Caffè Sicilia. Crónica de uma escapadinha a Noto

A experimentar

O filme “Feios, Porcos e Maus”, de Ettore Scola, bem podia ter sido gravado na Sicília. Foi o primeiro pensamento ao sentar-me no luxuoso transfer para Noto, a partir do aeroporto de Catania, com uma Polaca chanfrada ao volante. 

O lixo na rua, o património histórico — riquíssimo mas degradado — a confusão e o gesticular “ma que cosa” da condutora; Nannini e Patrese a sair de cada buraco do trânsito da ilha; a paisagem árida e sufocante, bem mediterrânea, a lembrar o interior do Algarve; o pó, as laranjeiras e as amendoeiras e a ânsia de chegar ao Caffè Sicilia e pôr os dentes em tudo.

Confesso que fiquei apaixonado por Corrado Assenza, depois de ver na Netflix o Chef´s Table dedicado ao seu Caffé Sicília. A coincidência foi ainda maior quando, duas semanas depois, enquanto falava com uns amigos no Gerês, um deles me diz: “Ó Zé, alugámos uma casa fantástica em Noto e temos um quarto livre. Queres vir?” A resposta foi imediata. “www, cartão de crédito e voo reservado — adesso pedala, que lá vou eu. Será caso para dizer prendere due piccione com una fava.

À chegada, fazia muito calor. Depois de Siracusa ter registado a maior temperatura de sempre na Europa (48º C), de uma fantástica carbonara caseira acompanhada por algumas garrafas de Planeta Alastro (Menfi), no dia seguinte de manhã visitámos o mercado de Siracusa, para nos abastecermos. Lulas, gambas, amêijoa preta (parecia que estava nas Rias Bajas), legumes, uma pancetta maravilhosamente fumada, guanciale delicado, pasta fresca, Pecorino bem forte, curado e salgado, parmesão de qualidade e mais vinho (Frapatto, Nero D´Avola, Nerello Mascalese, Grillo e outras castas internacionais fazem os vinhos excitantes e com preços moderados), deixaram o spaghetti alle vongole alinhado para o jantar.

A cidade de Noto, Património da Humanidade da Unesco, é uma pérola do Barroco, com um impressionante número de templos religiosos por metro quadrado e que tem a particularidade de ter sido toda reconstruída no início do Séc. XVIII, depois de um devastador terramoto em 1693. Percorrer o Corso Vittorio Emanuele e as redondezas no meio de uma multidão sem máscara acaba por ser obrigatório, principalmente se queremos chegar ao nosso destino final.

Tlim Tlão. Buona cera, Caffè Sicilia!

Empurrado pelo destino para assumir um negócio de família, fundado em 1892, Corrado Assenza é sobretudo um apaixonado pela Sicília e pelo seu produto. Experimentador nato, criou nos laços de ternura e paixão com os seus fornecedores, bem como no trabalho duro, o sucesso da sua vida e a vida eterna da pequena pastelaria que comanda discretamente. 

É de lá que saem os cannolo, de origens gregas e romanas, tubos de massa doce frita com a forma de canelones, grossa e estaladiça, com uns olhinhos a fazer lembrar filhós, e recheados originalmente com creme de ricota. Estes foram os meus favoritos, pelo contraste entre o sabor da fritura e a delicadeza levemente açucarada do creme, uma espuma macia que nos leva ao céu. Igualmente boa a versão com creme de pasteleiro e/ou chocolate, mais doce e pesada, mas igualmente genial. Uma amiga minha gostou tanto que tentou trazê-los para Portugal e fazer todos os anos uma festa dos cannolo. Obviamente, não conseguiu.

Já as granita e o brioche são uma combinação genialmente improvável. Limão, amêndoa de Noto, figo e malagueta são os sabores imperdíveis a experimentar. E aquele brioche, qual fogaça da Vila da Feira, como quem molha o pão no molho das amêijoas ou atira uma colherada de granita em cima dele, é coisa que não deve faltar na nossa bucket list.

E que tal uma sande de brioche com duas bolas de gelati? Ah, pois é: uma de ricotta e outra de fior di spezie (limão, noz moscada, pimenta de Sichuan, amora silvestre e gengibre): suave, delicado, com o açúcar no ponto e a trinca desesperada no brioche. O pão, o frio e o doce despertam os sentidos pelo efeito surpresa.

Entre torroni (uma espécie de nougat), bolachas e demais pastelaria deliciosa, eis por fim a cassatina (massapão, ricota e pistachio), a framboesa em cima do bolo para quem ainda tiver estômago.

Quanto è bella la dolce vita.


José Manuel Pires

Empresário

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