Perderam-se dois gestores, ganharam-se dois moleiros

A experimentar

A Moagem Carlos Valente ainda labora ao fim de mais de dois séculos. À sua frente estão dois jovens com formação universitária que abdicaram de uma carreira na gestão hoteleira e que são agora os moleiros de serviço. O pequeno negócio debate-se com novos problemas à conta da guerra na Ucrânia, como o acentuado aumento dos preços, nos cereais e não só. Esta é uma história com vários caminhos possíveis, e é difícil escolher um para o arranque. Falaremos de todos nas linhas abaixo.

Vale de Ílhavo tem fama na região de Aveiro pelo seu pão e pelo seu folar – quem mora por essas bandas e nunca provou ou ouviu falar, então o mais certo é ter chegado de Vila Real de Santo António ou da Ilha do Pico há três dias no máximo. O pão e o folar podem ser comprados em vários sítios, mas recomenda-se uma visita às velhas padeiras.

Mas o que hoje nos leva àquele lugar do concelho de Ílhavo é outra coisa: vamos à procura da Moagem Carlos Valente. A sua longevidade, que os donos fazem questão de apregoar, fez o negócio entrar no nosso radar. Os registos mais antigos, conta Helena Resende, datam de 1810, ainda os homens da Casa de Bragança se haveriam de sentar no trono português por mais cem anos.

Chegamos à Rua da Nossa Senhora do Alívio e por um portão aberto, quase ao lado da igreja da terra, vemos vários sacos empilhados. Confirmamos ao entrar que estamos no sítio certo. É no número 8, para os interessados.

Helena vem ao nosso encontro, algures do interior. Tem farinha no cabelo – vimos interromper o seu trabalho, portanto. Faz uma pausa para nos contar a história da moagem e diz-nos, enquanto vamos deambulando pelas várias divisões, que é a quinta geração da família que agora se ocupa da empresa.

Helena | DR

Helena, de 36 anos, e o marido, Mário Nunes, de 35 (natural de Alvôco das Várzeas, em Oliveira do Hospital, Coimbra), formaram-se em Gestão Hoteleira no Instituto Politécnico da Guarda. Com o diploma numa gaveta lá de casa, podiam estar a decidir quantos queijos pôr na mesa do pequeno-almoço, quem carrega a bagagem para os quartos ou os preços por noite. Seja o que for de que se ocupam os gestores hoteleiros, não é isso que este casal agora faz. E na verdade nunca fez. Chegaram a pensar em emigrar uma vez que na altura não havia muitos empregos no país na sua área de formação, mas optaram por ficar – e assim se evitou o fim de uma história de dois séculos.

A empresa de Vale de Ílhavo é uma herança do avô de Helena, Carlos Valente, que no seu tempo vendia a farinha no largo da aldeia, ali a dois passos. “Nunca pensámos em ficar com a moagem, mas como não havia quem lhe pegasse decidimos ser nós a continuar o negócio”, conta.

Devido à idade do velho moleiro, a moagem chegou a estar encerrada durante cerca de três anos. Mas foi ainda ele que passou a Helena e a Mário todos os ensinamentos sobre o funcionamento das máquinas e das mós de pedra.

O mundo da farinha não era, ainda assim, desconhecido para Helena. “Desde pequena que vinha para a moagem ajudar”, juntamente com as primas. “No entanto, todo o processo, passo a passo, só conheci totalmente quando decidimos pegar no negócio”, relata. “O avô, já com alguma dificuldade, conseguiu ensinar-nos como pôr as máquinas e as engrenagens a funcionar, como devemos picar as mós e a descobrir as características sensoriais da nossa matéria-prima, ou seja, a sentir a farinha. Começar do zero é difícil, mas tivemos um óptimo mestre”.

Quinze dias antes de reabrirem plenamente a moagem, em 2015, o casal teve um revés emocional, com a morte do avô de Helena. Mas “já estava o testemunho passado” e o projecto continuou.

Produzidas as primeiras farinhas, era necessário testá-las e o casal foi bater à porta da Padaria Ti Virgílio, na Praia de Mira, cujo antigo dono era amigo de Carlos Valente. A padaria do Ti Virgílio chamava-se Lagonense mas os netos, agora aos comandos, deram o nome do avô em homenagem. A Padaria Lagonense/Ti Virgílio apresenta-se assim no Facebook: “Até pode haver um pão mais saboroso… mas eu nunca provei”. Fica na Avenida Infante Dom Henrique, para quem quiser pôr o lema à prova.

O edifício da moagem de Vale de Ílhavo recebeu alguns melhoramentos mas os novos donos não mexeram no essencial – o processo de fabrico continua a ser feito de forma artesanal, em mó de pedra, o que, garante Helena, não é irrelevante para o resultado final.

À Rua da Nossa Senhora do Alívio chega milho, trigo barbela, trigo sarraceno ou centeio de produtores nacionais, de regiões como a Beira Baixa, o Mondego, Trás-os-Montes ou Alenquer. O trigo é francês, porque “não há produção suficiente” em Portugal. E a espelta vem da Áustria, porque “é a de melhor qualidade”. “Uma das nossas preocupações é a origem dos cereais que compramos, e acima de tudo a sua qualidade. Incentivamos os produtores locais a cultivarem cereais antigos, que foram abandonados por serem menos produtivos, e por isso de preço mais elevado”, diz a jovem mulher, salientando que fazem questão que todos os produtos que adquirem sejam livres de pesticidas e não modificados geneticamente.

Um dos problemas actuais é o preço dos cereais, que “subiu em flecha”. Helena dá um exemplo. O milho amarelo era comprado a 25 ou 26 cêntimos o quilo e custa agora 44 cêntimos. Com os preços antigos, a empresa conseguia pagar na hora, ao passo que agora tentam dividir o custo em parcelas. O preço dos combustíveis ou da electricidade também se soma ao bolo total das despesas. Tempos difíceis, admite.

Neste contexto, Helena e Mário tiveram de aumentar o preço das suas farinhas. “Tentámos não subir muito para os consumidores não porem de parte os nossos produtos”, explica ela. O facto de ser uma “farinha de qualidade” ajuda à fidelidade dos clientes. A farinha é moída em mó de pedra (ao todo são seis casais de mós que antes eram movidas a água, aproveitando as várias nascentes da zona, e agora são movidas a energia eléctrica) e não em cilindros de aço, “de forma lenta e sem aquecimento, preservando todas as suas características nutricionais e um elevado teor de fibra”.

Helena vai dando as explicações enquanto nos conduz pelo interior da moagem. Os cereais chegam e são depositados num primeiro silo onde é feita a limpeza das impurezas, como poeiras, folhas, paus e pedras. Já limpos, são elevados ao piso de cima para que caiam nas mós por gravidade. Cada mó de granito é específica para os diferentes cereais, seja pelo tipo de pedra seja para o produto que vai moer. É com o ajuste da pressão das mós que se define a calibragem da farinha, mais ou menos fina. Depois da moagem, os cereais são aspirados para uma peneira mecânica ou peneirados manualmente para separar a farinha e o farelo. Há ainda a remolha e por aí fora, até ao embalamento, que é todo feito de forma manual.

DR

Na Moagem Carlos Valente, onde actualmente trabalham quatro pessoas, apenas são produzidas farinhas T65, T80, T110 e T150. Descodificando: esta terminologia diz respeito ao grau de moagem e peneira dos grãos do cereal; quanto mais elevado for o número da farinha, maior será a quantidade de casca (farelo e sêmea) que contém, uma parte muito rica em fibra; nas farinhas de valor mais baixo, farinhas refinadas, a casca do grão é retirada após a moagem, na passagem pelos peneiros, obtendo-se por isso um produto pobre em fibras. A T150 é a de valor mais elevado, uma farinha integral de moagem mais grossa porque não lhe é retirada nem a sêmea nem o farelo – cheia de fibra, portanto. O catálogo integra também propostas mais originais como, entre outras, a Farinha de Trigo com Tok de Mar, com alga, que resulta de uma parceria com a empresa Algaplus, de Ílhavo.

Os produtos da marca, que também incluem sementes, podem ser comprados na própria moagem, no site naturalfeelings.pt ou em várias lojas com quem a empresa trabalha – falta, para alargar a rede, chegar ao Algarve e ao interior do país. As embalagens são de 500 gramas, um quilo, cinco quilos e 25 quilos.


Rui Cunha
Jornalista

 

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