Doces de inspiração divina: uma viagem por Portugal

A experimentar

Pedro José Barros

Muitos nasceram entre os afazeres dos conventos, fruto da dedicação e imaginação das freiras. Outros derivam de tradições da cultura popular. Dos natalícios bolos-reis, rabanadas e aletria aos pastéis de Tentúgal, pudins de ovos ou de castanha, amêndoas cobertas e sardinhas doces. Conheça uma herança doceira ímpar de norte a sul, sem esquecer as ilhas.

Divinal pão-de-ló
Ovos, açúcar e farinha. Com três ingredientes principais se faz um ícone doce. De massa leve, fofa, amarela e côdea muito fina e ligeiramente acastanhada, a que se chama Ló, cativa pela doçura. Em Ovar, o pão-de-ló é envolvido em papel de linho branco e o interior fica mais húmido do que é habitual. O bolo é também um ex-líbris de Alfeizerão, Margaride (Felgueiras) e Arouca.

Pudim das clarissas
Após uma investigação sobre o receituário conventual de Coimbra, o restaurante Cordel Maneirista recuperou este pudim premiado, nascido no Convento de Santa Clara. O doce representa a “simbiose perfeita entre o açúcar e as gemas de ovo” e a “dedicação que as Clarissas ofereceram à doçaria”. Prove e faça um workshop de doçaria na Mercearia Cordel, onde pode adquirir outras criações.

Saborear o arroz-doce
Os conventos e o povo geraram muitas versões da receita. Dizem os preceitos que o arroz tem de ser Carolino, já que o grão revela muita goma ao cozer com o leite, açúcar, o tempero da casca de limão, pau de canela e, idealmente, água de flor de laranjeira. Pode fazer-se com ou sem ovos e enfeita com canela. Em Vila de Rua (Moimenta da Beira), há um arroz doce “de Cesto”.

A Irresistível aletria
Alegria de fim de ano é saborear este doce. A massa de fios bem finos coze em água com açúcar, casca de limão e pau de canela, manteiga, podendo levar leite e gemas de ovo. Sempre com canela no fim. Nas Beiras serve compacta e dá para fatiar, no Minho é mais cremosa. Tem boa fama no restaurante Mugasa, em Anadia, onde pode ser feita na hora, e na Casa Nanda, no Porto.

Rabanadas de tradição
Estas fatias de pão, também conhecidas por fatias douradas, mergulham-se em leite (ou vinho) com canela e cascas de limão, e depois em ovos. São fritas e levam açúcar e canela. As variantes são muitas: há quem regue com calda de açúcar, mel ou vinho do Porto. No Porto há todos os dias n’A Cozinha do Manel e pode provar com gelado de queijo da Serra no Semea, de Vasco Coelho Santos.

Sericaia, rainha do Alentejo
Tem uma aconchegante textura e, por norma, a companhia de uma gulosa ameixa de Elvas. Embora se acredite que a origem da receita da Sericaia, Sericá ou Cericá, seja indiana, é evidente a influência dos conventos da região, já que o preparo se alimenta de ovos, farinha, açúcar, canela e casca de limão. Coze num prato de ir ao forno a boa temperatura até abrir fendas insinuantes…

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