A Insustentável Leveza do Ser

A experimentar

Milan Kundera legou-nos esta obra numa apologia à fragilidade das coisas terrenas e sobretudo humanas. Aí vivemos, num rascunho da vida que nunca pode ser vivida por inteiro. Porém, há momentos em que os rabiscos da rotina são suplantados diante da retoma aquisitiva das coisas que havíamos perdido: o 19 de abril de 2021 foi um desses momentos.

Andava a sonhar em ir jantar fora. Visitar os velhos amigos que são inimigos da condição física que atualmente atravesso – a dieta rígida. Foi assim, com grande pena minha, que não pude ceder ao Dia dos Namorados, num restaurante idílico, com velas possivelmente, uma boa música ambiente para entreter os silêncios, comida deliciosa, vinhos delicadamente escolhidos, num Porto especialmente coberto de misteriosos nevoeiros daqueles clássicos fevereiros.

Não me foi possível. Também não o foi quando existiram jantares de anos adiados ou até quando estava diante da necessidade da retraça noturna – adiamentos sucessivos que, por mais que tentássemos fugir ou enganar, nos mostravam a insustentável leveza do ser.

Porém, apesar das autoridades centrais resistirem ao retorno da nossa liberdade, o fatídico dia da liberdade chegou. Veio amiúde, com o retorno das esplanadas, tendo os comerciantes sido bafejados com duas semanas de sol ininterrupto, num apelo de coragem divina a uma resistência que cada vez mais difícil se tornava. 

(Uma nota interessante, e num paradoxo irritante em relação a toda a prática consuetudinária de qualquer forma de poder, é notar o florescimento de mesas e cadeiras em todas as esquinas. Afinal, para incredulidade dos homens regulamentares e normativos, as esplanadas não atrapalham a via pública – pelo contrário, dão-lhe vida e cor, afastando-nos do cinzento esbatido dos passeios velhos. Apesar de odiar a expressão “o novo normal”, espero que este seja para se manter: esplanadas à beira rua plantadas).

Assim, e apesar de toda a desgraça acumulada, nessa segunda-feira voltámos a ver os sorrisos que temperam a vida citadina. As pessoas saíram das tocas e, parece-me, que não estão dispostas a ceder nem mais um milímetro da sua liberdade, bem como o período desta longa hibernação se torna (para sempre) intolerável – as pessoas servem para viver e finalmente compreenderam isso. 

Aristotelicamente falando, somos seres sociais e temos uma necessidade intrínseca de comunhão plena com os outros membros da sociedade. Conhecem melhor forma do que uma refeição, um restaurante ou uma esplanada para responder a esse desígnio? Horas de vazio produtivo que nos preenchem enquanto humanos. São, mais uma vez toco neste assunto, as pequenas coisas que dão o preenchimento às grandes – os pequenos cafés românticos que acabam em casamento, o verdadeiro bater de asas da borboleta na Austrália. 

E saímos à rua. E continuamos a sair à rua, faça chuva ou faça sol. Precisamos disto para continuar. Já nos basta os problemas da vida diária, os salários e os empregos, o trânsito e as buzinadelas, as chatices que transtornam o nosso dia e, em boa verdade, sem o café, o fino, o lanche ou jantar, tornam-se insofismavelmente intoleráveis.

Criámos isto tudo e, não obstante, dávamos tudo por adquirido. Agora, tomada a consciência da nossa leveza, da capacidade de tudo ruir em instantes, sentimo-nos verdadeiramente mais leves. Conscienciosos do que pode acontecer, mas leves. Quem é leve é feliz e já há muito tempo que não nos tiravam este peso de cima. Que seja para ficar.


José Maria Couceiro da Costa
Estudante

 

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