“O vedante alternativo à cortiça é a cortiça!” Entrevista

A experimentar

Entrevista a António Rios Amorim

por José João Santos

António Rios Amorim lidera a Corticeira Amorim, que tem ajudado a reinventar. Hoje está fisicamente presente em mais de 30 países, sendo no exterior que garante 75% das vendas anuais. Por dia, nas instalações de Mozelos, são transformadas 26 milhões de rolhas, 5,8 mil milhões em 2021.
Nesta entrevista à Revista de Vinhos, António Rios Amorim garante que o vedante alternativo à cortiça é a própria cortiça, sublinha que já foram investidos mais de 200 milhões de euros em investigação, tecnologia e novos produtos por causa dos problemas de TCA nas rolhas, insiste na importância de internacionalizar as empresas portuguesas e apela ao novo Governo que promova maior crescimento económico, classificando de “medíocre” os índices apresentados pelo País nessa matéria nos últimos 20 anos. Por isso deixa uma mensagem clara ao novo Executivo: “Apostar no crescimento económico tem que ser um desígnio”.
A inflação, a crise das matérias-primas e o aumento dos custos da energia são outros temas abordados pelo Presidente e CEO da corticeira líder mundial, grupo cujo historial soma já 150 anos.

Ao longo dos anos muitos criticaram um certo adormecimento da indústria da cortiça, sobretudo relacionada com os problemas de TCA. Consegue quantificar o investimento que a Amorim empreendeu nos últimos anos para melhorar a qualidade das rolhas disponíveis?
Consigo. Começamos algures pelos anos 2000, em que tivemos uma década de investimento profundo, de muito trabalho de casa, de perceber o fenómeno, as soluções, como conseguiríamos ultrapassar este problema, que era nosso e que tínhamos obrigação de resolver. Conseguimos resolver isso muito com recursos internos, trazendo competências de investigação do exterior, do mundo académico para dentro da nossa empresa, articulando essas competências com centros de investigação fora do grupo, em Portugal e também laboratórios espalhados pelo mundo. Penso que, finalmente, conseguimos superar essa debilidade que já tardava a ser ultrapassada, com muito trabalho e um investimento que deve estar a rondar os 200 milhões de euros só na Amorim, desde 2000 até hoje.

Quem exigiu o avanço tecnológico que hoje assistimos na Amorim. A indústria do vinho ou a competitividade da própria indústria corticeira?
Há uma mudança geracional que estava mais sensível a colher os argumentos expostos pela indústria vitivinícola. E há também um fenómeno exógeno, na medida em que a indústria da cortiça foi ameaçada por produtos alternativos. Portanto, não foi um sinal de visão estratégica ou de muita inteligência, tínhamos que lutar pela sobrevivência da rolha de cortiça e a única forma que tínhamos passava por dar mais fiabilidade e confiabilidade às rolhas de cortiça e até desenvolver novos produtos, novas tecnologias, para que pudéssemos responder às exigências do mercado, não só nos vinhos mais icónicos mas em todas as gamas de produto.

Volvidos estes anos, o produtor de vinho está mais exigente com as rolhas de cortiça ou continua quase exclusivamente a pensar no preço de cada rolha?
O fator qualidade é determinante. Todos nós temos que perceber a responsabilidade quando um produtor de vinho nos confia aquilo que tanto trabalho, tanta paixão e dedicação levou a desenvolver. A questão do preço é sempre relevante, mas hoje temos uma segmentação que permite diferentes tipologias de produtos para diferentes tipos de vinho, conseguimos ter um espetro de produtos que vai dos 0,04€ aos 5,00€ por rolha.

Recentemente, a Amorim trouxe para o mercado dois novos produtos: Naturity e Xpür. O que aportam de novo?
Resultam de um compromisso assumido em 2018, quando dissemos que em 2021 teríamos que ter todas as rolhas com garantia de performance. Em 2019 e 2020 investimos fortemente para corporizar esse compromisso com o mercado. Nessa sequência surge o Naturity, que resulta de um trabalho de I&D das nossas equipas e da Universidade Nova de Lisboa durante vários anos. Conseguimos dar escala a essa operação para cobrir a totalidade das rolhas naturais que colocamos no mercado. Xpür é uma tecnologia que fizemos evoluir e que consegue tratar capazmente os granulados de cortiça, mas de uma forma ambientalmente mais responsável e eficiente, o que permite fazer um upgrade a uma gama de produtos de rolhas microgranuladas.

“No mundo do vinho, a cortiça é o incumbente”

Virou o foco da indústria para si quando, há um par de anos, anunciou a eliminação do TCA nas rolhas da Amorim. Se fosse hoje teria feito o anúncio da mesma forma?
Teria. Esse anúncio foi um compromisso que estabelecemos com o mercado. Esse compromisso traduziu-se numa aceleração completamente diferente, num investimento muito mais consequente, para conseguirmos cumprir esse compromisso. Teve um efeito interno de aceleração, de busca de soluções de forma a não perdermos a cara face ao tínhamos dito.

Uma indústria que é líder fica sempre sujeita a concentrar maior número comentários, por vezes menos positivos. Sente isso a nível internacional?
No mundo do vinho, a cortiça é o incumbente. Todos os outros vedantes vêm desafiar o lugar próprio que a cortiça tem, por mérito próprio, ao longo de muitos anos. Quando nos sentimos inicialmente ameaçados, isso motivou um tomar de lado por alguns críticos e alguns produtores, o que aqueceu o debate. Mas isso tem 15 ou 20 anos. Mais recentemente, assistimos a uma conversão desses principais críticos com a cortiça, que hoje estão muito mais confortáveis com a cortiça, também pela evolução que a própria indústria tem vindo a fazer. Aquilo que é uma guerra comercial vai sempre existir e a cortiça vai sempre conviver com a concorrência de produtos alternativos. Os plásticos são um corrente claramente em perda no mercado, que há 20 anos vendiam praticamente zero, que chegaram a vender 4 biliões de rolhas e hoje talvez não façam 1 bilião, 1 bilião e 200 milhões. Ou seja, estão em perda. Quando essas rolhas foram suportadas por alguns da indústria da cortiça, que as começaram a distribuir, e por alguns críticos, obviamente tivemos que ter uma reação alérgica porque vinham rivalizar com a cortiça. Vinte anos depois, o mercado deu-nos razão, claramente esse não era o vedante alternativo à cortiça. O vedante alternativo à cortiça é a cortiça! Essa é a conclusão depois de tantos anos de rivalidade. A cápsula de alumínio tem uma presença no mercado que se mantém, não tem perdido relevância mas também não tem ganho quota de mercado, por uma questão de conveniência mais do que por uma questão de performance ou sustentabilidade.

A Amorim tem investido em novas áreas de montado. Que balanço faz desses mais recentes investimentos e o que poderemos esperar no curto e médio prazos?
A Amorim acredita que o mercado para produtos de cortiça é muito promissor. No vinho conseguimos debelar algumas dificuldades técnicas e vamos conseguir afirmação por competência e por termos ultrapassado aquilo que muitas vezes fazia com que os produtores escolhessem produtos alternativos. Temos claramente um vedante mais sustentável, mais natural, com uma pegada de carbono negativa. Portanto, se a sustentabilidade é para levar a sério por toda a indústria vitivinícola a nível mundial, seguramente que a rolha de cortiça terá preferência face aos vedantes sintéticos ou de alumínio. E há também uma imagem premim associada à cortiça que não existe com os outros vedantes. Depois, temos um conjunto de novas aplicações, fora do vinho, que também garantirá um crescimento grande. Como isto só se faz com cortiça, temos que trabalhar para que daqui a alguns anos possamos suportar o crescimento expectável. Estamos neste momento a operar um trabalho de I&D sobre o sobreiro para percebermos todas as características, o que lhe marca o crescimento, como ter um sobreiro mais resistente a pragas e a alterações climáticas. Para tentar plantar árvores que possam ter um crescimento mais rápido, viabilizado com sistema de rega gota a gota, com uma densidade maior por hectare. No nosso Alentejo temos hoje 50 ou 60 árvores em média por hectare, com este novo sistema conseguimos plantar 350 a 400 árvores, o que significa que teremos uma aceleração e antecipação da colheita inicial da cortiça, dos 25 ou 30 anos para os 10 ou 15 anos. Fruto dessa maior densidade teremos maior produtividade destas florestas. Hoje, mais de 90% da floresta é de conservação, de geração espontânea. Queremos completar isso com 7 a 8% de área adicional, com uma floresta de produção, capaz de produzir mais cortiça numa área mais pequena, capaz de contribuir para a captação de CO2, de forma a ajudar o País a atingir as metas de neutralidade carbónica antes do exigido.

“Só conseguimos dar o salto quando conseguimos ter presença física nos principais mercados do mundo”

Em 2021, as vendas da Corticeira Amorim foram de 837 milhões de euros, valor muito próximo do total das exportações de vinhos portugueses no mesmo ano (925 milhões). Que leitura lhe merece este comparativo?
Nem todas essas vendas da Corticeira Amorim correspondem a exportações, uma vez que vendemos sobretudo para filiais nossas e há toda a margem de distribuição que é feita no exterior e não em Portugal. A cortiça é um setor líder mundial, que tem um comportamento global. No vinho, Portugal tem que rivalizar com países bem mais representativos. Na cortiça houve uma grande ambição por parte das gerações anteriores. Essa ambição reconverteu o setor, deixando de apenas produzir matéria-prima para ser trabalhada e transformada em países como Espanha, Itália, França, Suíça, Alemanha ou EUA, para trazer essa indústria para Portugal, permitindo o valor acrescentado de transformar a cortiça. Hoje, a Amorim tem mais de 50 empresas fora de Portugal, estamos presentes em quase 30 países e 75% das nossas vendas são conduzidas através da nossa rede de distribuição no mundo. Isso é muito importante. Para se vender nos EUA não se pode ir lá, tem-se que estar lá. As nossas equipas comerciais não estão em Portugal, estão sediadas nos principais mercados de consumo de mundo. Isso faz com que a Amorim nos EUA seja local, que na China seja local, que em Bordéus seja local, que na Austrália seja local. Faz toda a diferença. Culturalmente somos locais, do ponto de vista de presença física prestamos o serviço que o mercado precisa, o que transformou a Amorim. Uma coisa é exportar, é por aí que tudo se começa, mas só conseguimos dar o salto quando conseguimos ter presença física nos principais mercados do mundo. Sei que na indústria do vinho há poucas empresas com a dimensão e escala suficiente em Portugal para se internacionalizarem, mas isso é um passo que por via de associação ou qualquer outra junção de interesses – os Douro Boys são um exemplo excelente – ainda falta dar. O comportamento e o desempenho do vinho português nos últimos anos só nos pode orgulhar, nunca se falou tanto e tão bem dos nossos vinhos.

“Este crescimento medíocre dos últimos 20 anos tem claramente que ser superado”

Vivemos um contexto de incertezas.  Ainda há pandemia, começou um conflito armado na Europa que pode sofrer uma escalada mundial, o custo das matérias-primas disparou, a energia está cada vez mais cara… Como está a encarar tudo isto?
Com preocupação, como é óbvio, mas sabendo que a incerteza é algo com que os empresários têm de viver. Depois da pandemia, este confronto pode ter consequências bastante nefastas. Mas teremos que ter capacidade de nos adaptar. Primeiro, são mercados que tínhamos e que diretamente se perdem. Segundo, os clientes que tínhamos e que vendiam para esses mercados vão motivar a perda de volume de vendas, vamos ter que recuperar noutras zonas geográficas. A mensagem que deixo, como empresário, é que teremos que ter as nossas empresas mais do que nunca preparadas para a incerteza, essa sim, a única coisa certa. Capacidade de adaptação, diversificação de riscos, ter a capacidade de projetos e portas abertas noutra zonas que permitam compensar as perdas, são obrigatórios. Quanto à crise energética teremos que sobreviver e superá-la. Por aquilo que as renováveis representam no nosso mercado, Portugal tem capacidade para conseguir ultrapassar tudo isto. Mas há muitos processos de natureza burocrática que têm que ser ultrapassados. Pode haver respostas muito mais céleres para minimizar os impactos da crise energética. Não tenho dúvidas que a União Europeia sairá desta crise com uma maior independência energética, mas serão necessários anos.

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