Ortorexia nervosa: Quando a alimentação saudável se torna uma obsessão

A experimentar

Ana Rita Faria

Durante a maior parte da minha vida, não sabia o que era comer da forma dita “saudável”. Quando comecei a interessar-me pelo tema — que mais tarde me levaria a tirar o curso de health coach — percebi que tinha andado a fazer tudo “mal”. Senti-me a despertar de uma vida de enganos e equívocos, mas agora era hora de uma nova era: depois de anos a comer “porcaria”, agora iria comer saudável, comida limpa, comida boa.

Felizmente, esta triste convicção durou pouco tempo, porque rapidamente percebi que comer é um dos prazeres da minha vida, e que não queria deixar de o ter. No curso de health coaching acabei por perceber muito mais, nomeadamente que ter uma alimentação saudável não significa viver a contar calorias, renunciar para sempre aos doces ou fugir a sete pés de tudo o que são alimentos altamente processados. E percebi também que a forma como comemos é apenas uma pequena parcela da equação de uma vida saudável.

Por que é que estou a contar tudo isto? Porque há uma pressão cada vez maior para comermos de forma saudável. Mas isso não é bom? Sim e não. Para muitas pessoas, pode ser um incentivo para melhorarem os seus hábitos alimentares. Mas, para outras, gera uma obsessão que se pode tornar perigosa, e que até merece as honras de designação oficial: ortorexia nervosa.

Este conceito — que deriva do grego ortho (correcto) e orexis (apetite, desejo) — foi descrito pela primeira vez pelo médico norte-americano Steven Bratman, em 1997. O autor do livro Health Food Junkies (“Viciados em Comida Saudável”) usou essa expressão para caracterizar doentes com obsessão por uma alimentação saudável. Embora ainda não seja oficialmente reconhecida como uma doença do comportamento alimentar (como a bulimia ou a anorexia, por exemplo), apresenta várias características que a empurram para esse espectro.

Regra geral, na ortorexia nervosa, há uma preocupação excessiva com a qualidade e a pureza dos alimentos — o chamado “clean eating” (“comida limpa”) — que vai levando a restrições alimentares cada vez mais excessivas. Isto acaba por conduzir à eliminação de vários alimentos ou grupos alimentares que são vistos como “maus” ou “impuros”, o que pode gerar deficiências nutricionais e, consequentemente, ter um impacto negativo na saúde.

Poderia dar um exemplo fictício, mas vou falar-vos no meu caso: Quando meti o “chip” saudável, comecei a comer muito mais vegetais, cortei no açúcar e nas gorduras saturadas, evitei alimentos processados, troquei os cereais refinados por cereais integrais, e deixei de beber os poucos refrigerantes que ainda bebia. Até aqui, tudo óptimo, afinal, estes são os princípios de uma alimentação mais saudável. O problema é que as regras que me auto-impunha foram ficando cada vez mais radicais: primeiro, decidi eliminar o glúten, depois os lacticínios. Mais tarde, quis pôr de lado a carne e o peixe, não por questões éticas (sou sincera), mas sim porque via em todo o lado que a dieta vegetariana era mais saudável.

Felizmente, nunca fui demasiado radical em nenhuma das minhas empreitadas, porque continuava a dar as umas “facadinhas” fora de casa, mas muitas vezes sentia-me culpada por isso. Não tive ortorexia nervosa, mas para lá caminharia certamente. Isto já foi há bastante tempo, e na altura nem sabia o que isso era. Mas a realidade é que, hoje em dia, consigo identificar este quadro à minha volta. Infelizmente, em mais pessoas do que gostaria.

Identificar os sinais de alerta

Como podemos saber se estamos com ortorexia ou se alguém que conhecemos está? Como não é reconhecida ainda como uma doença, não há critérios de diagnóstico oficialmente estabelecidos. Mas há vários sinais de alerta:

  • Evita comer alimentos ou grupos alimentares que considera “maus” ou “impuros”? Tem regras rígidas e inflexíveis em termos alimentares?
  • A comida é a sua primeira preocupação, e gera stress ou ansiedade?
  • Sente que a sua imagem corporal e a sua auto-estima dependem do quão fiel se mantém às suas regras alimentares?
  • Passa grande parte do tempo a planear ou a preparar refeições?

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