Espumante Bairrada – Está-lhes no sangue!

A experimentar

O que define um bairradino? Que gente é esta que produz e bebe espumante todos os dias? Foi com estas perguntas que comecei uma viagem incrível pela Bairrada. Afinal, são já 130 anos a produzir espumante, com as últimas três décadas a certificar cada uma das garrafas que exibem “D.O. Bairrada” no rótulo. O que aconteceu na Bairrada foi algo pioneiro e extraordinário. Conseguiu reunir-se no espaço e no tempo as condições que permitiram o nascimento de uma região única, que hoje é a maior região produtora de espumante do país.

Esta história é-nos contada por António Dias Cardoso, engenheiro agrónomo, enólogo e investigador, diretor da Estação Vitivinícola da Bairrada entre 1985 e 1990, autor de vários livros técnicos e da obra “Caves da Bairrada – Elementos da sua História”. No séc. XIX, o champagne era já um vinho muito sedutor e crescia o desejo de conseguir algo semelhante em vários países. Por cá, o professor Ferreira Lapa regista que, na década de 1870, provou um espumante no Douro, da Casa Forrester, “tão bom como os melhores champagnes” (in Technologia Rural). Acredita-se que esta é a primeira referência a um espumante no nosso país e que, a par de um ou outro exemplo nos anos seguintes, não terá ido além de uma curiosidade. Em 1887, é criada a Escola Pratica de Viticultura e Pomologia da Bairrada, em Anadia, hoje Estação Vitivinícola, que viria a ser o polo das primeiras experiências de espumantização numa escala industrial, digamos. O Engenheiro Agrónomo José Maria Tavares da Silva sai da Estação Anti-Filoxera da Régua para participar no projecto desta escola. Do Douro, traz alguma teoria da arte de fazer vinho efervescente e é aqui, em Anadia, na Escola Pratica de Viticultura e Pomologia, da qual foi o primeiro diretor, que faz o seu primeiro espumante em 1890. Estava lançada a semente.

Em 1893 é criada a primeira empresa produtora de espumante na região e em Portugal, Associação Vinícola da Bairrada, cujos rótulos podem ser vistos no Museu do Vinho, em Anadia. “Champagne Portuguez” é o nome que exibem, apelando à elevação e glamour que esse tipo de vinho já então provocava. A Associação Vinícola da Bairrada junta quatro figuras importantes da região, o Conselheiro José Luciano de Castro, antigo primeiro-ministro e fundador do Partido Progressista, Justino Sampaio Alegre, um comerciante de sucesso, o Padre Mariz, que assumiu a gerência da empresa, e o desembargador Paulo Cancela. A empresa não tinha instalações próprias, tendo obtido uma autorização especial do governo para usar o espaço e equipamentos da Escola de Viticultura e Pomologia. António Dias Cardoso conta-nos que essa experiência teve altos e baixos, tendo acabado por extinguir-se. No entanto, dá origem a empresas sucessoras, sendo a mais relevante as Caves Monte Crasto, já com instalações próprias e assumida exclusivamente por Justino Sampaio Alegre. As Caves Monte Crasto foram passando pelas gerações seguintes e hoje podemos ouvir essas memórias na 4ª geração, com Pedro Alegre, produtor da Quinta do Ortigão (bisneto de Justino Sampaio Alegre).

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