Desconsegui!

A experimentar

Crítica de Restaurantes

Restaurante Tia Orlanda

Uma das mais impressivas viagens da minha vida foi a Moçambique. Por muitas razões, algumas de um foro que quero guardar comigo, mas outras que partilho com o prazer de quem sente que é esse o modo de as reviver.

Fizemos a viagem de Jipe contornando a extensa costa moçambicana. Nunca tinha estado em África, mas no meu genoma havia um arquivo ténue daquelas emoções: o cheiro húmido da terra, aqueles cantares de “lava no rio” que se ouviam ao longe para lá das machambas, os meninos limpos e fardados na alvorada a rumaram à escola, tudo me trazia de volta a lugares onde, afinal, eu nunca tinha estado.

Claro que me apaixonei pela cozinha moçambicana. O peixe e o marisco são insuperáveis. Mas a grande especialidade local é a forma como misturam a natureza – a fruta e as especiarias, de sabores e texturas variados e exaltantes com molhos e caldos inimagináveis.

Num dos dias festivos em Moçambique, na praia bonita do resort onde ficámos, em Vilanculos, soubemos improvisar uma grelha para o camarão gordo da chapa, com aquele molho mais calorento que picante, que se faz em Moçambique. Acompanhava um arroz de tudo – das maravilhas que a natureza moçambicana nos dá que decidimos recriar sem qualquer preconceito.

A ajudar na grelha, todo aprumadinho, estava o Samuel, um moçambicano de riso fácil, cara lavada e olhos brilhantes de quem apetece muito ficar amigo. O Samuel era muito mais de conversa do que de trabalho. Cantava, ria, debitava histórias sem parar, incentivando-me com um riso branco e aberto a continuar a trabalhar. Foi uma festa linda, cheia de boas emoções. No final, pedimos ao Samuel que arrumasse a grelha. E ele, muito lépido, deu-lhe um definitivo pontapé entornando o carvão pela areia branca e fina. Dissemos-lhe que era preciso limpar, porque os outros hóspedes também usavam aquele bocadinho de praia meia privativa. Disse logo que sim, claro! Mas nos dias seguintes quando passávamos por ele e perguntávamos se já havia limpo a sujidade da praia, respondia lampeiro: ainda, Patrão! – percebemos que era a forma económica e cautelosa de não dizer que não. 

Vou deixar o desfecho da história do Samuel para o fim porque ainda quero falar de um grande restaurante do Porto – de comida moçambicana, claro está!

Ali para os lados da remoçada Campanhã, na rua Pinto Bessa encontra o Restaurante Tia Orlanda. Um espaço elegante todo decorado a capulanas e outras peças do inspirado artesanato moçambicana. E ali o reino encantado de Orlanda que se apresenta habitualmente trajada nos rigores da tradição africana. A tia Orlanda é uma das predestinadas mulheres moçambicanas – percebi mais tarde que Moçambique vive do trabalho laborioso das suas grandes mulheres.

Começamos por umas chamuças – que bem feitas estavam! Desde o polme, enxuto mas estaladiço até ao recheio que foge das pastas indianas, ganhando em sabor e elegância aromática.

Prosseguimos pelo caril. O de caranguejo é o meu preferido, mas também há o clássico caril de frango. Suave, mas ainda assim corpulento, o caril da Tia Orlanda não explode na boca, mas também não no estômago. Pelo contrário, deixa que os odores tropicais se propaguem com elegância dominando o palato e dando um prazer geral à degustação do prato. 

Passamos para a tocossada de peixe – um cherne estufado em pimento, tomate e especiarias. Excelente resultado no equilíbrio exuberante das especiarias.

A moamba de galinha, que julgávamos mais angolana, traz consigo os sabores africanos do caju, do óleo de palma e do coco. O feijão com coco e cogumelos é delicioso e constitui a proposta vegetariana da Tia Orlanda e, para acabar, a água e sal de vitela mendinha – um prato que contemporiza os sabores moçambicanos com a cozinha tradicional do Norte de Portugal.

Belíssimas as sobremesas, amável e familiar o serviço que nos traz habitualmente à mesa a própria Tia Orlanda.

Deixamos que a memória nos faça regressar às areias douradas de Moçambique. E se espreguice na beleza nativa de Lourenço Marques e da sua amorável Baía, no encanto selvagem da praia de Závora, nos doces e mornos dias em Vilanculos, ou na indómita Gorongoza, ou na elegante Vila Pery…

E com elas, no encanto de Samuel que juntou a família com todo o aprumo para se despedir de nós e, quando depois do abraço caloroso lhe fizemos a pergunta final sobre se acabara por limpar a grelha tombada na praia, Samuel com aquele sorriso franco e maroto dos moçambicanos atirou com desarmante humildade: 

– Desconsegui, Patrão!

R. de Pinto Bessa 174, Campanhã, Porto. Reservas em 222085710 ou 914622823. 


António Souza Cardoso
AGAVI

 

Partilhe este texto:

Últimas