O grande tráfico do picante seco

A experimentar

Por uma razão qualquer, é difícil encontrar em Portugal o picante seco em pequeninos papeletes que tradicionalmente, noutros países, se põe na piza. E um grande amigo meu que gosta de picante é fã. 

Há dois meses viajei em trabalho aos Estados Unidos e lembrei-me de lhe trazer uma jarra. O difícil foi encontrar o produto. Sim, de cada vez que ia a uma pizaria lá estava um frasquinho com essas papoilas secas que têm a vantagem de não acrescentar ainda mais gordura às já oleosas fatias de piza de Nova Iorque. Mas, fora daí, batia sucessivamente com o nariz na porta. 

Creio que havia duas razões para isso: cada casa fará o seu picante ou então compra a um distribuidor. E de repente, na cidade que nunca dorme e onde nada falta, dei por mim a procurar uma agulha num palheiro. Soubesse eu o nome daquilo em inglês, teria usado o motor de busca no telemóvel. Eu sabia o que queria, mas os termos técnicos são como os sotaques: se do outro lado houver má vontade, a comunicação fica perto do impossível. 

Numa outra viagem, mais curta em distância mas até mais intensa, a minha família foi a Madrid quando eu tinha oito anos. Dessa visita à capital espanhola guardo duas memórias. Uma, ouvir dobrado em castelhano o Clark Gable a dizer à Vivian Leigh «¡No doy una peseta por ti!»; a outra memória, ainda mais traumática, foi de a certa altura perguntarmos a um polícia se sabia onde havia um telefone, e o homem a fazer-se desentendido com todas as formas que o meu pai encontrou de, no mais esforçado portinhol, pronunciar “telefone”. Pusesse o meu pai a tónica no primeiro, segundo ou terceiro “e” (teléfone, télefone, telefoné, téléfoné), o bruto fazia-se desentendido. 

O meu problema em saber como pedir o tal picante era semelhante. Comecei a buscar mercearias, tentando explicar o queria, tão espantado eu por não saberem responder à minha pergunta como espantados ficavam aqueles a quem perguntava. Ainda por cima, Nova Iorque é o sítio do mundo onde é mais fácil não parecer turista, e eu fui lá há dois meses, altura em que de facto não havia turistas. Por isso, os lojistas não estranhavam o meu sotaque – estranhavam era a minha pergunta. Nisso são parecidos com a malta cá, quando pedimos uma indicação, sempre a pensar que somos atrasados mentais por não sabermos onde fica a bomba de gasolina do lado esquerdo da igreja em frente ao café do Ti Augusto que lá dentro tem sempre o Chico Zé podre de bêbedo a dormitar. 

Finalmente, já estava a desanimar, encontrei numa loja o que queria e descobri que o termo técnico era Crushed red peppers, o que depois de sabermos é de uma simplicidade desconcertante. Porque é isso mesmo que a coisa é: malaguetas vermelhas moídas. Perguntei o preço (mesmo quando trazemos um presente para um bom amigo, convém verificar o preço) e não era nada de especial. Nem três dólares. O problema era que só tinham frasquinhos pequenos, como os que cá há para a pimenta, a canela, o colorau. Pensei em trazer uns dez, mas logo me dei conta de que, por só ter bagagem de mão, a probabilidade era grande de na fronteira me apreenderem os frascos todos, e o dinheiro e o esforço irem cano abaixo. 

Decidi então trazer só dois frascos. Se os apreendessem, pronto, ficava o gesto (a intenção) mas não jogava trinta euros fora, só seis. 

No aeroporto, quando a mala foi no tapete ao raio X, decidi mostrar os frascos, não fossem pensar que trazia lá droga. Encolheram os ombros. Nem ligaram! 

E, assim, passei as sete horas e meia de voo inteirinhas a arrepender-me de não ter trazido mais uns tantos frascos. Dois ou três, pelo menos. 

Podia ficar por aqui, mas a coisa ainda piora. Quando cheguei a Portugal dei-me conta de que não precisava de todo aquele sacrifício. Afinal de contas, quão difícil deve ser fazer aquele picante? Na volta, basta comprar uma saca de malaguetas, deixá-las ao sol a secarem até ficarem desidratadas e depois moê-las num coador (ou numa daquelas máquinas usadas nos filmes para destruir documentos), até ficarem parecidas com papoilas, papelotes, papelinhos, confetes de festa de aniversário. 

Entretanto, só vos peço que não digam nada ao meu amigo, pois não tive ainda oportunidade de lhe dar o presente. Quero que admire o meu esforço e engenho, não a minha estupidez.


Rui Zink
Escritor

 

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