Casa Ventura 

A experimentar

Crítica de Restaurantes

Casa Ventura

A mais famosa casa de Telões não é um mimo do design de interiores, mas tem uma das melhores cozinhas do país. 

No momento em que a cabidela aterra na mesa, dou conta de um cacarejar intenso.

Estou no quintal das traseiras da Casa Ventura e logo ao lado há uma horta com capoeira. Ocorre-me que o farm to table anda cá desde os nossos trisavós e não foi uma coisa inventada em Copenhaga no século XXI por um chef que nunca degolou uma ave.

Em Telões, nas imediações de Amarante, há quatro gerações que se trazem coisas das hortas para a mesa. Mais do que conceito trendy, é paixão, respeito e sobrevivência. Aqui, a moda nunca ditou regras e é por isso que há convicção e apuro sólidos.

São décadas a conhecer produtos e produtores da região, a afinar pratos e serviço. O que o jovem Artur Ventura faz, já era o quotidiano do trisavô. E à mão na cozinha e atenção ao detalhe.

Veja-se o bacalhau à casa, desse frito. Tão simples, não? A essência é só isto: bacalhau frito, cebolada, batatas fritas. E no entanto onde se encontra o exemplar perfeito? Quantos têm o bacalhau de topo?, com o sal nesse limbo precário de quase-salgado?,  e a fritura uniforme e no ponto? E não me falem de lascas. Lascas há muitas. Quem quer lascas de fraca cura?

E, no entanto, a primeira vez que fui à Casa Ventura, estava receoso. Ao telefone haviam-me dito que não aceitavam reservas para as 14.00. Era aparecer e rezar por lugar. A fama do sítio fazia prever o pior — e as coisas não melhoraram à chegada.

De imediato, a dúvida. Será mesmo este o sítio? Tinha na cabeça uma moradia, um edifício rústico e imponente e com néon de marca de café, mas o GPS indicava uma portinha de alumínio apertada num rés-do-chão de uma casa devoluta, sem glamour rural.

Já o bar era mais bonito e confortável, com madeiras e vernáculo. Mas estava cheio. “Aqui não há lugar, prefere lá fora ou na sala das traseiras”, atirou-me um dos funcionários. Espreitei a sala das traseiras: parecia uma garagem para onde tinham atirado sobras de mobiliário.

“Vou lá para fora, se não se importa”.

No quintal das traseiras, o mesmo desprezo a minudências arquitectónicas e estéticas. Nem canteiros, nem deck, nem amesentação de três copos. Só cadeiras, mesas, guarda-sóis, frigoríficos. E, como decoração, complexas instalações eléctricas, cabos percorrendo as paredes e terminando em extensões que ligavam a extensões.

Ao longo do almoço, percebeu-se que tudo isto acontece por uma razão simples: todo o empenho está na cozinha, no serviço e na conta. Dar a melhor comida com o máximo de simpatia e o mínimo de preço. É esse o objectivo de uma tasca boa — e a Casa Ventura é das melhores.

Importa que a cebola nova tenha sido desenterrada há pouco tempo e sobressaia só com a sua doçura, sal, vinagre de vinho verde e azeite maduro. E que a sardinha albardada esteja frita no ponto, húmida por dentro e com o polme estaladiço. E que os bolinhos de bacalhau sejam desses rijinhos e secos porque cheios de bacalhau e não de puré aguado. E que o verde tinto esteja na temperatura certa, limpo, saboroso como um suco de Verão (“Compramos pequenos lotes a lavradores da zona”). E que as rabanadas sejam feitas no momento — e haja sempre “ambrósios”. E que pedreiros comam ao lado de doutores, e famílias aprumadas a celebrar um aniversário com peixes-galo se sentem atrás do grupo do futebol de salão local, uma fileira de testosterona a recuperar calorias com alheiras e travessas de galo com ervilhas. E que toda esteja feliz, os Ventura incluídos, do pai Abílio aos filhos.

Se corre sempre tudo bem? Se é tudo perfeito? Não, com certeza. Se assim fosse, não era uma casa de comida popular. Os cata-defeitos certamente identificariam alguma acidez volátil no vinagre de verde tinto caseiro servido com a cebola crua — por exemplo. E também o azeite era desse com tulha (coisa que na medida certa, com a comida certa, até pode funcionar).

Outro problema é que muita da melhor comida está fora dos pratos do dia e só se consegue por encomenda, como são os casos das cabidelas e dos galos no forno, do robalo ao sal ou do cabrito de caldeirada. É preciso ligar antes e, de preferência, levar uma turma de gente com apetite.

Nada de grave, perante o prazer de comer uma cabidela de estalo ao som dos galos do vizinho.

Rua do Castanheiro Redondo, 1228, Telões (Amarante). 255 482 211. Ter-Dom 11.00-22.30


Ricardo Dias Felner
Escritor e Jornalista

 

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