Arroz de Salreu, uma história de resistência

A experimentar

Até os urbanos mais empedernidos sabem que todas as coisas da natureza têm um princípio e que por isso o arroz que compram no supermercado de algum lado há-de ter vindo. E ali estamos nós – nós, um grupo de curiosos sobre a produção de arroz – nos campos de Salreu a assistir, e nalguns casos mesmo a participar, com quase metade do corpo de molho, a uma sementeira deste cereal que, haja imaginação e engenho, usamos para tudo e mais alguma coisa.

Como o arroz, esta história tem um princípio. Desde tempos imemoriais, mais coisa menos coisa, este cereal é cultivado em Salreu e na vizinha Canelas, em Estarreja, lugares de abundantes e férteis terrenos agrícolas no chamado Baixo Vouga Lagunar.

Nos tempos de ouro, os produtores iam a Veiros, à Murtosa ou à Branca, para quem não sabe terras por ali à volta, buscar a mão-de-obra de que precisavam. Ainda há quem se lembre de ver chegar mulheres a pé ou, no caso de locais mais distantes, transportadas a expensas dos donos dos terrenos.

Acontece que não é de ciência exacta que estamos a falar. Estas coisas são incertas e uma produção que era generosa deixou de o ser. Diz quem sabe que a forte industrialização de Estarreja e a emigração roubaram trabalhadores aos arrozais e a actividade foi definhando. Até morrer. E até ressuscitar, que é o que timidamente está a acontecer agora.

O convite para a sementeira foi feito pelo BioRia, um projecto ambiental da Câmara, e pela Junta de Freguesia de Salreu. Perguntamos ao seu presidente se algum produtor estará presente. “Agora o produtor é a Junta”, responde Manuel Mendes.

Sem ela não haveria agora arroz de Salreu. Durante cinco anos a produção parou mesmo. E antes disso, em vários dos anos anteriores, só um agricultor se dedicou à actividade, uma morte lenta que parecia sem solução à vista. Mas tratando-se de uma prática ancestral que faz a identidade local, a autarquia decidiu agir antes que fosse ministrada a extrema unção.

Foi assim que desafiou agricultores locais para se juntarem a um projecto cujo nome diz tudo: “recuperação do cultivo do arroz de Salreu”. À chamada responderam três orizicultores, que se ocupam de dez hectares de arrozais. Os gloriosos dias do arroz de Salreu ainda não estão de volta. “Há 30 ou 40 anos todo este território era cultivado”, diz com um gesto que abarca todo aquele território quase a perder de vista. Mas dez hectares é melhor do que zero. É um começo, para já com objectivos modestos. “Se fizermos três toneladas por hectare já nos damos por satisfeitos”, admite, acreditando que aquele ariete tem procura, na região e não só, como acontecia dantes.

A verdade é que muita coisa parece jogar contra Salreu. O trabalho, nas suas várias fases, é exigente fisicamente, afastando quem não queira ocupações duras, e os custos muitas vezes não compensam os ganhos, sobretudo a uma pequena escala como esta. Para ajudar à festa, um dos três produtores sofreu um AVC em pleno cultivo e duas máquinas avariaram. As aves, abundantes no Baixo Vouga Lagunar, também entram na equação porque vêem nos arrozais uma fonte de alimento. Os obstáculos não são poucos, conclui Manuel Almeida.

Mas as coisas são o que são e esta luta sem tréguas pela sobrevivência requer perseverança. A sementeira comunitária que o BioRia e a Junta de Freguesia organizaram teve fins pedagógicos mas serviu também para dar visibilidade ao projecto.

Aquele sábado despontara com nevoeiro cerrado que rapidamente deu lugar a sol e calor – se alguém ia preparado para usar a desculpa do tempo para não mergulhar na terra alagadiça acabara de perder o trunfo. Para mais a água não estava fria, garantia alguém.

Nos dias anteriores os participantes receberam nos emails uma série de recomendações como que a lembrar que não iam para um piquenique bucólico num prado de relva fofa e seca. O ideal mesmo, assumia a organização, era vestir calções ou calças largas que dessem para dobrar e levar nos pés galochas ou calçado velho. Uma sementeira de arroz é feita num “terreno com água e lama” e quem se atreve a prescindir da comodidade da margem não pode esperar sair imaculado e pronto para um almoço de sábado em família. Para o caso de ainda não termos percebido bem onde nos íamos meter, no email era acrescentado um conselho final: “trazer uma muda de roupa”. Entendido.

Participantes de galochas só apareceu um – aos restantes que se quiseram aventurar foi fornecido calçado apropriado. As 9.30 foi a hora do encontro junto ao Centro de Interpretação Ambiental de Salreu, no esteiro da freguesia, de onde partimos para uma curta caminhada de 300 metros até ao terreno que ia ser cultivado naquele dia.

Dois funcionários da Junta carregaram ao ombro grandes sacos com as sementes para o campo e depois colocaram-nas em baldes ou cestos, que cada semeador levaria depois para o arrozal. Outros trabalhadores limpavam a água de plantas e ervas, com recurso a grandes ancinhos, tarefa fundamental no processo da sementeira. Imperava a boa-disposição e o mais animado era um dos homens da Junta, que ia largando piadas enquanto fumava o seu cigarro. “Não posso levar o telemóvel se não é mais um que fica afogado”, ouve-se deste homem de calções curtos e descalço para andar “mais à-vontade” no terreno alagado para onde estava prestes a entrar.

Foi ele o primeiro a lançar as sementes à água, que nas zonas mais fundas lhe dava quase pela cintura, enquanto os restantes olhavam da margem. Avançou umas dezenas de metros e no regresso pediu corajosos que o acompanhassem, e foi bem-sucedido no apelo – nem todos se aventuraram mas alguns decidiram que se era para passar uma manhã diferente então mais valia experimentar o pacote completo.

Foi de facto uma manhã diferente promovida por quem tenta salvar o ariete de Salreu da agonia em que se encontra. Não será uma empreitada fácil e pode até fracassar – saberemos no futuro. Mas os primeiros passos já foram dados e com tropeções pelo meio o caminho está a ser feito.


Rui Cunha
Jornalista

 

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