O que se produzia e o que se comia numa aldeia agora sem gente

A experimentar

É difícil imaginar, senão quase impossível, especialmente para os mais novos de entre nós, o que era viver sem electricidade, sem água canalizada, sem gás, sem telefone e sem correio, coisas tão triviais como o ar que respiramos. No dia em que saiu o último habitante, o senhor Joaquim, era assim que se vivia em Drave. Foi em 1999, a uma pequena dobra do tempo de distância.

Drave é uma pequena e maravilhosa aldeia de Arouca, completamente isolada algures nos confins das serras da Freita, de São Macário e da Arada. Para lá chegar percorremos a pé o trilho PR14 – Aldeia Mágica, que parte da aldeia vizinha de Regoufe. Vizinha é como quem diz, tendo em conta que os quatro quilómetros que separam os dois lugares não são quatro quilómetros quaisquer – é um caminho de montanha com subidas e descidas, com pedras soltas em alguns troços e quase sempre sem sombra. Se pensa que é um passeio no parque, desengane-se. Mas já lá vamos.

DR

Tínhamos planeada uma visita a Drave para um sábado de manhã, em Junho. Queríamos saber mais sobre esta aldeia desabitada e a obra “Antropologia e realidade portuguesa. Drave: um passado sem futuro?”, de Claúdia C. Silva, Eugénia C. Almeida, Maria Júlia Morais e Maria Madalena Soares, foi uma preciosa ajuda. Uma pergunta formara-se na nossa cabeça: como era possível viver assim, naquele absoluto isolamento e completamente à mercê do temperamento da natureza, por vezes tão impiedoso? Quando alcançámos a aldeia e a tivemos diante dos nossos próprios olhos, essa dúvida ganhou ainda mais sentido. Um ecrã retira realidade e densidade às coisas, e quando o nosso olhar, primeiro, e os nossos pés, minutos depois, pousaram em Drave esse grande mistério adensou-se.

Contam-nos aquelas quatro autoras que o que terá atraído povos para um local tão remoto foi a existência de vários cursos de água e a fertilidade dos campos. Outra hipótese é que terá surgido como refúgio de criminosos, aproveitando a sua localização quase inacessível. Mas não se sabe ao certo. Seguro parece ser que o mais antigo documento com referência a Drave é a Inquirição dos Reguengos da Beira, no reinado de D. Dinis (1279-1325).

Naquela obra é descrito o quotidiano nos tempos antigos. Mal o sol se levantava os poucos habitantes dirigiam-se aos currais para alimentar o gado e para depois o ir pastorear para o monte. Ao fim da tarde iam-se recolher os animais – os lobos e os javalis podiam ser uma ameaça, contam. Uma vez por outra a vaca era levada à aldeia de Silveiras para ser coberta pelo touro.

A agricultura era outra ocupação, nos socalcos das encostas mais suaves. Cultivava-se milho, feijão, centeio, batata, hortícolas, videiras e ferras para os animais. A maior parte da produção, em especial nos últimos tempos em que a aldeia esteve habitada, destinava-se ao próprio consumo, já que o isolamento tornava difícil o seu escoamento para as feiras.

O centeio e o milho eram os mais cultivados e destinavam-se ao fabrico do pão – eram moídos no moinho local quando o rio tinha água; quando a água secava, era necessário recorrer a uma aldeia vizinha. O folhedo e a palha do centeio serviam para a alimentação e cama das vacas; o feijão, a batata, as hortícolas e os vinhos eram consumidos em casa; o leite era para os vitelos. Diz-nos o livro que as casas de habitação dispunham de vários anexos de apoio à agricultura, como palheiros, currais, espigueiros e azenhas.

As vinhas também eram importantes para a vida na aldeia, sendo as videiras tintas mais numerosas do que as brancas. As vindimas faziam-se no final de Setembro ou início de Outubro. Depois de apanhadas, as uvas eram colocadas no lagar e pisadas com os pés.

Na aldeia também se cozia pão, com farinha de milho geralmente moída no moinho local, à qual se juntava uma pequena quantidade de farinha de centeio; o fermento era um pedaço de massa que sobrava da cozedura anterior e que se deixava azedar. A farinha era posta numa masseira e no centro fazia-se uma pequena cavidade para onde se atiravam alguns grãos de sal. Acrescentava-se água, mexendo com uma espátula da madeira. No final desta e de outras operações da bela alquimia de fazer nascer um pão, polvilhava-se com farinha e fazia-se uma cruz na massa e outras no ar enquanto se rezava o Pai-Nosso. No centro da cruz eram colocados três pedaços de pau de loureiro ou uma cebola, pois acreditava-se que era uma forma de levedar melhor. Fechava-se a tampa da masseira pelo menos por duas horas e depois o forno fazia o resto, em mais três horas. A porta do forno, contam, era fechada e vedada com bosta de vaca para impedir a entrada do ar. Dizem-nos ainda aquelas quatro estudiosas que a apicultura era outra actividade praticada, sendo a produção de mel sobretudo para consumo doméstico.

Por Drave passou pois um povo que foi agricultor, pastor e mineiro (havia minas em Regoufe). Mas com o declínio das minas, entretanto desactivadas e que hoje não passam de um complexo em ruínas, o lugar foi-se esvaziando. Até não sobrar ninguém.

Munidos desta informação, demos corda aos sapatos. Pois bem, chegar a Drave pelo PR14 não é pera doce. Não é preciso ser-se um atleta olímpico ou uma daquelas pessoas que vão ao ginásio todo o santo dia, mas convém ter alguma preparação física. É que nos quatro quilómetros que a separam de Regoufe temos de vencer declives, firmar bem os pés no chão para não sermos atraiçoados pelas pedras soltas que existem em certos troços e aguentar o calor, que em Arouca pode ser inclemente no Verão – e com excepção da etapa final, não há árvores no caminho que providenciem uma sombra amiga. Assim, conte com uns litros de suor perdidos e por isso vá bem abastecido de água.

Após uma curva, eis então a aldeia já ao alcance do nosso olhar. Aproximamo-nos passo a passo e finalmente chegamos, ao fim de uma hora e tal desde que deixámos Regoufe para trás. Queríamos muito conhecer Drave e à chegada, a 600 metros de altitude, percebemos que nada tinha sido em vão – aquele pequeno pedaço de um Portugal perdido merece mesmo uma visita. É um símbolo de um país que, para o bem ou para o mal, já não existe. É um sítio encantado. Faça-se ao caminho, se puder.

Pomos pelas costas as casas de pedra lousinha com cobertura de xisto (que os escuteiros tratam de cuidar e preservar, num projecto muito louvável) e regressamos a Regoufe, o nosso ponto de partida. Procuramos um local para comer e beber, que o corpo e a alma reclamam atenções. Em Regoufe existem, lado a lado, o Café Montanha e o Restaurante O Mineiro. Dirigimo-nos ao primeiro, onde a rapariga ao balcão me fez ganhar ainda mais o dia. Insuflou-me o ego com belas palavras que jamais esquecerei: “Já foi a Drave? Nem parece. As pessoas costumam chegar muito mais vermelhas”. Não faltou tudo para a pedir em casamento.

DR


Rui Cunha
Jornalista

 

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