Um Leitão em Amarante

A experimentar

Crítica de Restaurantes

Adega Regional Filhos de Moura

Há um moradia, algures entre o Porto e Trás-os-Montes, que serve leitão bísaro, como deve ser. Uma raridade, diz o crítico Ricardo Dias Felner.

Quando meti a primeira costela à boca, fiz as pazes com o leitão: a pele espelhada, estaladiça e grossa, por baixo uma camada fina de gordura, depois a febra leitosa colada aos ossinhos. Oh, maravilha! O leitão da Bairrada vive! Em Amarante!!

DR

As minhas últimas experiências tinham sido um desconsolo: animais grandes, enjoativos, mal-assados. A verdade é esta: com o aumento da procura, os leitões tornaram-se bácoros crescidos e indistintos, assados sem zelo. As grandes fábricas, na Mealhada ou no Montijo, vendem o que houver — incluindo animais importados do Leste em arcas congeladoras, com 8, 9 e 10 quilos, que já não se lembram do que é leite materno. 

Sucede que, de viagem ao Norte, os Filhos de Moura surgiram em quase todas as conversas com autóctones. Sempre que perguntava por bons restaurantes entre o Minho e Trás-os-Montes, alguém apontava “um pequeno restaurante só de leitão bísaro, para os lados de Amarante”. Ora, o bísaro é a raça que a Confraria Gastronómica do Leitão da Bairrada prefere e a tradição prescreve. É mais comprido (com mais costela) do que a maioria das raças e tem a dose certa de gordura, por altura do desmame. 

A questão é que é difícil de o encontrar, por estes dias, mesmo no habitat natural do leitão da Bairrada. 

Com este isco, fiz-me à estrada bem cedo. Saí da A4, contornei Amarante e segui serra acima. No caminho, pequenas aldeias embutidas entre parreiras esguias e altas como postes, que já cá andavam antes de eu nascer. Continuando caminho, haveria de passar em Moreira do Castelo, povoação mimosa, e depois cheguei ao café-mercearia Moreira. Mercearias de aldeia em Trás-os-Montes têm sempre coisas boas. Aqui, encontrei chouriças caseiras e entremeada curada do Freixieiro, ambas excelentes, mas também ovos caseiros avulso. 

Mas voltemos ao almoço. A Adega Regional Filhos de Moura fica à beira da estrada, a meia-dúzia de quilómetros daí, numa pequena moradia familiar, em Aboim.  

DR

Lá dentro, duas salas bem postas sem a dimensão dos pavilhões a que nos habituámos noutras latitudes. Pelas 12:00, já saíam as primeiras entradas. Coisas simples: salpicão e chouriça e um objecto não identificado, com o formato de um charuto, sem pele, frito e com carne moída. O empregado chamou-lhe “alheira de leitão”, mas soou a blasfémia. Era antes uma “crolheira”: misto de croquete e alheira, que alheira tem pele e deve ser grelhada. Nos vinhos, encaminharam-me para um refresco feito pelos irmãos Moura, um “verde da casa”. “As pessoas gostam muito”, mas a mim pareceu-me demasiado doce e efervescente.

O leitão não demorou, travessa (meia-dose, 12€) com cinco pedaços em quadriculado bem definido, qual abdominal de Ronaldo. Veio acompanhado de saladinha de alface e cebola nova, fresca e espevitada por um vinagre com carácter adegueiro e notas de verniz (volátil). E logo chegou também um pratinho de laranja fatiada, dulcíssima; e as batatas, tipo pála-pála, translúcidas e de fritura doméstica.

DR

Já no final da refeição, o próprio anfitrião aproximou-se, porventura curioso com tanta fotografia num restaurante pouco instagramável. Perguntei-lhe sobre a origem do leitão. Vítor Moura, um dos filhos de Moura, afirmou ter produção própria mas admitiu que não chega. “Compro a mais uns 30 fornecedores aqui de Trás-os-Montes”. E são todos bísaros?, repliquei. “Procuro que sejam. Mas nem sempre é fácil avaliar o grau de pureza. O bísaro já cá anda há muito tempo, já teve muitos cruzamentos”, respondeu. Certo é que Vítor só aceita animais de leite, com cerca de dois meses de idade, e que fiquem com perto de 4 quilos, depois de assados. 

Uma das particularidades deste leitão é ter notas a fumo, junto às costelas. Primeiro, vem a vinha d’alhos, mas se chuparmos as costelas (altamente aconselhável), é como se mordêssemos uma chouriça. De resto, os fornos são aquecidos a lenha, com combustão separada, ou seja, sem passagem de fumos. Ainda assim, Vítor acha que a madeira influi no resultado final. “Já usei dos outros e, não sei bem porquê, mas nota-se uma diferença”. 

A terminar, as duas sobremesas mais populares são o pudim de Abade de Priscos e um pão-de-ló caseiro.

DR

Por 25 euros, faz-se a festa nestes Filhos de Moura. E que grande festa. A Bairrada que se cuide.

Rua de São Pedro Nº 575 – Aboim (Amarante). 96 968 3779 / 255 440 492. Ter-Sáb 10.00-15.30, 19.30-22.30, Dom 10.00-15.30.


Ricardo Dias Felner
Escritor e Jornalista

 

Partilhe este texto:

Últimas