O arroz carolino português que nunca provámos

A experimentar

Se há alguma coisa que define a culinária portuguesa é o arroz. E, no entanto, sabemos pouco sobre ele. Pior: desde há 35 anos que Portugal só importa o refugo de Itália. Mas há esperança. Algures em Salvaterra de Magos, estará plantado o arroz português das nossas vidas. Chama-se Ceres e pode bem ser o melhor carolino que nunca comemos.

A revelação surge como uma facada no estômago. “Em Portugal, não se comercializam variedades portuguesas de arroz”, diz-me ao telefone Margarida Oliveira, investigadora há duas décadas do cereal preferido dos cozinheiros portugueses. “E também a semente é praticamente toda importada desde os anos 1980”. 

Aprofundo o tema, leio estudos, relatórios. Vou falar com quem mexe o arroz. Faço mais perguntas. Mas, então, e o carolino? O arroz dos malandrinhos de tomate e das cabidelas, ícone da culinária portuguesa? “Idem”, confirma-me José Mota Capitão, gastrónomo e produtor da Herdade do Portocarro, o mais exclusivo arrozal do país. 

O carolino que se encontra à venda é todo de genética italiana, não particularmente nobre. “Ficamos com o que os italianos não querem”, assegura o engenheiro agrónomo. 

É este o tamanho da desilusão. Anos e anos a promover as arrozadas pátrias e, um dia, confrontamo-nos com isto. Apesar de Portugal ser o país que mais come arroz na Europa (18 kg per capita ao ano), os portugueses vivem alegres e contentes sem nada saber sobre ele, limitando-se a comer o que Itália desdenha.

Como jovens cantando e rindo com zurrapas, os portugueses vão enchendo o prato de hidratos baratos. Importa só matar a fome, dar espessura à molhanga ou, então, que fique soltinho. Sobretudo isso, que fique soltinho.

Ficar soltinho tornou-se no elogio supremo. Ficar soltinho é a finalidade derradeira da escola do “1 copo de arroz para 2 de água”. Isto explica outra tendência: o agulha ganha terreno ao carolino. António Madaleno, da Orivárzea — o maior produtor de carolino da Europa — estima que, actualmente, a relação do consumo em Portugal seja de 50 por cento de agulha para 35 por cento de carolino. Mesmo que o agulha saiba a pouco, mesmo que nada acrescente.

No pelotão dos soltinhos evidencia-se também o basmati. Pelo basmati os portugueses são capazes de pagar o dobro do preço. “E não sabem o que estão a comer” — grita a indústria nacional. O aroma dos basmati esconderá acefato, carbendazim e triciclazole, entre outros insecticidas, fungicidas e pesticidas usados pelos agricultores do Punjab indiano, do Cambodja, da Birmânia ou do Vietname.

A tese da produção desregrada fora da União Europeia é largamente usada por produtores nacionais como argumento anti-agulha e anti-basmati. Mas os arrozes portugueses não estão livres de toxinas. Aliás, um estudo de 2014 da autoria de Ana Simões, do Instituto Superior de Agronomia, evidenciou que as quantidades de arsénio presentes nos carolinos portugueses de supermercado eram superiores às dos basmati do Punjab e aos valores do jasmim da Tailândia.

De então para cá, sobretudo a partir de 2018, as normas europeias quanto ao uso de químicos de síntese apertaram, mas pode haver algum exagero na tese do bicho papão que vem do Oriente.

Quanto custa a qualidade?

Chore-se, então, o nosso caldoso e o nosso carolino. Faça-se a catarse. Depois, olhe-se para o fundo do túnel. Há uma luz de esperança. Há uma dúzia de pessoas e produtores interessados em mudar isto. Há sementes ao fundo do Mondego, do Tejo e do Sado. Sementes boas.

Se estivermos atentos, até encontramos bom arroz nas prateleiras dos supermercados. Não em todas as prateleiras. Não ao preço dos outros arrozes. Mas encontramos. 

Paremos, por exemplo, na secção de arrozes de um supermercado Continente. Olhemos para os carolinos. Deixemos de lado os carolinos vaporizados. Os vaporizados são arrozes fossilizados. São imersos em água, vaporizados, secos e, depois de todo o processamento industrial, o seu amido é completamente gelatinizado: transformam-se em coisinhas sensaboronas em forma de arroz.

Em Portugal, só a Caçarola terá o equipamento para vaporizar arroz. Quem quer usufruir desse serviço — e muitos querem — tem de contratar com a Caçarola, que deve andar a fazer bom dinheiro, porque o vaporizado também sobe nas estatísticas.

Olhando para as prateleiras, a primeira coisa que notamos é que o preço do arroz aumentou cerca de 20 por cento. A razão tem a ver com 2019 e 2020 terem sido dois anos péssimos, com quebras na produção nacional a chegar aos 30 por cento. O sector aponta culpas às alterações climáticas. Só se conseguiu colher em Novembro e Dezembro, já com demasiada chuva e vento. E faltou pluviosidade no Inverno, o que fez com que alguns rios que abastecem os campos tivessem índices de salinidade excessivos.

A segunda coisa que notamos é que há uma marca claramente mais cara. O carolino da Bom Sucesso custa 1,30€, quando um carolino da marca Continente, por exemplo, está nos 0,89€. À primeira vista, uns e outros parecem iguais — e por isso o cliente questiona-se. Porquê pagar mais 40 cêntimos por arroz? Porquê pagar por um produto que acaba quase sempre ofuscado pelo molho de natas do Strogonoff ou pelo sangue da cabidela?

Boa parte dos chefs arrozeiros e dos restaurantes gastronómicos tem a resposta. Aqui se inclui o Manjar do Marquês, o templo do arroz de tomate, em Pombal — porventura o maior cliente de arroz do canal Horeca do país — que só usa deste carolino. 

Sucesso do Bom

Atravesso o Tejo no Vale do Carregado. Debaixo da ponte, plantações geométricas de tomate em direcção a Vila Franca de Xira. 

No início do Verão, o Ribatejo é um enorme campo agrícola cheio de tractores-pulverizadores cirandando entre linhas. Há quem chame a isto agricultura de precisão, outros falam em overdose de fertilizantes, herbicidas e pesticidas de síntese. 

Mais à frente está a fábrica da Guloso e, numa cortada à direita, pouco depois de passarmos Benavente, entramos nos arrozais: tapetes verdes imaculados, lisos e hirtos. 

António Madaleno, administrador da Orivárzea

Logo ali, a sede da Orivárzea. Cá fora, está uma placa celebrando a presença do ministro da Agricultura para a entrega de 12 ceifeiras, no ano de 2002. Nas costas, os silos enormes, como uma estação de lançamento de foguetões, cada depósito com capacidade para duas mil toneladas de arroz. “É aqui que guardamos a nossa matéria-prima”, explica Filipe Ventura, o homem do marketing. Os silos são de última geração, refrigerados por um circuito de água. 

A transformação do arroz em bagos comestíveis acontece no pavilhão ao lado. Se o arroz fosse empacotado como chega aos silos, teríamos grãos acastanhados, com pauzinhos e pedrinhas à mistura.

O processamento lembra o do trigo. Há que limpar, descascar, despelicular, polir. Até ficar branquinho. No final, o arroz tem menos 30 por cento do peso inicial. Perdem-se muitos nutrientes pelo meio: fibras, proteínas, vitaminas. Mas poupa-se no tempo de cozedura e ganha-se em doçura e numa consistência suave. 

Filipe Ventura e Tiago Galão, o director fabril, vão-me guiando ao longo do circuito. Não entram químicos no processo. O cereal anda dentro de um circuito tubular, que funciona por gravidade. Depois, ao longo do caminho até ao embalamento vai fazendo pequenas paragens. Os grãos que se foram partindo com o polimento, a chamada trinca, são descartados e separados.

O cereal chega à fábrica em casca.

Por lei, o arroz com classificação “Extra” não pode ter mais de 4 por cento de trinca. Já para o arroz de classe comum, o limite são 16 por cento. A trinca é saborosa, é arroz como o outro. Mas o facto de um pacote ter trinca influencia o prato, porque a cozedura é menos uniforme.

Por fim, a reflectora óptica. É aqui que se faz a última selecção dos grãos. Está na altura de excluir os feiosos, os amarelados, os castanhos, os manchados, os gessados. 

Gessados? “O gessado é o arroz branco, opaco”. Tradicionalmente, o carolino deve ser translúcido, vítreo. “Os portugueses não gostam de arroz gessado”, justifica Filipe. O legislador português pôs isso na lei. O decreto 157/2017 estabelece que um pacote de arroz carolino, com  “Extra” escrito na embalagem, tem de ficar abaixo de 2.5 por cento de grãos gessados, subindo este valor para 4,5 por cento nos de classe comum.  

Outra questão é saber se o arroz gessado é um problema agronómico e culinário. Há quem indique tratar-se de uma questão de maturação do grão, há quem ache que é, sobretudo, uma característica da variedade. Em todo o caso, o efeito é este: o arroz gessado, com o interior farinhoso, costuma permanecer mais rijinho por dentro.

Os mais nobres arrozes italianos, como o arbório e o carnaroli, usados no risoto, são completamente gessados. E também o Ronaldo, outro japónica de semente italiana, largamente difundido no Sado — e muito prezado hoje em dia pelos nossos chefs — é gessado. É por isto que não se pode chamar ao Ronaldo um “carolino”. 

Mas retome-se a linha de transformação da Orivárzea. Já no embalamento, para que se evite a proliferação de gorgulho, antes de os pacotes serem devidamente fechados é injectado azoto gasoso, um elemento presente naturalmente no universo. O gorgulho são os bichinhos típicos do arroz. Em si não fazem mal, são até um indicador de saúde dos campos. Mas ninguém gosta de abrir um pacote e ver insectos lá dentro. 

Chegamos ao fim. É óbvio que a Orivárzea, que explora 5000 hectares de arrozais (dos quais 1100 são propriedade dos 44 accionistas da empresa), tem instalações modernas e não deixa nada ao acaso. Mas será isso que faz a diferença para as outras cinco ou seis empresas concorrentes? É isso que justifica que os consumidores mais exigentes prefiram o carolino Bom Sucesso e aceitem pagar o seu preço? Não. 

A razão principal tem a ver com isto. Quando compramos um pacote de arroz vulgar, estamos a comer arroz de vários arrozais, de várias variedades, de várias regiões — eventualmente de vários países. Num único pacote de agulha, pode-se encontrar arroz do Mondego, do Sado, do Tejo, da Birmânia e do Uruguai. E num mesmo pacote de carolino podemos ter do Euro, do Presto e do Ariete.

Na verdade, até podemos ter agulha e carolino misturados. A lei admite como possível a “mistura ocasional ou acidental de variedades de arroz da subespécie índica ou da subespécie japonica” — leia-se, carolino e agulha — até 15 por cento num pacote de arroz comum, e até 5 por cento num pacote de arroz extra. 

Daí esta dificuldade, tão comum no cozinheiro amador: “Já estará cozido?” Alguns bagos sim, outros não. Os grãos do arroz comum têm comportamentos diversos no tacho, com diversos sabores e texturas. Ou seja, o arroz vulgar não garante uniformidade, consistência. Quando damos conta, eis o empapado que tão má fama deu ao carolino.

A Bom Sucesso, por outro lado, foi a primeira marca a pôr no pacote a variedade de arroz usado, com Denominação de Origem Protegida e certificação de Produção Integrada (maior compromisso com o meio ambiente, uso de níveis mais baixos de pesticidas e herbicidas).

No carolino da Bom Sucesso só entra Ariete. Acresce que todo o seu arroz é produzido com semente multiplicada por si e distribuída pelos agricultores da Lezíria Ribatejana, seus fornecedores. “Temos um caderno de encargos e técnicos que estão constantemente a visitar os nossos agricultores”, diz António Madaleno, administrador da Orivárzea.

“Nenhuma outra marca comercial faz isto em Portugal”, conclui Filipe Ventura. A frase está-lhe na ponta da língua. A sua tarefa é dura. Cabe-lhe a ele convencer o mercado de que vale a pena pagar os tais 30 por cento a mais por um pacote de arroz. Nem sempre consegue. Durante a visita vai desfiando nomes de supermercados que desistiram de vender o arroz da Orivárzea. Por causa do preço. Porque o consumidor não valoriza o arroz. Porque os portugueses, orgulhosos arrozeiros, afinal não sabem o que é o arroz. 

Um agulha no celeiro

O arroz pertence à espécie Oryza sativa. Depois, há duas grandes subespécies: a japónica e a índica. Os parâmetros definidos para uma e para outra dependem de características como o comprimento e largura do bago, mas também a quantidade de amilose e a temperatura de gelatinização, que influencia a produção de goma. 

“A goma forma-se porque nos arrozes com baixa temperatura de gelatinização a amilose já passou para a água e volta a ligar-se fora do grão (no caldo)”, esclarece Carla Brites, coordenadora do projecto europeu Trace-Rice, responsável por identificar traços comuns ao arroz da região do Mediterrâneo, e perita do Instituto Nacional de Inovação Agrária e Veterinária (INIAV).  

Simplificando, os japónica são mais bojudos e com maior capacidade de produzir goma. Entram nessa categoria os carolino, mas também os clássicos italianos do risoto, o calasparra espanhol (conhecido também por bomba, usado na paella) ou o arroz de sushi.

O grupo dos Índica, por sua vez, é encabeçado pelos basmati e pela maioria dos jasmim, arrozes aromáticos, mais esguios e compridos. O basmati reina na Índia e tem registado o maior crescimento de todas as variedades em Portugal. Em 2014 representava 3,5 por cento, hoje, segundo António Madaleno, já valerá 12 por cento do mercado nacional. 

Supostamente, o Basmati é produzido na região do Vale dos Himalaias, onde há características edafoclimáticas específicas para o seu crescimento. Mas ninguém parece acreditar que aí caiba todo o basmati do mundo. O que é certo é que de Portugal não vem: os índica puros não frutificam aqui. 

Quanto ao arroz jasmim é o eleito do Sudeste Asiático e da China, mas também de muitos países africanos. Mais glutinosos e de sabor mais neutro do que os basmati são ideais para serem comidos com os tradicionais pauzinhos. Há ainda variedades de jasmim extra-glutinosos, muito usados na doçaria asiática e não só.

Para comprar basmati e, sobretudo, jasmim, aconselho as lojas asiáticas. Por regra, as marcas das grandes superfícies embalam as misturas que houver disponíveis no mercado, sem indicarem a origem. Nos supermercados chineses, por outro lado, encontramos produtores tailandeses reconhecidos e certificados, com arroz excelente.

E o agulha, onde fica? O agulha é oficialmente arrumado nos índica, ainda que a fronteira seja ténue. Margarida Oliveira, investigadora do Instituto de Tecnologia Química e Biológica, da Universidade Nova — responsável pelo arranque do último programa de melhoramento do arroz — defende tratar-se antes de um japónica “com sangue Índica”. Ou seja, estará ali entre um e outro, fruto de cruzamentos entre ambas as famílias.

O apreço português pelo agulha terá nascido precisamente desse equilíbrio. No fundo, o agulha dá ares de carolino e simultaneamente —  mesmo às mãos de gente com pressa e sem talento —, aguenta firme águas borbulhantes durante 12 minutos. E nem tem de ser mexido.

É preciso notar-se que o agulha era raro em Portugal. A marca que o disseminou foi a Cigala, do grupo espanhol Mundiarroz, que conquistou o país no início do século XXI. A Cigala era o arroz agulha. Era o arroz publicitado como “fácil de preparar”. Perante o rápido sucesso, a concorrência foi forçada a ir atrás, baixando a entrega de carolino para comprar agulha. 

Para a indústria portuguesa, para as entidades que representam o sector (como a Cotarroz), e para a maioria dos apaixonados por arroz (como eu), a supremacia do agulha entristece. É, de alguma forma, um arroz fast food, sem grandes nuances. É um arroz que nunca é muito mau, mas também nunca é muito bom.

Dito isto, parte do sucesso do agulha tem a ver com o insucesso do carolino. Nos últimos 40 anos, tratou-se muito mal o carolino português. 

Em busca do Allorio 

Durante anos, questionei-me: onde está o pequeno produtor com uma parcela banhada por águas cristalinas, que monda à mão e cata o seu arroz ancestral, bago a bago? Que arroz é usado nos restaurantes com estrelas Michelin? Onde anda o arroz artesanal? Será que existe?

Margarida Oliveira falara-me de pequenos produtores do Mondego, onde ainda se cultivariam pequenas parcelas para consumo próprio de Allorio. O Allorio seria a única variedade portuguesa a resistir à ofensiva italiana. “Fazia um arroz doce espectacular”, diz-me, ao telefone, Ana Sofia Almeida, investigadora do INIAV e responsável, actualmente, pelo melhoramento do arroz português.

O Allorio desapareceu pelas mesmas razões que desapareceram trigos antigos, entretanto recuperados e venerados pelos padeiros. Má produtividade, palha alta. “Já não estava adaptado aos tempos modernos”, conclui Ana Sofia Almeida. “Hoje em dia, estas variedades são obsoletas, não são competitivas”. 

Mesmo assim, fui à procura do Allorio e dos produtores pequeninos. Na minha cabeça, o valor da competitividade não deveria acabar com a diversidade. Por várias razões, incluindo o facto de a antiguidade ser um posto, um posto genético. 

Neste afã, liguei ao chef Bruno Caseiro. Para além de fazer um belíssimo arroz, nos últimos anos Bruno Caseiro trabalhou rodeado pelos arrozais do Sado, no restaurante Cavalariça Comporta (acaba de abrir o Cavalariça Lisboa). Bruno foi, todavia, o primeiro a desiludir-me. “Que eu saiba, isso não existe. Não há arroz artesanal”.

Se o Bruno não conhecia, dificilmente alguém iria conhecer. A mesma resposta ouvi de todos os quadrantes, da indústria a arrozeiros amadores. O arroz requer um grande investimento em equipamentos e instalações e tem margens curtas. Não há espaço para os pequeninos. As empresas só sobrevivem devido à forte subsidiação estatal do sector. E os consumidores não estão interessados em pagar os custos que vêm com o artesanato. “O arroz é uma commodity.”

Commodity, commodity, commodity. Não há ninguém que não junte arroz e commodity na mesma palestra sobre o assunto. O significado é este: mercadoria, algo sem valor diferenciado, com preço uniforme e independente da origem e da qualidade. 

Mas será isto verdadeiro? Ou o arroz será indiferenciado porque a indústria e os cozinheiros de laboratório assim o decidiram? Porque é que nunca se tentou multiplicar e melhorar as sementes antigas, como o Alloria? 

A verdade é que se tentou, mas foi tudo por água abaixo, por rio abaixo. Os cientistas sempre desvalorizaram o encanto gastronómico das variedades antigas. E pelo meio houve ainda um caso grave de incompetência da administração do Estado. 

Parte da actual miséria arrozeira do país tem a ver com uma desgraça científico-administrativa ocorrida em 1986. Nesse ano, todo o trabalho de melhoramento e preservação de variedades portuguesas de arroz perdeu-se. 

“Os dois investigadores do INIAV que desenvolviam o programa de melhoramento de arroz reformaram-se”, conta Ana Sofia Almeida, que entretanto tomou as rédeas do programa de melhoramento. “De cada vez que se interrompe o programa, anda-se tudo para trás”, acrescenta. Foram 12 anos de trabalho para o lixo. 

E não havia ninguém que pudesse prosseguir o que os dois reformados andavam a fazer? “É difícil, o trabalho dos melhoradores é muito pessoal, é quase como passar conhecimento de avô para neto”, diz Ana Sofia Almeida. 

Aquilo que aparenta ter sido uma catástrofe gastronómica, ecológica, cultural foi, assim, engavetado como um percalço. Um azar, um erro sem nome, sem responsáveis, sem notícia. Por causa de duas reformas de funcionários do Ministério da Agricultura, à altura liderado por Álvaro Barreto, o país está há três décadas forçado a comprar sementes a Itália, campeã na modalidade.

Esperemos, por isso, que Ana Sofia Almeida não se reforme. Ela tem em mãos uma tarefa enorme e entusiasmante. Desde 2010 que planta linhas e faz cruzamentos de material genético, prosseguindo o trabalho iniciado por Margarida Oliveira e Benvindo Maçãs, também do INIAV, no início dos anos 2000. 

Um dos principais objectivos de Ana Sofia Almeida é criar plantas resistentes. O arroz tem vários inimigos, o maior do qual dá pelo nome de piriculariose. A piriculariose é um fungo devastador, o míldio do arroz. Em Portugal, ataca mais no Mondego do que a Sul, seja na lezíria ribatejana, seja no Sado. 

A outra característica que se procura sempre nestes ensaios é a capacidade de produção. Para que haja um ponto de comparação, as novas variedades são sempre semeadas em condições semelhantes, lado-a-lado com variedades comerciais já estabelecidas. A avaliar pelos ensaios, pelo menos duas das novas variedades em que o INIAV está a trabalhar são mais produtivas do que a variedade-testemunha Ariete. 

Então e as propriedades organolépticas, palavrão que remete para o aroma, para a textura, sobretudo para o sabor? Na verdade, este costuma ser o parente pobre dos programas de melhoramento de variedades. Mas há evidências de que, neste caso, podemos estar perante algo diferente. Ao que tudo indica, uma jóia extraordinária estará a nascer nos arrozais portugueses. 

Ceres, o carolino que está por vir

A demanda pelo pequeno produtor de arroz culmina no concelho de Alcácer do Sal. No Torrão, vive um dos mais fervorosos defensores do arroz português. Apesar de serem os vinhos da Herdade do Portocarro que lhe dão fama, José Mota Capitão tem no carolino a sua grande paixão.

“É o melhor alimento que há”, atira, fazendo um discurso torrencial. “Você, desculpe, mas não consigo parar de falar sobre este assunto”, diz a dada altura, rindo. 

Através da marca Loverice, usada por chefs Michelin como Henrique Sá Pessoa (restaurante Alma) e Hans Neuner (Ocean), Mota Capitão faz um arroz de quinta certificado. As variedades cultivadas na sua Herdade do Portocarro são todas da subespécie japónica, com o Ronaldo no topo da tabela de vendas.

Dos seus 60 hectares de arrozal, 20 por cento de cereal é embalado com a sua marca (semeia, seca, armazena e descasca em Santiago do Cacém), os outros 80 por cento seguem para a Aparroz, a associação que reúne produtores do Sado.

Arroz de forno de borrego, do restaurante Herdade do Esporão, em Reguengos de Monsaraz. Feito com a variedade calasparra, da Aparroz.

Em Portugal, o Loverice é o único pacote no mercado sem qualquer percentagem de trinca e em que se garante que cada bago cresceu exactamente no mesmo terroir do bago ao lado. 

Mota Capitão preza os seus arrozes, cozinhando ele próprio cada um deles com o cuidado de um ourives. Mas lamenta ainda não poder comercializar um carolino de linhagem portuguesa. “Quando for possível, serei o primeiro a cultivá-lo”, diz. A sua segurança vem disto: ele foi dos poucos privilegiados que já provou o Ceres.

O Ceres anda nas bocas de toda a gente do sector. Mota Capitão não tem dúvidas. “É o melhor arroz carolino que já provei na minha vida”, confessa.

As mesmas exclamações ouvi da melhoradora — e parteira do recém-nascido — Ana Sofia Almeida. “É um verdadeiro carolino português”, “100 por cento vítreo”, “muito saboroso”. 

Apesar de não haver ainda um painel de provadores a testarem sistematicamente as novas variedades (estará para breve a sua criação), os afortunados que já levaram o Ceres à boca são unânimes. É o melhor. É a esperança do sector.

Pedro Monteiro, presidente da Casa do Arroz, associação que reúne agricultores e industriais, disse sobre esta variedade o que Baco não disse do vinho: “As expectativas são enormes. Os testes realizados com o Ceres, tanto no campo como nas fábricas, demonstram que tem um bom rendimento. A mais importante de todas foi a prova de degustação: é provavelmente um dos melhores carolinos que já alguma vez provámos! Tem um potencial gastronómico fabuloso e vai ser um sucesso estrondoso!”, lê-se numa entrevista publicada a 25 de Junho de 2021, no site da Lusosem, empresa de semente portuguesa.

Mas, então, e quem são os pais genéticos da estrela por brilhar, com que arrozes foi cruzado o Ceres? A investigadora do INIAV joga à defesa: “Não posso dizer-lhe, esse é o segredo do negócio”, começa por responder. Mas depois, lá vai revelando que terá sangue de Estrela A, um agulha antigo, bem como de carolinos diversos. 

A par do Ceres, foram já inscritos no Catálogo Nacional de Variedades mais dois outros arrozes, nascidos no âmbito do programa de melhoramento liderado por Ana Sofia Almeida. São eles o Diana (outro carolino) e o Maçarico (agulha). Estarão ainda na calha duas variedades (ainda por baptizar) com linhagens muito antigas de carolinos portugueses, entre eles o Allorio.

A dúvida é: quando poderemos pôr-lhes o dente. Os cruzamentos que deram origem ao Ceres remontam a 2004. E a variedade terá sido incluída em ensaios agronómicos desde 2012. Sabe-se, para já, que o seu comportamento no campo é bom, sempre acima da concorrência.

Ana Sofia Almeida perspectiva que a variedade entre no mercado só em 2024. Já Pedro Almeida fala em 2023. Porquê a espera? A investigadora do INIAV diz que agora é preciso abrir concurso para as duas empresas de sementes certificadas em Portugal — a Lusosem e a Tecnorisi, que dominam a importação das variedades italianas — comprem a licença para as vender. 

José Mota Capitão acha que é tempo a mais. Na sua opinião, a demora é uma questão de dinheiro. Tem a ver com a falta de interesse das empresas de sementes no negócio, por se tratar de uma variedade com patente aberta. “Como não há negócio, não há concurso. É o perfeito descontrolo”, lamenta. 

Resta-nos aguardar pavlovianamente. O arroz caldoso dos nossos sonhos, o carolino dos livros antigos, ainda pode vir a ser resgatado.


Ricardo Dias Felner
Escritor e Jornalista

 

Partilhe este texto:

Últimas