Casa de Chá da Boa Nova | O lunático, o poeta e o (a)mar Português

A experimentar

“Temos que usar a experiência naquilo que ela garante, mas também libertar-nos dela, naquilo que ela prende.” Álvaro Siza Vieira

Os poetas sempre foram um pouco “chalupas”, alguns chegam mesmo a reconhecê-lo, como William Shakespeare por volta de  de 1590:  “O lunático, o amante e o poeta são constituídos apenas por imaginação”, escreveu. Algumas décadas antes destas palavras terem sido pensadas por Shakespeare, já se materializaram na vida de um jovem chamado Luís Vaz de Camões, hoje venerado como um dos maiores poetas do nosso país.

Casa de Chá da Boa NovaEmbora o tempo tenha ido obscurecendo alguns detalhes da vida de Camões, ainda é possível vislumbrar por entre o nevoeiro da memória um louco-romântico com uma certa queda para as letras. A sua biografia oscila entre o louvor e expulsões por parte do rei, passeia por vários países e inclui uma cena de pugilato em plena baixa lisboeta, um naufrágio e vários casos amorosos bastante “quentes”.

Casa de Chá da Boa NovaCamões nasceu num berço de ouro (numa família lisboeta aristocrática), algures por volta de 1524, e a sua juventude foi aparentemente conturbada, fazendo-o passar “de um jovem brilhante, selvagem e bonito para um jovem rufião gay sem um tostão.” (enciclopédia online Britannica/historiador Edmond Taylor).

Casa de Chá da Boa NovaA vida mais íntima de Camões sempre esteve envolta num grande mistério e polémica, nunca se sabendo ao certo, quem fez mais rimas com o seu coração.  Terá sido Dinamene (uma amante chinesa a que Camões se refere em alguns dos seus poemas)? Terá sido Joana, irmã de D. António, como defende o historiador José Hermano Saraiva? Ou terá sido D. António de Noronha, um jovem que morreu em Ceuta com 17 anos, teoria avançada pelo escritor Frederico Lourenço no seu livro “Pode Um desejo Imenso’”?

Casa de Chá da Boa NovaComo é óbvio, a orientação sexual do poeta não tem de ser tida nem achada, apenas a “usei” para realçar o facto de pouco sabermos sobre um  dos nossos maiores poetas. Certo é que era um homem apaixonado, violento, impetuoso e um tanto ou quanto boémio.

Casa de Chá da Boa NovaEsse carácter muito vincado levou à sua expulsão de Lisboa quando tinha 20 anos. Não se conhece o motivo exacto, embora existam rumores de um romance indecoroso com uma princesa, uma dama de companhia … ou ambas!!! 😛 – Camões zarpou com a marinha portuguesa para defender o território colonial, ficando cego de um olho durante uma escaramuça com os mouros num lugar algures na costa norte-africana.

Casa de Chá da Boa NovaCamões regressou a Lisboa por volta de 1551, envolvendo-se de novo em problemas, desta vez e por ter ferido um oficial do rei durante uma briga de rua, foi parar à prisão. A sua sentença foi materializada em três anos de serviço militar forçado, tendo sido enviado em 1553, para Goa, na Índia. Quando terminou o serviço militar, terá partido para Macau e assumido um cargo importante na administração colonial.

Casa de Chá da Boa NovaTalvez tenha sido todo esse tempo passado no mar, entre expulsões e regressos, que inspirou Camões a escrever “Os Lusíadas”, um poema épico que todos conhecemos, ou que devíamos conhecer, e que nos narra em verso as viagens do navegador Vasco da Gama ao Oriente. Ao que parece, Camões e Vasco da Gama eram família, ainda que afastada.

Casa de Chá da Boa NovaCamões terá começado a escrever essa obra quando se encontrava em Macau.  Algures durante esse processo de escrita, foi acusado de corrupção e enviado a Goa para julgamento, sofrendo um naufrágio no Delta do Mekong durante a viagem (num lugar próximo onde hoje fica o Vietname). Há historiadores que adicionam um toque extra de drama a esta história, alegando que Camões, enquanto se tentava salvar, terá carregado para a costa “Os Lusíadas”, mantendo-os sempre à superfície de modo a não os danificar.

Casa de Chá da Boa NovaA parte menos romântica da história é que com um braço ocupado com o manuscrito e outro a remar para costa, não lhe sobrou mais nenhum para ajudar a sua namorada de então, que viria a morrer afogada nesse naufrágio. Prioridades, ao que parece a rapariga temperava mal a comida. 😛

Casa de Chá da Boa NovaEste poeta de coração selvagem e mirolho, parece finalmente ter acalmado na última década da sua vida, logo após um amigo ter pago a sua viagem de regresso a Lisboa, desde Moçambique (tentei encontrar informação sobre o que Camões faria em Moçambique, mas infrutiferamente). Quando “Os Lusíadas” foram finalmente publicados em 1572, o poeta dedicou-os a D. Sebastião, que aparentemente terá gostado da obra ao ponto de lhe conceder uma modesta pensão que lhe permitiria viver condignamente até ao fim dos seus versos.
Casa de Chá da Boa NovaCamões morre em 1580, com 56 anos. Tal como acontece com a maioria dos poetas, alcança a fama após a morte, sendo hoje considerado como o primeiro poeta global. Para além de ter perpetuado a nossa história, gravando-a em palavras que rimam, o legado de Camões é imensurável: ensinou-nos a ter orgulho em ser Português, em acreditar em segundas oportunidades e a celebrar o que os nossos navegadores deixaram ao mundo: as verdadeiras dimensões da Terra, os novos povos, os novos caminhos, as novas riquezas e as “ferramentas” para uma nova gastronomia.

Casa de Chá da Boa NovaComo seria hoje a nossa alimentação se não tivéssemos a abóbora, a cana de açúcar, as especiarias exóticas, o amendoim, o ananás, a batata, o cacau, o feijão, o girassol, o milho, o pimento, o tomate ou a baunilha? Todos estes elementos trazidos para a Europa pelos portugueses surgem no nosso cardápio devido aos contactos que os nossos navegadores efectuaram em África, na Ásia e na América. Trouxeram-nos (e, quando era possível, transplantaram-nos) para Portugal continental ou para os arquipélagos da Madeira e dos Açores, enraizando-nos no nosso cânone gastronómico.

Casa de Chá da Boa NovaE assim, a história de Portugal está desde esses tempos gloriosos umbilicalmente ligada ao mar. As nossas gentes, a nossa cultura, os nossos costumes e a nossa gastronomia seriam bem diferentes sem essa influência trazida do mar. É por tudo isto que vos contei anteriormente, que a excelência/diversidade da nossa gastronomia tem uma “dívida de glorificação” para com o mar, com esses navegadores e com Camões.

Casa de Chá da Boa NovaÉ também para glorificar esta relação antiga com todos eles que o menu “Por mares nunca antes navegados” da Casa de Chá da Boa Nova do Chefe Rui Paula nos leva a (re)conhecer o nosso passado e a descobrir pontes com o futuro, usando a poesia dos cantos de Luís de Camões.

Casa de Chá da Boa NovaO menu começa com o Canto I Torrada/Cevada, com pão torrado, manteiga de alga e cerveja artesanal. Resulta de memórias da infância do Chefe Rui Paula e é crocante, untuoso, rico e induz conforto. Servido sobre brasas fumegantes, assume uma dimensão extra no sabor e na experiência visual. O Canto II Escabeche/Carapau rodeado de batata crocante, o Canto III Taco de frutos do mar com salada fresca e finalizado com guacamole, e o Canto VI Lingueirão com milho frito carregavam um sabor a mar inspirador, que nos entra pelo corpo e se fixa nos rochedos das nossas recordações. Haverá maior simbiose com o cenário que observamos pela janela do restaurante?

Casa de Chá da Boa NovaCom o palato já aos saltos seguiu-se o Canto IX Éclair de Mexilhão recheado com mousse de couve-flor e adornado com um pedaço de folha de ouro por cima, transportava um mexilhão carnudo, muito mar e uma untuosidade salgada muito engraçada. A harmonização vínica roçou a perfeição com o aroma fino e elegante com apontamentos de alperce, maça verde e citrinos do Espumante Pinot Noir CC&CP 2011.

Casa de Chá da Boa NovaCom o Canto X Robalo no seu habitat demos um mergulho num mar gastronómico através de um robalo espectacular com a sua pele crocante, uma emulsão de plâncton, percebes e salicórnia. O contraste entre a crocância exterior e a suculência quente aprisionada no interior era arrebatadora.  É um prato muito complexo, na apresentação, nas texturas, nos sabores e nos aromas, estando todos estes vértices unidos pelo mar. Seguiu-se um dos meus 2 momentos favoritos… o Canto XI Vieira e Tapioca, vinagrete de limão e pó de chouriço. Muito provavelmente foi a melhor vieira que comi até hoje. É finalizada na mesa, com pompa e circunstância, como se de uma obra de arte se tratasse. Emana uma voluptuosidade elegante e um conjunto de texturas que quando são conjugadas com uma confecção perfeita da vieira criam algo bom, algo verdadeiramente bom!!!

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