Flanar na Raia de Espanha

A experimentar

Uma das mais faladas, mas das mais recônditas e desconhecidas fronteiras de Portugal é a do Douro Internacional. Se alguns já a cruzaram por Miranda do Douro, muitos menos serão os que a passaram por Bemposta ou por Saucelle. Foi o que fizemos há dias, já na canícola deste ano, a descobrir sabores, abutres e cenários do Doutor Jivago e doutros filmes. Desde que, cerca do meio-dia em Portugal, passámos no coroamento da Barragem de Bemposta, o termómetro nunca desceu dos trinta e cinco e manteve-se, quase toda a tarde, acima dos 40°C!

O andarmos motivados no estudo e descoberta da gastronomia de fronteira, sobre que ainda há semanas apresentámos uma comunicação em Zamora que pode ser lida aqui, bem como empolgados num projecto de médio prazo para inovarmos nos vinhos e no turismo nesta zona despovoada e envelhecida – mas nem por isso sem vida! – e o querermos aproveitar estar connosco um dos nossos filhos, o que vem acrescentar uma outra perspectiva de observação e comentários, fez-nos não considerarmos o calor como um factor de desmobilização e, bem pelo contrário, assumi-lo como um dos elementos inerentes a uma verdadeira incursão de Verão a esta região tão especial de Los Arribes, em Castilla y León.

Fermoselle, uma joiazinha medieval construída com arquitectura vernacular, esculpida em granito duro, em que habita milhar e meio de almas, simpáticas para quem chega ou passa, esperava-nos no vagar da hora quente espanhola, gargalhadas ali numa esplanada à sombra da parede alta da igreja, lado a lado com uma cabina de telefone revestida de crochet colorido, cañas frescas que não se regateavam. Bebêmo-las com urgência, entrando no ar condicionado do Restaurante España. Que estava cheio justificadamente: cozinha com uma certa fusão com Portugal, duma honestidade impecável entre o que vem na carta e o que nos aparece à frente, com uma amabilidade solícita de logo nos trazerem pratos, garfos e facas para dividirmos as doses e podermos provar do que cada um pedia, foi com apetite e gosto que comemos a ensalada de nueces e rulo de cabra, os champiñones a la plancha, o solomillo de ternera a la sal maldón. É uma cozinha inteligente, regida por Mar Marcos, uma chef que ainda este ano ganhou outra vez no Tapas y Pintxos de Castilla y León, e que, com sabedoria e mão, junta simplicidade, tradição e qualidade, o tripé essencial para numa boa panela se apurarem ingredientes, temperos e sabores. Fermoselle viveu da atenção que tinha de dar ao nosso lado do rio e com o fulgor, o grande impacto de há mais de setenta anos, da construção das barragens hidroeléctricas de betão, começadas em Espanha com a de Almendra, fazendo ali fluir pesetas e escudos, criou-se a mescla que ainda hoje se prova nos pratos em que o bacalhau de cá se come com o pão de lá, os cogumelos de ambos os lados se temperam com o AOVE (aceite de oliva vírgen extra) de Fermoselle 100% manzanilla, o vinagre balsâmico de Juan Garcia (uma das castas típicas dos Arribes), uma salsa de Porto e Juan Garcia, acompanhando o solomillo, o lechal, a ternera de Aliste y Sayago, umas batatas que são fritas – de certeza! – com uma oração secreta de bênção que vem do tempo em que a Avó Pilar revirava na chapa os champiñones e esmerava na panela os callos con chorizo para os trabalhadores, os contrabandistas e as salerosas. Então como agora, os produtos vêm de perto, pratica-se intencionalmente uma política al excelente producto de kilómetro cero. A lista é variada e vasta, ficámo-nos por uma pequena amostra. E – mais inteligência! – o vinho a copo que nos serviram, Vinos de Arribes DO, crianza e joven, Aroma de Guzaire e Borbón tinto, vinham frescos, o que naquele dia os tornou superlativos! Comemos postres también, por supuesto. Fermoselle não acaba aí nem então: fomos até à Plaza Calvo Sotelo, ao Medieval, um bar e restaurante apelativo, e onde voltaremos, nessa tarde aí nos ficámos apenas por uns martinis-on-the-rocks encorajadores para a Barragem de Aldeadávila, águas e uns vinte minutos de respirar ar condicionado depois de constatarmos que toda a terra se preparava para as horas sem buliço.

A barragem de betão vimo-la do Mirador de la Presa de Aldeadávila, abutres a pairar muito perto abaixo e acima de nós, na verdade, grifos, Gyps fulvus, lindos, à nossa volta, sol a esturrar-nos as cabeças, a imaginarmos a rodagem das cenas do início e fim do Doutor Jivago, de outros filmes naquelas estradas e túneis encastoados nas falésias, trabalhos de gigantes e apocalipses que ali construíram, para o futuro misteriosos como os das pirâmides, parecendo pequena, mas tendo cento e quarenta metros de altura! Tem que se ir de propósito, não dá passagem para Portugal. Chegar lá, mesmo de carro, mesmo com a estrada bem pavimentada e sinalizada, exige perícia e denodo. Só por si é uma aventura.

A nossa tarde acabou duas horas depois em casa, tendo parado ainda no Mirador del Salto de Saucelle (vê-se em frente uma das quintas que dão douros e portos soberbos: a Quinta de Fronteira), regressando por aí a Portugal; no CintaDouro, em Freixo-de-Espada-à-Cinta, para águas, minis e compais; no Miradouro da Póvoa, no Sabor, e, finalmente, no de São Gregório, sobre a Vilariça, todos a 41 e a 42°C!!!! Em nossa casa estava fresco, 32°C, e jantámos na varanda a ver o por-do-sol vermelho intenso, bebendo um branco gelado. Conversámos sobre a tarde. É que depois de termos visto o que vimos, provado o que provámos, termos sido resistentes num sol inclemente, depois de termos estado naqueles horizontes e estradas, o Douro, a Natureza, a História, a Técnica e a Civilização do Homem, tudo nos ficou indelével e com o condão de nos fazer buscar com frenesi, na net e nos livros, mais e mais sobre a história por contar, a geografia por descobrir e todo o inenarrável de se viver um dia, uns dias ou o que seja numa das mais faladas, mas das mais recônditas e desconhecidas, fronteiras de Portugal, a do Douro Internacional, a das Arribas-Arribes. A repetir, com vontade de mais coisas novas, flanando.


Manuel Cardoso
Consultor e escritor

 

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