À Mesa com os Filósofos (2)

A experimentar

Esta é a segunda parte do nosso artigo “À Mesa com os Filósofos”. Pretendemos trazer para este debate a sempre interessante relação entre a gastronomia e a sua interação com o que pensaram alguns dos mais importantes filósofos, apoiando-nos no livro de Normand Baillargeon, com o mesmo  título.

Este texto vai continuar na procura constante da sabedoria da gastronomia e, com o autor, vamos procurar as raízes que apontam para o debate crítico de alguns dos problemas do nosso tempo criados pela intervenção do Homem na sua relação com a natureza.

No seu “Discurso sobre as Ciências e as Artes”, Jean-Jacques Rousseau vai considerar que “todo o progresso é uma ilusão, que tudo isso é falso e que o ser humano, quanto mais avança, mais se corrompe ”. Aqui, procuramos encontrar a sua preocupação com a natureza e aquilo a que chamaríamos, hoje, de preocupações  ecológicas e as alterações climáticas.

O liberal John Locke, por seu lado, vai procurar na liberdade o tal estado de natureza que, na sua leitura, seria “um estado de perfeita liberdade, um estado em que, sem pedirem autorização a ninguém e sem dependerem da vontade de qualquer Homem, as pessoas podem fazer o que lhes aprouver. Estes dois filósofos vão produzir uma ideia que tenta fazer o seu caminho neste século XXI: o locavorismo (do latim localis- local- e voro – comer-). Inventado por Jéssica Prentice, em 2005, na região de S. Francisco, pretende que se consumam alimentos cultivados ou colhidos num raio de 160 km. Uma ideia original e exigente para salvaguardar a produção das comunidades locais.

Rousseau vai escrever no seu Emílio: “Vamos jantar numa casa opulenta; deparam-se-nos os preparativos para um banquete, muita gente, muitos lacaios, muitas travessas, um serviço elegante e fino. (…) Enquanto a refeição se prolonga, enquanto os pratos se sucedem, enquanto na roda da mesa reinam mil conversas ruidosas, aproximo-me do seu ouvido e digo-lhe: “ Por quantas mãos achais que passou tudo o que vedes sobre essa mesa antes de aqui ter chegado”. Esse é o sinal da logística que nos envolve, antes de chegar o nosso momento de comer.

Gandhi traz outra preocupação, quando nos diz que se conhece “o grau de civilização de um povo pelo modo como trata os seus animais”. Ora esta reflexão vai conduzir-nos à ideia de uma ética animal, que Peter Singer tem vindo a defender, no seu livro Animal Liberation (2009), cuja origem vai beber ao utilitarismo de Jeremy Bentham (1748-1832), para quem ”a natureza colocou a humanidade sob o domínio de dois amos: a dor e o prazer”.

Esta escola vai encontrar em Roger Scruton a defesa de uma teoria contratualista dos direitos e da moral, dividindo os animais em três classes: de companhia, ao serviço do homem e os selvagens.

A sua conclusão vai no sentido da adaptação da velha máxima de Descartes: “Penso, logo como.”

O filósofo David Hume quis, nos últimos anos de vida, também ser cozinheiro, tendo sido autor de um prato, “sopa à moda da rainha”. Ele associou o ato de comer e beber  à  convivialidade de estarmos juntos e partilhar algo que as redes sociais dos nossos dias não conseguem fazer. Daqui vai resultar a importância da cerimónia do chá, que quer o Japão quer a Inglaterra, graças à nossa Catarina de Bragança, souberam transformar numa instituição.

Platão dizia que a cozinha não era uma arte porque a sua ideia de arte estava reflectida na “Alegoria da Caverna”, que integrava um dos capítulos da “República”, onde os seus habitantes só conheciam as sombras dos Homens e não os Homens. Para ele, a arte era uma representação imitativa e, assim, a  cozinha era uma forma de arte, onde chefs como Ferran Adrià eram verdadeiros artistas e visionários, transformando o seu restaurante numa galeria associada a uma estética de sensações com sabor.

O francês Jean-Anthelme Brillat-Savarin (1775-1826) escreveu uma espécie de bíblia gastronómica, afirmando a expressão de uma apreciação estética da cozinha, com uma vontade que se consubstancia num prazer de comer e de uma  mesa  que foge a qualquer tipo de  indigestão.

Assim, podemos ir acompanhar Jean Paul Sartre ao seu Café de Flore, na margem esquerda do Sena, numa Paris que nos leva a Roma e a Séneca para partilhar que “o destino conduz aquele que o aceita, arrasta aquele que lhe resiste.”

Os tempos da pandemia deixaram um rasto que trouxe o take away como novidade, abrindo um debate para a saúde na alimentação que não se reduz a qualquer fast food ou a um hamburger de uma marca internacional. Desafios ambientais ou de saúde implicam uma nova ética de abordagem a esta arte sublime que é saber comer e beber.

O conselho do imperador filósofo Marco Aurélio ganha, nestes tempos, particular importância: “Ajuda-te, se é que tens, até onde ainda for possível, alguma preocupação por ti próprio “.

Assim seja.


António Tavares
Professor Universitário de Ciência Política

 

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