Prefiro fruta

A experimentar

Se não tivesse optado por tanto minimalismo nestes títulos acerca das minhas preferências, talvez me esticasse nesta crónica para “Prefiro Fruta da Época“. Se o fizesse, acolheria o sábio ensinamento do meu querido amigo Miguel Esteves Cardoso, fazendo jus ao tratamento carinhoso, de “professor”, com que sempre o distingo.

Ensinou-me ele que não há melhor fruta que a fruta da época. O MEC trata a fruta por tu, por isso fala como ninguém das laranjas e dos melões, dos morangos e das ameixas, dos pêssegos e das cerejas. Em boa verdade, não conheço mais ninguém que trate a fruta por tu. Muito menos que fale com ela. Ou fale dela como o Miguel sabe falar. Como falou ainda ontem.

Os génios têm o poder de tornar simples o que o resto das pessoas teima em complicar. Aqui começa a minha desavença com o “professor”, porque o que ele sabe da fruta da época, que tanto elogia, não me parece ter na devida conta algumas questões pertinentes.

Por um lado, há épocas em que a fruta rareia na qualidade e escasseia na quantidade. On the other hand, há frutas que já tiveram épocas melhores — e eu que o diga.

Como muitos leitores saberão, também devemos ter na devida consideração a diferença entre a fruta caseira e a fruta que vem de fora. A fruta da casa tem alguma consistência no sabor nacional, mas perde em ousadia e irreverência para a fruta que chega do estrangeiro, normalmente mais brilhante e melhor acondicionada, com sabores tropicais. A escolha é sua.

Está também na moda relevar a distinção entre fruta bonita e fruta feia. Devemos louvar com pundonor a tendência, muito actual, de acarinhar e acomodar a fruta feia, em vez de pura e simplesmente a deitarmos fora, como era costume. Mau costume e, para quem sabe da poda, só estamos a referir um dos maus costumes a que a fruta já nos habituou. Quem nunca pecou que atire a primeira pêra.

A fruta da época tem a grande vantagem de ter uma capacidade de oferta instantânea como nenhuma outra. Mas permitam-me que alterne essa virtude com a sua tão badalada frescura. Registada essa permissão, devo confessar que já encontrei fruta de épocas anteriores bem mais fresca que a tão incensada fruta da época. Mas há quem não goste de refresco.

A coisa ganha contornos mais complicados, se introduzirmos o conceito de salada. Costumo dizer que, saladas, só de agriões. E nunca com nabo. Mas percebo bem os gurus que nos contam que quem gosta de uma boa salada de fruta nunca lá deve misturar a fruta da época. Há uma identidade que se perde com a confusão gerada e, para quem a come, fica uma coisa que não é carne nem é peixe. Tudo isto sem ter nada contra a moda do linguado com banana. Muito menos contra um belo naco com grelos. Salteados ou cozidos, convém é que seja também a época do grelo.


Manuel Serrão
Empresário

 

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