Musubu Café

A experimentar

O casal luso-nipónico mais gastronómico do Porto está de volta. Ricardo Dias Felner foi descobri-los num pátio idílico em Cedofeita.

As lojas do Porto são as melhores e as mais complexas do país. Ao passearmos entre Cedofeita e a Rua do Rosário encontramos boutiques (podemos dizer “boutiques”?) que são galerias, e galerias que são boutiques, e boutiques que são ateliês, e ateliês que são livrarias, e livrarias que são lojas de vinis — e tudo isto ao mesmo tempo.

Em algumas, a ideia parece não ser vender, mas criar uma obra artística, um sítio bonito onde por acaso se expõem camisas de lã orgânica, sapatos de artesão e discos da Motown. O espaço é a atracção. Existe para entrarmos lá e suspirarmos e sairmos. 

No interior, costuma pairar uma serenidade de casa de campo, talvez um piano de Keith Jarret em fundo, e se olharmos com atenção podemos ver a anfitriã, muitas vezes sentada fruindo o seu lugar, tirando por segundos os olhos do Foucault para um sorriso de boas-vindas.

As anfitriãs das lojas de Cedofeita não se impõem, assim se quedam, sem perguntarem se precisamos de ajuda. Na verdade, frequentemente pouco podem ajudar, porque as lojas-ateliês-tudo do Porto, sendo as melhores, também são as mais caras. Há t-shirts a custar 120€ que nos deixam a pensar se estaremos perante uma peça usada por Steve Jobs. 

A Coração Alecrim é uma loja assim, das primeiras da cidade. Mas tem mais ainda. Depois da secção de plantas, dos panos de linho e da cerâmica de autor — lá bem nas traseiras — encontramos um pátio florido com uma cozinha acoplada. É aí que oficia desde Fevereiro o casal luso-nipónico Miguel e Sako, um duo de artistas também eles híbridos.

Musubu Café | DR

Miguel nasceu em Ramalde, estudou planeamento urbano em Aveiro e viveu em Londres. Foi aí que conheceu Sako, japonesa de Tóquio, professora primária, que estudava escultura enquanto ele estudava design. 

Ambos têm um entendimento próprio da estética e da cozinha. Quando os conheci, serviam numa lojinha das Galerias Lumière, hoje um shopping em vias de extinção. Depois disso, ainda abriram o Namban, na Rua dos Bragas. Eu ia atrás do seu artesanato fino e hortícola e de uma ideia de despojamento belo. Muitas vezes, a comida demorava a chegar, mas entretinha-me com a performance e os acessórios e a deslindar os sabores por trás da poesia. 

Musubu Café | DR

Desta vez não foi diferente. No chão, a mesma ardósia cheia de palavras bonitas. Veja-se isto. “Salada de batatas novas, favas, sauerkraut caseira de couve roxa, vinagraitte de soja, alho e sultanas”. Como um poema naturalista, o prato tem uma polissemia intricada, um fim desconhecido. Mas na sua economia, no adjetivo curto, no mundo e na viagem que convoca, o nome já é sabor e fruição. Quando eu leio isto, eu já estou a comer. 

Salada | DR

Mais: “Kakuni de barriga de porco em caldo doce de soja”. Podemos não saber o que é um kakuni, mas queremos logo um kakuni. E por fim: “Bolo de chocolate negro e gengibre, slush de pêra rocha e sake”. Slush de pêra rocha? Sake? Chocolate e gengibre? Tudo junto? Como? Que raio. Quero e quero. Mesmo que custe 8,5€. Quanto vale um poema em forma de sobremesa? 

Kakuni de barriga de porco | DR

Depois ainda há sempre os omosubi. Omosubi são bolas de arroz japonesas, envoltas em alga nori e recheios vários. Há omosubi clássicos, como o de umeboshi, a ameixa salgada e fermentada. E depois os do dia, como o de atum, folhas de rabanete e miso hatcho

“Fazemos tudo nós”, há-de explicar Miguel, solene e altivo, peça de arte ambulante, manequim dos seus próprios colares e chapéus. Quando trincamos o omosubi, temos arroz carolino e colante do Sado, uma doçura suave, e a alga nori salgada, seca e estaladiça como poucas. “Compramos das premium, importadas do Japão”. Acredito.

Há ainda infusões e um ginger ale caseiros, mas tudo pode mudar de um dia para o outro. Uma das características do Musuko é que nunca se pode dar nada por garantido, incluindo a reserva: só pode ser feita no próprio dia, por telefone, sendo que o restaurantes só abre aos almoços e de quinta a sábado. Outra marca é que a cozinha tem um timing próprio e lento, porque é tudo esculpido pelas mãos de Sako, ao momento. 

Musubu Café | DR

Com poucas semanas, parece-me que restam afinações por fazer. É também certo que o conceito é baseado nas plantas (sem ortodoxia) e que há uma delicadeza nipónica que pode ser confundida com insipidez, sobretudo pela comunidade tuga habituada à molhanga puxadinha (à excepção do umeboshi, salgado demais, desta vez). Ainda assim, não encontro outra cozinha igual.

Miguel e Sako são já um casal mitológico da gastronomia do Porto. Há uns anos revolucionaram a cozinha de centro comercial. Agora, conseguiram a proeza de sofisticarem a ideia portuense de concept store. E isso é obra. Longa vida.

Coração Alecrim, Tv. de Cedofeita 28, Porto. 28. 91 398 0790. Qui-Sáb 11.00-16.00.


Ricardo Dias Felner
Escritor e Jornalista

 

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