Ave Dourada, não há uma propensão para estes vinhos naturais — ou de intervenção mínima — mas ainda assim podemos lá ver preciosidades, seja neste estilo (como o vinhas velhas, branco, de António Madeira, de 2019), seja entre escolhas mais conservadoras, numa lista que envergonha várias casas reconhecidas de Lisboa e do Porto.  

Numa segunda visita, numa sexta-feira à noite, fui surpreendido com uma enchente, já passava das 21:00h. E dei por mim a pensar. Como é que este restaurante me tinha passado, a mim, que há anos frequento o Oeste, que aí vivi, que aí penei anos a fio para encontrar uma casa com uma grelha de peixe consistente? Quem escondera este tesouro? Quem são estes clientes? Será que os a-dos-cunhadenses conseguiram guardar este segredo durante sete anos, afastando assim forasteiros? Estarei a quebrar um pacto qualquer, ao escrever sobre o sítio? 

Fotografia: Facebook Ave Dourada

A espera pela mesa, nessa noite, atiçou-me o apetite e permitiu apreciar com mais tempo a montra. Desta vez, havia sardinhas tesas e retorcidas como grampos, lulas de anzol de palmo e meio com a pele intacta, ovas frescas de pescada, salmonetes e pregados que saíam como frangos de churrasco, grelhados inteiros só com uns golpes na lombo e servidos assim, em travessas de banquete gaulês. Também saíam frangos de churrasco, efectivamente, desses pequenos, com dimensão e tempero à moda da Guia. Tudo bom, a mostrar que há mão atenta no lume, com um serviço à antiga portuguesa, atento, rápido e competente e, sobretudo, uma atenção extraordinária à matéria-prima, do pescado mas também da salada, com tomate coração de boi, e das batatas, que aqui são verdadeiras, ao murro nos peixes, fritas em palitos nas carnes. 

Fotografia: Facebook Ave Dourada

Eis uma grande casa, a mostrar que o Oeste também sabe servir. Oxalá, perdure por muitos anos.

R. das Amoreiras 19, 2560-016 A dos Cunhados. Ter-Dom. Descanso ao 2º Domingo do mês. 261 981 412. geral@avedourada.com


Ricardo Dias Felner
Escritor e Jornalista

 

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