Casinha Velha

A experimentar

Crítica de Restaurantes

Casinha Velha

O bastião de bem comer em Marrazes, perto de Leiria, continua seguro e a servir folhado de queijo da serra com mel. Bem-haja. 

É um cliché, mas é bom relembrar. Tratamos mal os velhinhos. É assim com as pessoas e é assim com os restaurantes. Trocamos facilmente os velhinhos pelas novidades. Mesmo que as novidades sejam parvas. Mesmo que sejam modas vazias. À primeira importação de Nova Iorque ou Tóquio, acorremos excitados como influencers teen a caminho do brunch patrocinado. 

Muitas vezes, aprendemos à custa das nossas papilas que um jovem chef estiloso de boné de Brooklyn não faz, necessariamente, comida boa ou original. E então voltamos aos sítios que o Instagram desdenha, onde cozinheiros com os braços marcados pelos fogões (e não por pigmentos de tinta preta) cozinham há 30 anos a mesma comida, indiferentes aos ares do tempo e a darem-se ares. 

Foi isso que aconteceu há dias. De repente, estava a comer o mesmo folhado de queijo da serra com mel e Vinho do Porto, em voga na década de 1990, quando fui pela primeira vez à Casinha Velha. A instituição de Marrazes, à beira de Leiria, parecia intocada. Resistira a tudo: às fusões, à febre molecular, à vanguarda nórdica, à cozinha portuguesa com twist, à concorrência do vizinho Tromba Rija.

Revi a carta da Casinha Velha como um objecto vintage. Para além do tabuleiro de enchidos e queijos, estavam lá os hits de sempre. Nas entradas, a mesma aspiração de modernidade que marcou os anos de 1980 e 1990, como se o chef Michel tivesse ressurgido com as teleculinárias debaixo do braço para fazer um catering no Palácio da Ajuda.

Tâmaras enroladas em bacon.
Cogumelos panados.
Camembert com doce de abóbora.
Bolinhas de alheira.
Vol-au-Vent de galinha e amêndoa.
Folhado de queijo da Serra com vinho do Porto.

Nos principais, quatro pratos de peixe, entre eles: três bacalhaus (com natas; de açorda com gambas; e assado) e um de camarão grelhado. Nas carnes, mais variedade: posta de raça mirandesa, porco preto e borrego para grelhar, mais os clássicos cabrito no forno, arroz de pato e capão assado (às sextas-feiras).

Cabrito assado no forno. Fotografia: Facebook Casinha Velha Restaurante

Olhando, assim, não entusiasma particularmente. Mas depois há os detalhes. E o produto. Sobretudo o produto. 

Nos últimos anos, por mais do que uma vez, mesmo sem visitar a Casinha Velha, ela surgiu em conversas gastronómicas. Não da boca dos meus amigos lisboetas, ocupados com o trendy e o local sourcing, mas da boca de produtores. Dos melhores. Por mais do que uma vez, produtores com quem falei citaram a Casinha Velha entre os seus clientes (“Fornecemos alguns Michelin e a Casinha Velha”). 

Mas na Casinha Velha não se proclama o produto: serve-se. O bacalhau, por exemplo, é o topo de gama da Riberalves, produção que dificilmente chega às mãos do mortal consumidor, com mais de 10 meses de cura e origem na Islândia. Isso foi evidente no lagareiro, impecável de sal e goma, perfeito na confecção, dourado por fora, aqui e ali uns tostados mais pretos, o interior em lasca grossa.

E antes já tinha testado o presunto pata negra, um Cinco Jotas cortado à faca na hora, finíssimo, vendido por um preço simpático, 15€, metade do que encontramos nas mesas da capital. No final, veio o cabrito, mínimo, a carne tenra e marinada (porventura demasiado para o meu gosto, que os prefiro com mais viço), o tempero tradicional português, bom para molhar no pão (ainda que o pão não esteja ao nível do resto). 

Nas sobremesas não podia faltar o “pijama” e, dentro dele, o leite creme queimado, a torta de laranja ou o pudim do Abade de Priscos. 

“Pijama de doces”. Fotografia: Facebook Casinha Velha Restaurante

Uma nota ainda para a carta de vinhos, de grande nível. Tem vários campeões nacionais, mas também jóias estrangeiras, como grand crus da Borgonha e preciosidades do Barolo. Dito isto, o sommelier sabe ler o cliente e o momento, sugerindo bons negócios e a garrafa apropriada. O serviço de sala foi, aliás, sempre de muito bom nível, mesmo que a cozinha se tenha demorado em algumas transições. 

Concluindo. Devemos amar a Casinha Velha. Há restaurantes que não queremos que mudem. Vamos lá como quem vai a um museu ou assistir a um filme de época. Oxalá se mantenha assim. 


Ricardo Dias Felner
Escritor e Jornalista

 

Partilhe este texto:

Últimas