Prefiro conciliar

A experimentar

Se o EGGAS me tivesse convidado para escrever estas crónicas há 30 anos, algumas das minhas preferências seriam outras. Na maioria dos casos, não por serem diferentes do que são hoje, mas porque as prioridades… e, atrás delas, as escolhas seriam outras.

Não confundo preferências com princípios. Dou-me por satisfeito quando constato que, 30 anos depois, os princípios se mantêm activos, firmes e hirtos. Dou-me conta que, por vezes, são os meios que mudam para garantir um final feliz sem que os princípios reclamem.

Trinta anos antes talvez o título fosse  “Prefiro conflituar”. Os trinta são os anos de todos os conflitos. De todos os trinta e um nas nossas vidas. Nessa idade temos tempo de corrigir erros, vingar derrotas, adorar diabos e dourar a pílula. Como a cronologia nos ensina, não haveria sessenta sem os trinta. Como a vida nos ensina, quem não se tenta aos 30, não aguenta os 60.

Com 30 anos, achamos sempre que temos outros 30 para mudar de vida. Mudar de amigos e de mulher. De gostos e de preferências. Do verde para o maduro. Do branco para o tinto. Do tawny para o vintage. Do Serra para o Serpa. Da carne para o peixe. Da tasca para o restaurante. Da praia para o campo. Da neve para o golfe. Da fadiga do Norte para o remanso do Sul. Mudar de país e de continente.

Com 60 anos, surpreendo-me a conciliar amigos desavindos. Massa com grão. Leitão com miúdos. Lampreia com vinhão. Lapas com lulas. Arroz com legumes. Cavala com espada. Paté com pão. Pato com escabeche. Queijo com doce. Maracujá com espuma. Tangerina com poncha. Esplanada com chuva e café com cheirinho.

Quem diria que conciliar dá mais trabalho que conflituar? Aos 30 achamos que não, aos 60 sabemos que sim. Se calhar é porque antes só acreditávamos em nós e contávamos sempre com os outros e, mais tarde, percebemos que precisamos de acreditar nos outros para podermos contar sempre connosco.

Quem diria que escolher dá mais trabalho do que confiar? Aos 30 tinha a certeza que sim, aos 60 já aprendi que não. Se calhar é porque a desnaturada presunção dos mais novos  conflitua com a falsa modéstia  dos mais velhos. Dantes confiava nas escolhas dos chefs da cozinha ou dos chefes de sala, depois de me ouvirem. Hoje  prefiro ser eu a escolher depois de os ouvir.

Com 30 anos, preferia o conflito se as coisas corressem mal. Agora prefiro conciliar comigo a culpa de uma má escolha. Coisa muito rara.


Manuel Serrão
Empresário

 

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