No novo Michelin do Algarve

A experimentar

Crítica de restaurantes 

Restaurante A Ver Tavira

O restaurante de Luís Brito foi uma das surpresas do Guia Michelin deste ano. Fomos à nova estrela do Sotavento Algarvio.

Há poucos restaurantes de campeonato Michelin cujo dono seja também o chef. Se nos ativermos à última edição do guia dos pneus, no Algarve, só mesmo este A Ver Tavira foge à regra. Todos os restantes sete estrelados estão dentro de grandes unidades hoteleiras de luxo ou de grupos empresariais.

Luís Brito é um herói por isto, mas não só. Ao contrário de boa parte dos chefs da nova geração, o seu investimento parece ser mais na comida do que em acções com influencers ou na gestão do Instagram. É um homem adulto, já nos 50, e em vez de ter apostado em marketing pessoal e estágios de três meses em cozinhas nórdicas da moda que não sabem o que é um biqueirão, fez carreira em cozinhas sólidas e deu formação hoteleira, entre o Algarve, a Madeira e o Brasil. 

Ou seja, Luís Brito tem um percurso original e independente. Não faz parte de qualquer agremiação e não tem um director de food and beverage a dizer-lhe o que os turistas gostam. 

Luís Brito | avertavira.com/pt

Talvez por isso, haja neste A Ver Tavira um menu explicitamente dedicado ao Algarve. Chama-se Menu Algarve e foi atrás dele que fui, num jantar a meio da semana, anónimo (como sempre), quando a poeira do Sahara ainda não assentara. 

Relato dos acontecimentos. 

Assim que entro, percebo que cometi um erro — devia ter ido ao almoço. À noite, vê-se muito pouco de Tavira, sobretudo em dias com a varanda fechada, como era o caso. Há portadas de vidro, mas reflectem mais as luzes da sala do que as as da vila. Ao jantar, ficamos circunscritos ao décor, a lembrar uma moradia de veraneio, tijoleira vermelha e cortinados creme.

Restaurante A Ver Tavira | avertavira.com/pt

A refeição arranca com a sala com três mesas, para além da minha, ainda cedo. O serviço é ágil e atento, no estilo protocolar de fatinho escuro. O chefe de sala toma a dianteira do vinho, mas precisa de ajuda à primeira questão. A sommelière surge então e resolve, mas só em parte. Pede-se um vinho a copo. Não é particularmente interessante o vinho, culpa minha, mas o pior não é isso. O pior é que fede a mofo, fruto do composto químico Tricloroanisol (TCA), um problema recorrente conhecido como “rolha”. 

A sommelière é convidada a provar e faz um esgar de dor, assim que mete o nariz no copo. Ora, vinhos “com rolha” há em todo o mundo. Acontece. A questão não é essa. A questão é que a garrafa já estava aberta. Alguém já bebera dali, sem que ninguém tivesse dado conta.

O primeiro amuse bouche apaga rapidamente o episódio. Uma almofadinha com mousse de bacalhau e gel de tomate, um portento de sabor e textura, arranque fresco e leve. Nisto vem um tríptico: tacinha de ervilhas com chouriço, densa na base, espumosa à superfície; tartellete de mousse de peixe e marisco, com maionese de wasabi; e esfera de azeitona (no interior) e manteiga de cacau (no exterior), uma brincadeira desnecessária. 

Tartellete | DR

Ainda estávamos fora da carta. Só com a salada de biqueirão, halófitas, tomate e uma falsa amêndoa entramos no menu. E entramos bem: o prato tem salinidade, textura, acidez, terroir. Surge então o momento do pão, sem deslumbrar. Pão rústico e brioche, ambos feitos na casa, acompanhados de um azeite do Douro, da Casa Ferreirinha. Pergunto por azeites do Algarve, que os há — e excelentes — e o chefe de sala prontifica-se a ir buscar um. Eis o esperado Monterosa, feito a uma dúzia de quilómetros dali, em Moncarapacho. É um monovarietal de azeitona Picual (variedade espanhola, mas aqui com características próprias) e é belíssimo. 

Salada de biqueirão | A Ver Tavira

Siga para os principais. Açorda com caldo de peixe, tranche de robalo, gema de ovo e alho negro. Tudo bem e saboroso, ponto do bicho perfeito, suculento. A opção pela açorda é arriscada, num restaurante com muitos clientes estrangeiros, sabendo-se que as papas de pão não atraem a maioria dos turistas. Mas a questão é outra. Não é um prato algarvio.

Tal como não é um prato algarvio o que se segue: arroz de pato. Vem, como seria de esperar, desconstruído e sofisticado, numa geometria clássica de Michelin. O peito da ave rosado, bolinha de gel de laranja, bolinha de foie gras com capa de beterraba e bolinha de arroz frito, com notas de fumeiro mas com os bagos espaçados no interior. Por cima, um jus de carne, puxadíssimo. 

Para acabar, um morgado de arquitectura notável, que ficará durante muito tempo na minha cabeça. 

Morgado | A Ver Tavira

Em síntese. Foram 100 euros por um jantar com um copo de vinho e água. É, porventura, a degustação Michelin mais barata do Algarve — e isso é importante. De resto, a cozinha de Luís Brito é rigorosa e cuidada, tecnicamente. Coisas a melhorar: o espaço interior é pouco especial e soturno; o serviço mostrou-se simpático mas tenso; e, numa região com tantas e tão boas comidas, viu-se pouco do Algarve e da estação. 

A Ver Tavira

Calçada da Galeria, Largo Abu-Otmane 13, Tavira. Ter-Sáb 12.00-15.00, 18.30-22.00


Ricardo Dias Felner
Escritor e Jornalista

 

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