Madeira: As maçãs regionais – um património distinto

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A Madeira tem um património de macieiras muito distinto das outras regiões europeias, plantas que, com os séculos de presença, foram desenvolvendo características e atributos próprios.

No que respeita à presença da macieira na ilha da Madeira, esta será certamente muito antiga e ligada ao seu povoamento. De facto, Gaspar Frutuoso, nas “Saudades da Terra”, obra do século XVI, refere a planta como existindo em vários locais da ilha principal, mais explicitamente na Ribeira Brava e no Faial, sem nunca deixar de mencionar outros com “frutas de toda a sorte”, como Santana e Calheta, onde certamente aquela marcaria presença, tanto mais pelo clima propício.

J. Vieira Natividade (1899-1968), reputado engenheiro agrónomo, considerado o “pai” da fruticultura portuguesa, que, em 1947, publicou a obra «Fomento da Fruticultura na Madeira», sobre as numerosas variedades de maçãs que encontrou, já concluía que «o que se passa com as castas de Macieira cultivadas na ilha constitui seguramente caso único na fruticultura mundial. Só mereceram o interesse do cultivador as formas da subespécie paradisíaca, dotadas de cones radicíferos e por isso susceptíveis de se multiplicarem por estaca com a maior facilidade. A flora madeirense deve ser hoje, neste aspecto, a mais rica do mundo, pois não será exagero o afirmar que o número de castas em cultura, com ou sem valor económico é superior a uma centena…».

Pese o passar dos anos, muitas daquelas variedades mantêm-se, detendo maior expressão aquelas que os agricultores consideraram mais produtivas e com maior procura pelos consumidores, como a «Barral», «Domingos», «Calhau», «Camacha», «Cara de Dama», e «Ponta do Pargo». Num segundo grupo, de menor representatividade, entre outras, é possível encontrar outras “castas”, como: «Amargo», «Baionesa», «Branco», «Boal», «Cú de Melro», «De Ouro», «Espelho», «Focinho de Rato», «Parda», «Pevide», «Rajado», «Rijo», «Riscado», e o «Vime».

Deste ainda vasto património genético encontram-se boas coleções na Quinta Pedagógica dos Prazeres e, com um maior grau de disseminação, no Estreito de Câmara de Lobos e no Jardim da Serra. A presença nestas duas últimas freguesias deve-se ao facto do comércio das maçãs e peros regionais, desde que passou a ter expressão, ter sido tutelado por ajuntadores originários daqueles locais, os quais, ao longo dos tempos, para ali foram levando exemplares das diferentes variedades que iam encontrando nas suas deambulações pela ilha.

A nomeação dos frutos das macieiras, como da própria planta, na Madeira é igualmente sui generis. Em geral, no continente português, a maçã corresponde aos frutos achatados, e o pero, como o nome indica, aos pomos com a forma de um punho fechado.

De acordo com a obra já citada de Vieira da Natividade «outra particularidade curiosa consiste na acepção dada às palavras pêro e maçã… Chega-se ao contra-senso de existir o pêro-maçã e a maçã-pêro. Todas as castas indígenas de macieira tomam a designação de pereiros; todas as macieiras exóticas são irremediavelmente macieiras… uma só excepção conhecemos: a Maçã Riscada, de Machico, que sendo de facto uma maçã, é também madeirense».

Não se poderá considerar, hoje em dia, que na Madeira existam variedades de maçãs exclusivas para a produção de sidra. No entanto, é nas variedades mais rústicas e antigas, independentemente de terem um maior ou menor teor em açúcares, que assenta o grosso do fabrico.

Regina Santos
Direção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural

O artigo foi publicado em Agroportal.

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