A Ceia dos Cardeais

A experimentar

Todos se recordam desta enorme evocação à cultura e aos costumes da Europa do Sul escrito com enorme talento por Júlio Dantas em 1902. De tudo quanto os Cardeais discorreram sobre a sociedade da época e as diferenças culturais e sentimentais entre Espanha, França e Portugal, fica a nota maior do agregador da conversa – o amável vínculo que os ligava ali simbolizado pelo inexcedível prato de faisão com trufa, profusamente regado por “Moet et Chandon”.

Cada Cardeal era desafiado a contar uma cena sentimental da sua meninice e nelas refletiam, não sempre sem malícia, as diferenças culturais entre os seus Países. Tudo envolto num cenário excessivo e opulento onde se exibiam linhos, damascos, porcelanas, pratas e cristais.

O cenário era tão rico que quando esta peça, enorme exemplar da escrita Alexandrina e emparelhada, foi a palco, esteve sempre vigiada por agentes da polícia para que ninguém se “cosesse” com nada!

Vem a magnifica Ceia dos Cardeais a propósito de uma memorável deslocação que fiz a Boticas com o meu querido amigo Hélio Loureiro.

Íamos encontrar-nos com o Presidente da Organização de Produtores da Carne Barrosã,
feita à volta de uma cooperativa designada por CAPOLIB. O novo anfitrião, Albano Alvarez é
um homem rijo e vertical que nos recebeu de braços abertos, não para comermos num restaurante qualquer, mas antes em sua própria casa.

Sentamo-nos os 3 a uma mesa acolhedora, logo evocando para aquela intimidade a memória amorosa da Ceia dos Cardeais.

O brasido de vide velha crepitava no chão de uma lareira alegre e generosa e dela saíam, em devota procissão, os enchidos e as carnes para a nossa mesa, onde cada um dos 3 se alargava em memórias amáveis como a que vivemos nessa noite. Recordei um amigo de escola ali de Boticas, o Arnaldo Videira e as vezes que no planalto do Barroso ia com o meu Pai à caça das codornizes.

Começamos por uma alheira à moda antiga. O Albano asseverava que as alheiras da terra não tinham qualquer produção industrial, eram feitas nas cozinhas da Famílias, com receitas diversas, sempre sussurradas de Mães para Filhas. Uma delícia quer na sapidez da carne quer nas especiarias que as distinguem umas das outras. O mesmo toque genuíno no
cachaço e no salpicão que veio para a mesa. E nas cebolas excelsas que se deixavam comer com sal gordo.

Depois, veio o rodeão e o lombo. “Oh, vaga do mar!”, como diz um amigo do peito quando a coisa é de pasmar. Que suculência, que macieza, que profunda sapidez! A isso ainda somamos um exuberante arroz de cogumelos e um desfilar de vinhos de estirpe maior.

Ainda havia espaço para a sobremesa com doces caseiros de babar e umas peras de inverno, que nos fizeram recuar aos tempos antigos.

No final, voltamos aos Cardeais, todos queríamos ser o Cardeal Português, D. Gonzaga de
Castro, pelo sentimento de que o que nos juntava era esta coisa única que, como a Amor, só existe em Portugal: – O produto verdadeiro da terra e os processos familiares de o preparar num receituário oral, que fez a tradição principal do robusto receituário galaico duriense.

Grande a carne barrosã que, nos novos tempos, pode ser comprada on-line no site da CAPOLIB.

Fotografia: carnebarrosa.com

Um abraço saudoso ao Albano Alvarez, um dos homens que mais tem feito pela produção animal de qualidade e também pela promoção da boa gastronomia do Barroso.

Texto de António de Souza-Cardoso

O artigo foi originalmente publicado em Vida Económica.

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